A história sempre é dependente de quem conta. Para o Raja Casablanca, o que aconteceu nesta quarta-feira foi um milagre. Uma vitória espetacular sobre o time de Ronaldinho e que, diante da festa enorme da torcida, valeu vaga na final do Mundial de Clubes. No entanto, para o Atlético Mineiro e para o restante do Brasil, a sensação é de vexame. De uma equipe que prometeu bastante na viagem ao Marrocos e decepcionou. Sentiu a pressão de maneira excessiva ao ficar atrás no placar e fracassou nas tentativas de reação.

A equipe do Atlético, em teoria, era tecnicamente superior. Porém, o placar de 3 a 1 a favor do Raja está longe de sugerir isso. Sobrou nervosismo nos brasileiros, que criaram pouco e se enrolaram nas próprias pernas nas melhores chances que tiveram. Acabaram engolido por um adversário consciente de suas limitações, mas também de suas virtudes. As Águias se organizaram muito bem na defesa e trataram de explorar os contragolpes. Assim, construíram os seus três gols e acabaram com o sonho dos alvinegros de também conquistar o mundo.

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A tensão era clara desde os primeiros minutos. No início do jogo, sobravam faltas e o futebol pouco dava as caras em Marrakech. Jô foi quem mais apareceu pelo lado do Atlético, sempre no lugar certo, mas sem nunca acertar as jogadas. Enquanto isso, o Raja Casablanca sentia o adversário e encaixava seu jogo. O capitão Mohsine Moutaouali conduzia o time e teve as duas melhores chances nos pés. Na primeira, parou em um milagre de Victor, pouco antes de errar o alvo por centímetros.

O intervalo não serviu para os atleticanos esfriarem o melhor momento do Raja. Pelo contrário, acabou atrapalhando ainda mais o time. Os brasileiros passaram a se colocar um pouco mais no ataque e deixaram as costas da linha de zaga livres para os marroquinos. A lenta defesa não conseguiu acompanhar os contra-ataques e coube a Mouhssine Iajour aproveitar a fraqueza. Na velocidade, deixou Leonardo Silva e Réver comendo poeira para abrir o placar.

O gol resultou no desespero do Atlético. O time de Cuca não conseguia encaixar uma jogada, errava passes demais. E assim fazia o jogo do Raja funcionar, com um contragolpe a cada piscar de olhos. Não fosse o excesso de impedimentos dos verdes, o segundo gol teria saído naturalmente. A sorte do Galo era contar com a precisão dos pés de Ronaldinho. Em um lance isolado, o camisa 10 marcou um golaço de falta. O alívio para que os mineiros crescessem.

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O problema é que o bom momento do Atlético não durou muito. Foram poucos chutes aproveitando o baque do Raja. Depois disso, o jogo voltou a se emparelhar. E foi aí que os anfitriões se aproveitaram. Em um erro do árbitro, Moutaouali retomou a vantagem cobrando pênalti. A deixa para que Cuca adiantasse ainda mais o time, tirando Lucas Cândido para colocar Alecsandro em campo. Também para que o Raja humilhasse os visitantes.

Nos minutos finais, sobraram lances de efeito das Águias. Enquanto o Galo tentava acertar um cruzamento, encontrar uma cabeça iluminada dentro da área, os marroquinos queriam mais. E bonito. Passe de letra, dribles curtos, arrancadas sem tanta necessidade para quem deveria administrar o jogo. No quarto minuto dos acréscimos, o golpe final. Moutaouali tentou marcar de cobertura. O travessão impediu o golaço, mas não o terceiro tento, de Vianney Mabidé.

É difícil imaginar que Raja Casablanca fará frente ao Bayern de Munique. Ainda mais avisado pela zebra, Pep Guardiola e seus comandados tratarão de predá-la rapidamente. Se passar às semifinais já parecia uma façanha gigante, a final infla o orgulho dos marroquinos mais do que qualquer outro momento da história do clube tricampeão continental.

Enquanto isso, resta ao Atlético Mineiro resignar-se. Não desdenhou de seus adversários, mas também não se empenhou o suficiente para vencer. A falta de alguém que aparecesse para resolver nos minutos finais, em um lance que não fosse uma bola parada, pesou bastante. A chance de fazer história ou, ao menos, tentar fazer frente ao Bayern ficou para trás. A Libertadores ainda é sua grande glória – e os atleticanos já estavam satisfeitos com isso. No entanto, também terão que aguentar firmes a tristeza e a gozação dos rivais.

Formações iniciais

Raja x Atlético

Destaque do jogo

Os contra-ataques do Raja Casablanca. Desde o início do Mundial, os marroquinos deixaram claro que sua grande virtude era a velocidade no ataque, especialmente com a movimentação de Iajour e a habilidade de Moutaouali. E os dois foram os que mais se sobressaíram contra o Galo. Iajour, ao abrir espaços, anotar o primeiro gol e cavar o pênalti do segundo. Moutaouali, ao criar as melhores chances, apesar de ser um tanto fominha.

Momento chave

O erro do árbitro. O Raja Casablanca humilhou, é verdade, mas o Atlético Mineiro também tem direito de ficar com bronca do árbitro. Iajour se jogou dentro da área e Carlos Velasco Carballo foi na encenação do atacante. Dá uma desculpa, embora não minimize o fracasso.

Os gols

6’/2T – GOL DO RAJA! Contra-ataque fulminante dos marroquinos. Hafidi aproveita a lentidão da defesa e lança Iajour. O centroavante nem precisa dominar e chuta no canto de Victor.

18’/2T – GOL DO ATLÉTICO! Falta sobre Fernandinho na entrada da área. Ronaldinho cobra com maestria, no ângulo, e não dá nem tempo de reação para o goleiro Askri.

39’/2T – GOL DO RAJA! Avanço rápido dos alviverdes pela direita. Iajour cai na frente de Réver e o árbitro marca pênalti. Na cobrança, Moutaouali cobra com perfeição e garante a vitória.

49’/2T – GOL DO RAJA! Com o Atlético parado, o Raja Casablanca avança com o campo livre. Moutaouali tenta por cobertura e, na sobra do travessão, Mabidé completou para as redes.

Curiosidade

Deo Kanda é um amuleto do azar dos brasileiros. O atacante saiu do banco na vitória do Mazembe sobre o Internacional e, da mesma forma, reviveu a zebra contra o Atlético.

Ficha técnica

RAJA CASABLANCA 3×1 ATLÉTICO MINEIRO

Raja Casablanca Raja Casablanca
Khalid Askri, Zakaria El Hachimi, Mohamed Oulhaj, Ismail Belmaalem e Adil Karrouchy; Issam Erraki e Kouko Guehi; Mohsine Moutaouali, Chemsedidine Chtibi (Vianney Mabidé, 10’/2T) e Abdelilah Hafidi (Deo Kanda, 31’/2T); Mouhssine Iajour (Idrissa Coulibaly, 42’/2T). Técnico: Faouzi Benzarti.

Atlético Mineiro

Atlético Mineiro
Victor, Marcos Rocha (Luan, 18’/2T), Leonardo Silva, Réver e Lucas Cândido (Alecsandro, 40’/2T); Pierre e Josué (Leandro Donizete, 12’/2T); Diego Tardelli, Ronaldinho e Fernandinho; Jô. Técnico: Cuca.
Local: Stade de Marrakech (Marrakech-MAR)
Árbitro: Carlos Velasco Carballo (ESP)
Gols: Iajour, 6′/2T; Ronaldinho, 18′/2T; Moutaouali, 39′/2T; Mabidé, 49′/2T
Cartões amarelos: Réver (Atlético Mineiro)
Cartões vermelhos: Nenhum