1950

No ano em que a Copa volta ao Brasil, nenhum dia deve ser mais lamentado do que este 7 de abril

Depois de 64 anos, o Brasil volta a sediar uma Copa do Mundo. Um evento único, com seus heróis e seus vilões, suas glórias e seus dramas, suas grandezas e seus dilemas. Por mais que seja uma grande festa, o brasileiro também tem seu direito de lamentar alguns pontos deste Mundial. E, dentre as lástimas que permeiam o torneio, a mais dolorosa se tornou irreversível em 7 de abril de 2000. Afinal, ali se perdia em definitivo a chance de mudar uma injustiça histórica, talvez a maior deste país. Moacir Barbosa morreu sem nunca ter sido perdoado pelo que viveu na Copa de 1950.

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O goleiro é um símbolo da maior decepção do futebol brasileiro. Outros dez jogadores estavam ao seu lado e também foram considerados culpados pela derrota para o Uruguai. Mas ninguém de forma tão veemente quanto Barbosa, se tornando até mesmo um escudo para os companheiros. “No Brasil, a pena máxima por um crime é de 30 anos. Eu pago há 50 anos por um crime que não cometi”, dizia o senhor sereno, marcado pelos fantasmas que o perseguiram a partir daquele 16 de julho. Quando o Maracanã instalou traves de ferro, as velhas, de madeira, foram dadas ao ex-goleiro. Barbosa as usou para fazer um churrasco. Mas nem o fogo foi capaz de libertar o veterano que carregava um peso enorme, uma cruz que colocaram sob seus ombros por um lance fortuito.

Dos 22 jogadores que estiveram em campo naquela partida, apenas um continua vivo. Justo aquele que, sem ter intenção disso, bateu o martelo para a sentença de Barbosa. Alcides Ghiggia tornou-se amigo daquele que lhe deu uma brecha de centímetros para se consagrar, mas que, em contrapartida, ganhou uma chaga. Nos reencontros, a derrota nunca era tocada para evitar a dor dos brasileiros. Um silêncio respeitoso, bem mais eloquente do que feito pelas arquibancadas lotadas depois do gol decisivo.

Ghiggia também sofreu com um vazio enorme. Nunca teve a chance de ouvir seus compatriotas gritarem o seu gol. Uma falha que só foi corrigida no ano passado. Antes do início de um jogo da Celeste pelas Eliminatórias, milhares ovacionaram o mito no Estádio Centenário. Uma cena fortíssima, emocionante. E que poderá ser repetida no Maracanã, em uma nova final de Copa do Mundo. Por mais que o carrasco tenha se tornado um pesadelo aos brasileiros, ele é uma lenda viva. Que merece todos os aplausos pela história que ajudou a escrever e pelo caráter que tem.

Uma pena Barbosa não poder viver o que Ghiggia terá a chance. Depois da queda diante dos uruguaios, o goleiro sequer pôde defender a Seleção pela última vez no Maracanã, quanto mais disputar uma nova Copa do Mundo. A um passo para a eterna exaltação dos campeões, precisou aprender a conviver com a incurável amargura de quem é derrotado.

Catorze anos depois de sua morte, que seja feita para Barbosa uma oração em forma de lembrança, nesta profissão de fé que é o futebol. Se há 64 anos 200 mil presentes na final maldisseram o camisa 1, que hoje 200 milhões de brasileiros bendigam o nosso herói do sofrimento. Não apagará as décadas de injustiça contra ele. Mas fará cada um pensar o quão sensacional seria ver aquele senhorzinho de 93 anos se emocionando com a aclamação do Maracanã lotado, de novo em uma final de Copa. Aquilo que nunca sentiu. Coitados somos nós, que não poderemos viver esse momento e homenageá-lo como, de fato, merecia.

Moacir-Barbosa

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