“No intervalo, falamos: ou fazemos três gols ou que nos metam dez”.

As palavras de José Sand são bastante contundentes. E representam perfeitamente o espírito que conduziu o Lanús na virada histórica sobre o River Plate, conquistando a classificação inédita à final da Copa Libertadores. O Granate arrancou um gol no final do primeiro tempo e voltou para o segundo com todo o ímpeto possível. Destroçou os Millonarios, contando com a inspiração do centroavante para a vitória por 4 a 2. Afinal, a firmeza de Sand não ficou apenas na declaração. Sem a fome do veterano, seria impossível buscar a classificação. Um dos maiores ídolos da torcida grená protagonizou sua partida mais importante.

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Aos 37 anos, José Sand tem uma carreira repleta de altos e baixos – embora os altos quase sempre se pintem de grená. Goleiro na infância, como o pai, foi convencido pela mãe a ir para o ataque. Nesta época, como tantos garotos argentinos, se inspirava em Gabriel Batistuta, sem perder um jogo sequer da Fiorentina. Curiosamente, Pepe começou na base do próprio River Plate, onde se tornou o maior goleador das categorias menores. Mas a falta de espaço no início entre os profissionais o transformou em andarilho da bola. Passou por Colón, Independiente Rivadavia, Vitória e Defensores de Belgrano, até ganhar sua primeira chance no Monumental de Núñez. Permaneceu alguns meses defendendo os gigantes, entre 2004 e 2005, chegando a faturar um título nacional, mas sem impressionar. Seguiu o caminho errante, o que, no fim das contas, acabou sendo bom. Depois de jogar por Banfield e novamente pelo Colón, o camisa 9 foi levado ao Lanús. Mudaria a história, a sua e a do clube.

Sand era uma das referências do Granate na conquista do Torneio Apertura de 2007. Empilhou gols com a camisa grená, foi artilheiro do campeonato nacional em duas oportunidades, disputou a Copa Libertadores. Inclusive, recebeu suas primeiras convocações à seleção argentina. Não era um atacante dotado de grande capacidade técnica, como muitos de seus concorrentes pela Albiceleste. Compensava com vontade e uma presença de área dominante. A notoriedade em La Fortaleza levou o camisa 9 ao exterior. Encheu os bolsos no Al Ain, se aventurou no Deportivo de La Coruña, deixou sua marca no Tijuana. De qualquer forma, nada comparado ao que fez no Granate.

Em 2012, Sand retornou ao futebol argentino. Não emplacou no Racing, no Tigre ou no Argentinos Juniors. Sua carreira parecia destinada ao esquecimento, atuando na sequência por Boca Unidos e Aldosivi. Foi quando se esforçou ainda mais para se reerguer. Por conta própria, passou a treinar em um local específico para atletas de alta performance, bem como dobrou sua carga de exercícios nas semanas de folga. Também começou a se consultar com nutricionista e psicólogo particulares. Percebeu que o trabalho mental era vital para recuperar a velha forma. Assim, se reencontrou.

Em dezembro de 2015, Sand ganhou a oportunidade de retornar ao Lanús. O clube estava ciente que a idade avançada talvez fosse um problema, mas confiava na dedicação do veterano. Sabia o que esperar do artilheiro que conhecia os atalhos de La Fortaleza. Que chorou logo em sua apresentação, emocionado por aquilo que poderia continuar construindo. “É minha casa, um clube que é tudo para mim. Que me permitiu crescer como jogador, como pessoa e ser reconhecido”, declarou na época. E a aposta foi paga com gols, muitos, que encaminharam a reconquista do Campeonato Argentino após 11 anos. Sand voltou a ser artilheiro da liga, autor de 15 gols em 17 partidas. Um deles anotados contra o San Lorenzo, na goleada por 4 a 0 que confirmou o título.

Que a média de gols não continue tão alta, os números ainda assim são ótimos. Foram 15 tentos na última temporada do Argentino e, nesta, mais cinco. Já na Libertadores, Sand se acostumou a aparecer nos momentos mais importantes. Anotou quatro gols na fase de grupos. Assegurou a classificação contra o Strongest e abriu o caminho para a virada sobre o San Lorenzo. Já nesta terça, a reviravolta contra o River Plate não seria palpável sem ele. Lautaro Acosta e Alejandro Silva também arrebentaram os Millonarios. Mas a façanha pareceria muito mais distante sem o poder de fogo do camisa 9.

As esperanças do Lanús renasceram graças à cólera do pé direito de Sand. Nos acréscimos do primeiro tempo, o veterano recebeu o passe de Acosta e não teve piedade de Germán Lux, soltando o chute furioso. E eis que veio o discurso já célebre no intervalo. Logo no primeiro minuto da etapa complementar, as palavras se concretizaram, com uma pitada de sorte e o oportunismo do centroavante. A bola sobrou em seus pés, desta vez para arrematar de canhota. E, aos 16, todo o empenho do ídolo se escancararia no terceiro tento. Sand recebeu na direita, com um vigor de menino. Entortou Javier Pinola, antes de chegar à linha de fundo e cruzar. Entregou a bola a Alejandro Silva, que presenteou Lautaro Acosta rumo às redes. Por fim, quando surgiu a chance do pênalti, reconheceu as dificuldades recentes na marca da cal e abriu mão da cobrança. Apenas celebrou o quarto tento, o da classificação.

Não são os 37 anos ou o corpo robusto que fraquejaram as pernas de José Sand. Ele continuou se entregando do início ao fim. Não deixou o campo por um minuto sequer, ainda puxando os contra-ataques do Lanús, em busca de um gol que aumentasse a tranquilidade. Não foi possível. E quando a pressão do River Plate era angustiante, o veterano voltou à defesa para ajudar os companheiros, afastando o perigo. A exaustão era insignificante, diante da energia para vibrar pela vitória. Sem a braçadeira, o camisa 9 lidera pela trajetória e pelo exemplo. É o cara que não tem medo de enfrentar os rivais e nem mesmo os chefes, criticando publicamente os preços dos ingressos estipulados pelo Lanús para o jogo contra o River. Os torcedores estiveram representados de diferentes maneiras por seu ídolo: na alma, no suor, no pensamento, no coração.

“Pepe é um animal. Fez uma partidaça. Quanto mais gols faz, melhor joga”, avaliou o companheiro Alejandro Silva. Mais do que isso, Sand estava mordido pelas provocações que sofre dos torcedores do River Plate desde 2007, quando enfrentou o ex-clube pela primeira vez pelo Lanús, e que se renovaram na última Supercopa Argentina, em fevereiro, quando anotou o gol que consumou o título do Granate. Desta vez, a primeira resposta veio nas cores de suas chuteiras, azuis e amarelas, aludindo ao Boca Juniors. Mas nada melhor que fazer acontecer também como a bola rolando. Com dois gols, uma jogada essencial para outro e muita raça durante todo o tempo. Não se conteve nas comemorações dos tentos sobre os antigos patrões, de punhos cerrados e urros a plenos pulmões.

José Sand sabe que o tempo se esgota em sua vida como futebolista. Terá poucas chances para viver grandes momentos. E muito provavelmente esta será a última (e única) oportunidade de disputar uma final de Libertadores, compartilhando o maior sonho que o Lanús poderia desfrutar. Independentemente do que acontecer no desfecho da competição, o camisa 9 ampliou um pouco mais sua adoração em La Fortaleza. Adicionou mais algumas linhas à sua história como uma das maiores lendas do Granate, de quem soma mais de 100 gols e está prestes a se tornar o maior artilheiro. Pode não ter sido o melhor ou o mais regular centroavante argentino de sua época. Mas poucos contemporâneos conquistaram tamanho respaldo diante de uma torcida. Pepe faz por merecer.