Ao longo dos últimos anos, a torcida do Hamburgo se acostumou com um rito. O primeiro ato vinha com a desesperança de ver o gigante, mais uma vez, mal na Bundesliga. Depois, a perseverança, de lutar até o fim pela permanência na elite do futebol alemão. Por fim, o invariável alívio, que sempre surgia no momento final, fosse ao término da temporada regular, fosse nos playoffs. Nesta temporada, a desesperança dos hamburgueses foi longa e dependeu de uma perseverança já cansativa, por todo o histórico. Mas o alívio final não veio. O Hamburgo até venceu o Borussia Mönchengladbach por 2 a 1, mas o Wolfsburg também venceu o Colônia por 4 a 1, o que decretou o rebaixamento dos Dinossauros.

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Desde 2011/12, quando correu risco de ser rebaixado pela primeira vez nesta década, o Hamburgo repetiria o ritual em outros quatro anos. Por duas vezes, se safou da queda direta nos últimos momentos e, nos playoffs, desfrutou a redenção. Em outros dois, fugiu do Z-3 apenas nos momentos finais da liga. E nem mesmo com sua torcida inabalável, nem mesmo com uma estrutura financeira razoável, nem mesmo com mudanças no elenco, nem mesmo em um campeonato equilibrado como o Alemão, o Hamburgo pareceu aprender com os erros. Mais uma vez, sofreu nesta temporada.

O Hamburgo, a quem não lembra, chegou a aparecer na zona de classificação à Liga dos Campeões no início da temporada, ao emendar duas vitórias nas duas primeiras rodadas. A partir de então, o ânimo já cessou, com oito partidas consecutivas sem vencer. A crise de outros times, inclusive o rival Werder Bremen, e as duas vitórias em novembro até permitiram respirar. Por fim, a virada do ano se tornou totalmente claudicante. As 15 rodadas em jejum jogaram os Dinossauros ao Z-2 e, inimaginável, à lanterna com a recuperação do Colônia. Tudo parecia, enfim, perdido aos hamburgueses.

Foi quando retomaram a perseverança. E a campanha a partir de abril permitiu sonhar. O Hamburgo primeiro venceu o Schalke, em virada emocionante, antes de triunfar também nos confrontos diretos com Freiburg e Wolfsburg. A derrota na penúltima rodada, contra o Eintracht Frankfurt, diminuiu bastante as probabilidades. Mas o que custava carregar a crença do impossível até o último compromisso, em casa, contra o Borussia Mönchengladbach. Os Dinossauros dependiam da vitória. Mais do que isso, dependiam de uma derrota do Wolfsburg, único concorrente a esta altura do campeonato. E uma derrota dos Lobos em casa, contra o já rebaixado Colônia. Caso o milagre acontecesse, ainda teriam que encarar o Holstein Kiel, terceiro colocado da segundona, nos playoffs.

A desesperança bateu ao Hamburgo logo cedo. No primeiro minuto de jogo na Volkswagen Arena, Joshua Guilavogui abriu o placar ao Wolfsburg contra o Colônia, aproveitando um erro dos Bodes na saída de bola para chutar forte da entrada da área. Mais do que fazer sua parte, os Dinossauros precisariam torcer pela virada de um time já rebaixado. Só que a perseverança reapareceu. Primeiro, em um pênalti só assinalado pelo VAR, que Aaron Hunt converteu, botando o HSV em vantagem.

A pressão do Hamburgo era grande. E por isso mesmo, cedia espaços ao Gladbach. Em um contra-ataque, Josip Drmic deixou tudo igual no Volksparkstadion aos 27 minutos. Ainda assim, a perseverança vadia reapareceu quando, cinco minutos depois, quando Jonas Hector anotou um golaço para empatar o jogo na Volkswagen Arena. O HSV voltava à estaca zero, dependendo de apenas dois gols, um dele e um do Colônia.

Novamente, a esperança durou pouco. Aos oito minutos do segundo tempo, o Wolfsburg voltou a ficar em vantagem com Origi. O Hamburgo ao menos conseguiu o seu gol, com Holtby, e vencia a partida, aos 18 minutos. Àquela altura, já pouco esperançosos de um milagre. Até porque o Wolfsburg marcou mais um com Knoche, aos 26 minutos. e ainda fecharia o placar aos 45 minutos com Brekalo.

No final, sinalizadores foram acesos e uma confusão começou. A polícia teve que agir e ocupou o gramado, fazendo o árbitro Felix Brych parar o jogo, já nos acréscimos. O jogo foi retomado, mas logo o árbitro apitou pela última vez e encerrou o jogo. A vitória veio, mas não foi suficiente. O rebaixamento finalmente alcançou o Hamburgo, depois de anos de fugas. Desta vez, não teve jeito.

Os torcedores permaneceram no estádio. Seguiram cantando, apoiando o time, dando mostras do amor que sentem por um time que é enorme na Alemanha, mas vem há anos rondando a zona do rebaixamento. O relógio será zerado. O Hamburgo vai para a segunda divisão pela primeira vez na história da Bundesliga. A torcida deixou claro, porém, que estará ao lado do time para conduzi-lo de volta à primeira divisão.


Olhando para o elenco, o Hamburgo não tem time para cair – como o Colônia, aliás. São vários bons jogadores, muitos jovens. Mas é impressionante como o encaixe inexiste, sobretudo no ataque. O baixo rendimento ofensivo acaba sendo a principal explicação para a queda, entre os muitos pontos perdidos. Em teoria, daria para aproveitar vários atletas para tentar o retorno imediato na segundona. Todavia, diante do que se atravessou ao longo dos últimos anos, certamente o desejo é de uma mudança geral, inclusive nas estruturas, para ver se os hamburgueses aprendem com os erros e possam voltar a ser um time da metade superior da tabela na Bundesliga.

O relógio zerou. O apelido de Dinossauros, dado pela longevidade na primeira divisão alemã, não faz mais sentido. E como todos os outros grandes clubes da Alemanha o Hamburgo passará pelo calvário da segunda divisão. É ver como volta. Muitos se reconstruíram depois disso. Outros viram sua imponência escorrer pelo ralo, perdendo representatividade. Nada que os hamburgueses não vivessem nesse ciclo de desesperança, perseverança e alívio inútil, com a reputação de um gigante se perdendo a conta gotas.

Relógio do Hamburgo será zerado (Foto: reprodução)