“Já não somos mais aquele pequeno ponto no mapa do mundo”.

A frase dita por Atilio Narancio resume o que o futebol significa ao Uruguai. O médico, antigo presidente da Associação Uruguaia de Futebol, foi o responsável por alimentar o sonho da Celeste em 1924. Ele hipotecou seus imóveis para bancar a viagem de 20 jovens compatriotas rumo à França. A seleção uruguaia embarcou na terceira classe de um navio e se tornou a primeira equipe sul-americana a atravessar o Atlântico para disputar um torneio de futebol. Vencedora do Campeonato Sul-Americano de 1923, ganhou o direito de participar dos Jogos Olímpicos. Ninguém imaginava o que fariam aqueles proletários em solo europeu. Ninguém supunha o encantamento que provocariam na Cidade Luz.

O Uruguai apresentou sua identidade ao mundo nos gramados de Paris. E os franceses foram os primeiros a se maravilhar com aquele futebol deslumbrante, que não era meramente estereotipado pela garra, que tinha a sua galhardia. O jogo de passes encadeados, quebras de ritmo, mudanças de direção e dribles estonteantes servia de contraponto a quem achava que o melhor se jogava na Inglaterra – por mais que arte aprimorada pelos celestes tivesse mesmo se desenvolvido a partir dos escoceses. Fato é que, naquela malemolência, naquele nível de excelência, não se vira a bola tão bem tratada em um torneio desta importância. A França recebeu os uruguaios de braços abertos e, ouro no peito, tratou de proclamá-los como os melhores do mundo.

Não parecia haver, afinal, um palco mais propício para que a seleção uruguaia apresentasse a sua qualidade. Em uma cidade conhecida por sua vida noturna agitada e pelo apreço às artes, um bando de rapazes boêmios mostrou seu talento e aproveitou a fama que ganhou durante aquelas Olimpíadas. Havia um senso exótico ao redor daqueles homens – descendentes de imigrantes, de índios, de escravos. Um interesse especial sobre aqueles trabalhadores braçais, em tempos nos quais o futebol ainda não valia como sustento no Uruguai. E coube aos pés desses forasteiros oferecerem certa mística ao que se via dentro de campo. A globalizarem a noção sobre o futebol.

Paris é uma festa

A preparação do Uruguai teve os seus problemas. Em novembro de 1922, houve uma cisão entre o Peñarol e a Associação Uruguaia de Futebol, com os aurinegros formando uma federação concorrente. Assim, a Celeste não poderia contar mais com os jogadores carboneros no período, concentrada principalmente no Nacional. Apesar dos desfalques, a equipe conquistou o Campeonato Sul-Americano de 1923, disputado em pleno Parque Central. Superou Argentina, Paraguai e Brasil no quadrangular.

Naquela época, a Fifa passara a chancelar o torneio olímpico de futebol como um “mundial”. Anunciou que o campeão da América do Sul teria sua vaga na competição em Paris. A empolgação pela possibilidade pegou em cheio os políticos uruguaios, que, antes do Sul-Americano, prometeram custear a viagem à França em caso de título continental. A taça veio, mas a lei para liberar a verba não foi aprovada a tempo. Foi quando Atilio Narancio precisou realizar seu ato de abnegação em prol da seleção, garantindo o dinheiro para cruzar o mar. Em um mês no navio, os jogadores uruguaios sofriam com a limitação de espaço e a comida ruim. A dieta se baseava no estoque de mate que levaram. Além disso, a condição física privilegiada ajudou a chegarem ainda em forma à Europa.

Antes de pisar em solo francês, a seleção uruguaia desembarcou na Espanha. Faria uma série de amistosos no país para bancar seus custos. Os atletas dormiam em bancos duros dos vagões dos trens, sem qualquer luxo, atravessando o território rumo a Paris. Em campo, deram uma amostra do que fariam, ao ganharem todas as nove partidas que disputaram. Para completar o elenco de 22 jogadores, aliás, os charruas contaram com duas adições peculiares. Durante a estadia na Espanha, recorreram a Antonio Urdinarán, ex-jogador do Nacional, que na época morava em Madri. Já o último homem incluído no grupo era Leónidas Chiappara, ex-atleta do River Plate que se mudara a Paris para estudar arquitetura e ajudou a arrumar a casa onde os compatriotas ficariam na Cidade Luz. Não era a realidade modesta que rompia a vontade dos sul-americanos, todavia. E logo esta seria recompensada com a fama.

A estreia do Uruguai nas Olimpíadas de Paris aconteceu contra a Iugoslávia. Sem conhecer nada sobre seus adversários, os balcânicos mandaram espiões a um treinamento celeste. E quando perceberam a armadilha, os charruas deram a sua resposta da melhor maneira: passaram a errar passes bobos, a isolar a bola, a se trombar dentro de campo. Ardil que deu certo no momento em que as duas equipes se enfrentaram no Estádio Olímpico de Colombes, sob o hino brasileiro erroneamente executado e o sol da bandeira hasteado de cabeça para baixo. Os sul-americanos deram o seu primeiro show, em goleada por 7 a 0.

A partir de então, não havia quem desconhecesse os uruguaios. O sucesso passou de boca em boca pelas ruas de Paris, e as arquibancadas começaram a lotar. Nas oitavas, bateram os Estados Unidos por 3 a 0. Então, seria a vez de golearem a França por 5 a 1, assegurando vaga nas semifinais. Espantados com tamanha qualidade, os anfitriões renderam-se àquele futebol e adotaram o celeste como sua nova cor. No penúltimo compromisso, vitória apertada do Uruguai, em 2 a 1 sobre a Holanda. Até que os 3 a 0 sobre a Suíça na final, diante de 40 mil, garantisse o ouro ao estilo brilhante dos charruas. A bandeira tremulando no lugar mais alto tinha um significado imenso ao ‘Paysito’. Os parisienses ovacionavam. Já no gramado, o trote festivo dos jogadores em aceno à multidão, passando por todos os cantos do Colombes, inaugurou a primeira ‘volta olímpica’.

“É este o verdadeiro futebol! O que nós conhecíamos não era mais do que um passatempo de estudantes se comparado com eles”, descreveu o escritor aristocrático Henrí de Montherlant. Já o jornal Le Miroir des Sports pontuou: “Os uruguaios são pessoas flexíveis, discípulos do espírito de finesse. Eles desenvolveram com primor, e talvez até mesmo em excesso, a arte de fingir, de se esquivar, de mudar de pé, de girar de um lado e de outro com o corpo, de mudar de direção na corrida”. Gabriel Hanot, famoso jornalista local e futuro idealizador da Copa dos Campeões, afirmou: “O jogo de passes é uma revelação para nós. Os uruguaios são como cavalos puro-sangue ao lado de pangarés da fazenda”.

Ou, em outras nuances, como escreveu Eduardo Galeano, no obrigatório ‘Futebol ao Sol e à Sombra’: “A camisa celeste era a prova da existência da nação, o Uruguai não era um erro, o futebol havia arrancado este minúsculo país do anonimato universal. […] Ocorreu algo como o segundo descobrimento da América. Jogo após jogo, a multidão seguia para ver aqueles homens correndo como esquilos, que jogavam xadrez com a bola”.

Vários jogadores daquele Uruguai se tornaram lendários. O goleiro Andrés Mazali, um bailarino sob as traves, que também era campeão no atletismo e no basquete. O capitão José Nasazzi, o ‘Terrível’, zagueiro de personalidade forte e caudilho que incorporava o espírito charrua. O ‘Índio’ Pedro Arispe, seu companheiro de defesa e, funcionário de um frigorífico, famoso pela firmeza. Pedro Cea, o atacante corajoso, responsável por gols nos ‘três mundiais’ da Celeste. Pedro Petrone, o centroavante de chutes potentes, capaz de revolucionar sua posição. Ángel Romano, El Loco, o homem que por meio século vestiu a celeste mais vezes do que qualquer outro. Ou então Héctor Scarone, o ‘Gardel do Futebol’ que jogava por música, e enfileirava dribles, e marcava gols com ambas as pernas, e pairava no ar – e, não à toa, para muitos era o melhor do mundo naquela época.

Um rapaz em especial, porém, causou o fascínio em Paris. José Leandro Andrade, o ala que combinava imponência e destreza, elasticidade e firmeza, precisão na defesa e visão na armação. O filho de um ex-escravo que foi jornaleiro e engraxate, antes de mudar seus rumos através do futebol. Tornou-se o primeiro jogador negro a ganhar o reconhecimento na Europa e, por isso mesmo, recebeu o apelido de ‘A Maravilha Negra’. Todavia, músico e dançarino exímio, também era alvo de cobiça muito além da bola, em tempos nos quais havia um movimento de aproximação à cultura afro na capital francesa. Centro das atenções em tantas festas na noite parisiense, Andrade se esbaldou na boemia e virou amante de beldades naquelas semanas. Outros companheiros, em menor intensidade, o acompanharam nas noitadas. Por conta da farra, a Celeste teve que desmarcar um amistoso com a seleção francesa logo após as Olimpíadas.

A concentração da seleção, aliás, atraiu mais e mais parisienses, a partir do sucesso em campo. A casa em Argenteuil, subúrbio da capital, se tornou um ponto de encontro aos festejos. Após a vitória sobre os Estados Unidos, na segunda rodada, centenas de pessoas seguiram à comemoração realizada pelos uruguaios no local, incluindo vários escritores e jornalistas. Os sul-americanos fizeram uma festa digna de carnaval, entre danças e músicas populares. Uma das testemunhas era Sidonie Gabrielle Colette, conhecida como “a grande dama da literatura francesa”. Ela parecia indiferente, até começar a ser envolvida pelos ritmos. Não se esqueceu jamais. “Os uruguaios são uma estranha combinação de civilização e barbarismo. São maravilhosos dançando tango, sublimes, melhores que os melhores gigolôs. Mas também fazem danças canibais africanas que te deixam tremendo”, relatou ao Le Matin, depois de também provar o famoso ‘asado’ uruguaio.

A nova viagem e a vinda dos franceses

Após a conquista do ouro, enquanto os companheiros de seleção voltavam a Montevidéu, José Leandro Andrade teria ficado mais algumas semanas em Paris, supostamente bancado por uma dama da alta sociedade. Retornou como se fosse outra pessoa, trajando roupas pomposas que pouco aludiam à sua origem humilde. E os jogadores uruguaios, afinal, não passariam tanto tempo assim longe da Europa. Em 1925, o Nacional se tornou o primeiro clube sul-americano a fazer uma turnê europeia – durante excursão que logo depois coincidiria com viagens de Paulistano e Boca Juniors. Obviamente, a França (e Paris) estava no roteiro dos tricolores.

Depois de mais de um mês de viagem, entre mar e estradas de ferro, o Nacional estreou na turnê em pleno Estádio Olímpico de Colombes, diante de mais de 30 mil espectadores. Estavam presentes naquela partida oito campeões olímpicos, sendo que mais três se integrariam posteriormente, emprestados por outros clubes uruguaios. Pois os visitantes venceram uma seleção formada pelos melhores jogadores de Paris, por 3 a 1. Após outra vitória em Rouen, o Bolso voltou à capital e enfrentou a seleção francesa. Por conta de uma viagem dos Bleus à Itália, a federação local pediu que o duelo fosse disputado em dois tempos de apenas 30 minutos. O empate sem gols diante dos ídolos uruguaios foi festejado como uma vitória pela torcida local, com os jogadores carregados nos braços diante da “façanha” que haviam protagonizado.

Os uruguaios ainda atuariam em Roubaix e Bordeaux, antes de seguirem à Itália. Voltaram à França para mais três jogos, dois em Paris e um em Estrasburgo. Ao final da jornada de mais de cinco meses, o Nacional disputou 38 partidas. Venceu 26 e perdeu apenas cinco, com 130 gols marcados e 30 sofridos. Mais de 700 mil pessoas estiveram nas arquibancadas para ver estes amistosos. Ocasiões que serviram para ampliar o encantamento e enraizar a exaltação ao futebol sul-americano na Europa. “Foi um feito inédito no futebol mundial, que se pôde fazer em um momento muito especial do futebol uruguaio, em seu período de maior glória. O Nacional tinha a capacidade de se dar este luxo, por ter um elenco tão grande, ainda que chegaram reforços”, escreveu Eduardo Giovaninni, autor do livro ‘La gira de 1925’, que narra a excursão do Bolso “O Nacional não ganhou dinheiro. Ganhou outra forma de riqueza, que faz parte do espírito do homem. O valor de sua façanha se mede pelo prestígio e pela honra que sua cruzada exemplar reflete sobre nossa juventude, nossa gente, nosso futebol e nosso querido Uruguai”.

Vale dizer, também, que as noitadas dos uruguaios em Paris ganharam um repeteco. Andrade, mais uma vez, estava presente na viagem. E reza a lenda que ele se envolveu com Josephine Baker, “a mulher mais sensacional que alguém já viu”, segundo as palavras do inigualável escritor Ernest Hemingway. Já durante a passagem pela Bélgica, a Maravilha Negra descobriria ter sífilis, doença que marcou a derrocada de sua carreira – e também o fim da vida relativamente precoce, aos 56 anos.

Três anos depois da turnê, a excelência do Uruguai se confirmou em 1928, nos Jogos Olímpicos de Amsterdã. A conquista do segundo ouro encaminhou a escolha do país como sede da primeira Copa do Mundo, em 1930, ano importante ao país também pelo centenário da primeira constituição uruguaia. Jules Rimet, presidente da Fifa desde 1921 e responsável pelo investimento no torneio de futebol das Olimpíadas de 1924, ratificou a escolha. E de certa maneira, a seleção francesa faria sua retribuição aos uruguaios na visita a Montevidéu. Rimet interveio diretamente para assegurar que os Bleus estivessem presentes no Mundial. Era uma das únicas quatro equipes europeias a participar da competição. Cruzaram o Atlântico no SS Conte Verde, ao lado das representações da Bélgica e da Romênia. O dirigente também estava no navio, carregando o troféu que posteriormente foi renomeado em sua homenagem.

A França era composta por diversos jogadores jovens naquela Copa do Mundo. Alguns nomes importantes foram desfalques, a exemplo do próprio técnico Gaston Barreau, que não conseguiu ser liberado de seus afazeres na Academia de Poesia e Música, onde trabalhava. O Conte Verde não oferecia muito espaço a exercícios e os atletas precisava se virar mantendo a forma física com aquecimentos e outras atividades no convés. A chegada a Montevidéu, ao menos, ofereceu uma bela recompensa. Mais de 10 mil torcedores aguardavam o desembarque dos jogadores para a disputa do Mundial.

E a seleção francesa acabaria marcando a história da primeira Copa do Mundo. Em 13 de julho, os Bleus participaram da abertura da competição enfrentando o México, em jogo de estreia simultâneo ao confronto entre Estados Unidos e Bélgica. Pois foi no antigo Estádio de Pocitos onde saiu o primeiro gol, anotado pelo francês Lucien Laurent. A cancha, demolida, não existe mais. No entanto, o sinal daquele duelo emblemático permanece nas calçadas de Montevidéu. “Quando eu fiz o gol, tive uma alegria simples, de quem marca um tento normal, comemorando com meus companheiros. Nós apenas nos abraçamos e nos cumprimentamos antes que o jogo recomeçasse, mas nem me perguntei se era o primeiro gol da Copa. Não percebi a importância daquele momento”, comentou Laurent, anos depois.

A França não passaria da primeira fase. Derrotada por Chile e Argentina na sequência da competição, despediu-se cedo, mas permaneceu na América do Sul. Ainda disputaria um amistoso contra a seleção brasileira. Jules Rimet, por sua vez, estaria presente no Estádio Centenario para entregar o troféu nas mãos de Nasazzi. Uma dos setores do gigante de concreto inclusive traria uma doce lembrança das jornadas francesas protagonizadas pela Celeste: a Tribuna Colombes, tal qual o palco do primeiro ouro.

O príncipe e o processo

Os encontros entre uruguaios e franceses se tornaram um pouco menos comuns nas décadas seguintes. Há, claro, momentos marcantes. Em 1950, foi Jules Rimet quem entregou a taça a Obdulio Varela, diante de um Maracanã surpreso com a apoteose negada por Alcides Ghiggia. O primeiro duelo entre as seleções no Mundial aconteceu em 1966, com a vitória de virada do Uruguai em Londres. Já em 1985, as duas equipes se reencontraram no Parc des Princes, para a disputa do Troféu Artemio Franchi, precursor da Copa das Confederações – que colocava frente a frente os vigentes campeões da Eurocopa e da Copa América. Estrelada por Michel Platini, a França venceu por 2 a 0, gols de Dominique Rocheteau e José Touré. Entre os derrotados, nomes históricos como Rodolfo Rodríguez e Darío Pereyra, bem como um jovem de 23 anos que já era a grande referência técnica da Celeste: Enzo Francescoli.

Para Eduardo Galeano, Francescoli era o responsável por renovar a velha arte do futebol uruguaio. Com o passar das décadas, a Celeste teria se esquecido da magia que tomou os gramados em Colombes, ainda que dignos herdeiros surgissem também em outros momentos históricos, como Juan Alberto Schiaffino e Pedro Rocha. De qualquer maneira, a força se sobrepunha à técnica. O surgimento do Príncipe auxiliou a Celeste a redescobrir a sua antiga vocação, e se desdobrou além das fronteiras. O River Plate foi o primeiro a se beneficiar, conquistando importantes títulos sob a maestria do craque. No entanto, em 1986 ele se mudou à França. Vestiria a camisa celeste do Racing de Paris, histórico dono do Estádio Olímpico de Colombes, embora naquela época jogasse no Parc des Princes.

Francescoli não era o primeiro jogador uruguaio a atuar no Campeonato Francês – em uma relação, aliás, até mais ampla com a outra margem do Rio da Prata, entre futebolistas e técnicos importados. Desde a década de 1930, alguns charruas passaram pela liga, mas sem tanta projeção. O momento de maior destaque veio na década de 1970, quando Ildo Maneiro e Juan Mujica, jogadores com Copas do Mundo no currículo, passaram períodos consideráveis defendendo times da Ligue 1. Já nos anos 1980, Venancio Ramos tinha feito o trajeto de Montevidéu a Lens após conquistar a Copa América ao lado do Príncipe. De qualquer maneira, as marcas deixadas pelo camisa 10 em Colombes seriam bem mais profundas.

O Racing de Paris atravessava um momento abastado de sua história, bancado pela Matra, renomada companhia automotiva francesa. Após conquistarem o acesso em 1986, contrataram outro tantos jogadores badalados, incluindo mais dois uruguaios – Rubén Paz e Rubén Umpiérrez. O ponto é que o projeto não deu tão certo quanto se imaginava, com no máximo campanhas de meio de tabela na primeira divisão. Mas não por conta de Francescoli. O Príncipe deslumbrava com seus gols, seus passes e sua elegância. Carregou o time em vários momentos e já em 1987 terminou eleito como o melhor jogador estrangeiro no futebol francês. Seria o artilheiro da equipe por três temporadas consecutivas, na última beirando o rebaixamento. Em 1989, aceitou a proposta para se juntar ao timaço do Olympique de Marseille, então se transformando em uma potência europeia.

Francescoli passou apenas um ano no Vélodrome. Sua trajetória no clube teve altos e baixos, entre lesões e momentos no qual foi relegado ao banco de reservas pelo treinador Gérard Gili. Apesar de 11 gols em 28 aparições e algumas atuações de gala, sua maior contribuição ficaria nas entrelinhas, pela técnica que cativou um adolescente em especial. Zinedine Zidane tinha seus 17 anos quando se encantava ao assistir o craque vestindo a camisa do time de coração. A transferência do Príncipe ao Cagliari não rompeu a idolatria, que se escancararia num momento em que o francês já era um craque internacional.

Em 1996, fã e ídolo puderam se encontrar em campo na decisão do Mundial Interclubes, entre a Juventus de Zizou e o River Plate do veterano Francescoli. Ao final do embate, a camisa que trocou se tornou um prêmio ao marselhês, experimentando novamente aquele fascínio de anos antes. “Um dos meus maiores sonhos era ter sua camisa. Eu consegui e, não só isso, fui dormir com ela. Minha mulher não ficou muito feliz com isso”. Um ano antes, Véronique Fernández já tinha concordado em batizar em seu primogênito como Enzo, homenagem ao uruguaio.

Curiosamente, haveria outro momento decisivo em que Uruguai e França se cruzariam em uma Copa do Mundo – e não estou falando do modorrento empate sem gols em 2002, mas sim de uma ocasião com efeitos indiretos. A consagração de Zidane em 1998 era observada de perto por Óscar Tabárez. Naquele momento, o treinador trabalhava como membro do corpo técnico da Fifa no Mundial. Aproveitou a estadia no país para tirar lições importantes, que juntaria com outros conhecimentos e voltaria a aplicar na seleção uruguaia a partir da década seguinte, iniciando seu famoso “processo”.

“Eu estava em Bordeaux e falei com os treinadores da seleção sub-17 e da seleção feminina. Eles me contaram como a formação de jogadores era feita na França, como seguiam um processo igual da infância até a idade adulta. Eu aprendi bastante. Eles tinham uma tecnologia que analisava os adversários, algo que não conhecíamos no Uruguai. Depois, voltando de uma partida na Argélia em 2009, aproveitei para visitar Clairefontaine, a base da federação francesa que prepara os jogadores desde as seleções menores”, comentou o Maestro. Em 2010, o comandante iniciaria o resgate do orgulho celeste na África do Sul justamente com um empate contra a França.

Nesta sexta, os possíveis laços entre Uruguai e França são mais óbvios. Dúvida para o confronto, Edinson Cavani atravessa a melhor fase da carreira na mesma Paris onde os antepassados da Celeste brilharam. Em um time que tenta resgatar essa noção de futebol bem jogado “à uruguaia”, mas sem se esquecer da vontade que o marca e sem apelar para a violência, o centroavante é mais um operário que um boêmio da bola. Faz a diferença na Rússia, e sua ausência será muito sentida se não for a campo. Já do lado bleu, há um charrua adotivo, Antoine Griezmann, que entrou em contato com a cultura uruguaia quando ainda estava na Real Sociedad e se aproximou mais da mentalidade a partir do convívio com os orientais no Atlético de Madrid. Não é o primeiro francês e nem será o último a ver os uruguaios além dos estereótipos. A admiração e o encantamento vêm de muitíssimo tempo. Não deixa de ser uma aprendizagem e um engrandecimento mútuo ao que ocorre no futebol de ambos os países.