Fabio Capello colocou um fim à sua carreira como treinador. Em entrevista à rádio RAI, o treinador, que deixou o Jiangsu Suning depois de um início ruim de temporada na China, declarou que este foi o seu último trabalho como treinador. Ele irá se dedicar à carreira de comentarista. Assim, o italiano encerra uma carreira que começou em 1991 e teve grandes times, títulos e grandes momentos. Nos últimos 10 anos, o trabalho de Capello foi muito questionado nas seleções de Inglaterra e Rússia, o que não apaga uma carreira de muito brilho. Um dos técnicos mais marcantes dos anos 1990 e 2000, marcou época no Milan e ganhou muitos títulos por Roma, Juventus e Real Madrid.

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Carreira como jogador

Fabio Capello foi jogador de futebol, que começou a carreira na Spal em 1964. Em 1967, se transferiu para a Roma. O meio-campista se tornou um sucesso no clube da capital. E 1970, Capello foi contratado pela Juventus e conseguiu novamente jogar muito bem, inclusive vestindo a camisa 10 do time bianconero.

Foi no clube de Turim que teve o maior sucesso na carreira, com três títulos da Serie A. Encerrou a carreira pelo Milan, jogando por lá de 1976 a 1980, quando decidiu encerrar a carreira por problemas no joelho. Ele ainda conquistou uma vez a Serie A e uma Copa da Itália pelo clube de Milão.

A carreira de técnico

Capello como técnico do Milan, em 1996 (Foto: Allsport UK /Allsport)

O primeiro trabalho como treinador de Capello foi de grande responsabilidade. Ele substituiu o consagrado técnico Arrigo Sacchi, que tinha encantado o mundo com o que ficaria conhecido como o Milan dos holandeses, incluindo dois títulos da Champions League – quando ainda era chamada de Copa dos Campeões, ou Copa Europeia. O treinador foi chamado para assumir a seleção italiana em 1991.

Capello tinha treinado os times de base do Milan e assumiu o comando da equipe principal. Apesar das desconfianças iniciais, sendo visto como um nome que aceitaria as imposições de Silvio Berlusconi, Capello se impôs e foi o técnico de uma era histórica do Milan. Foram quatro títulos da Serie A, além de uma Champions League em 1993/94, quando atropelou o Barcelona comandado por Johan Cruyff e com Romário no ataque com uma sonora goleada por 4 a 0. Só deixaria o Milan em 1996, quando aceitou o seu primeiro desafio fora do país.

Capello tornou-se técnico do Real Madrid. Montou um time com o tridente ofensivo com Davor Suker, Pedrag Mijatovic e Raúl. O time contava ainda com Fernando Hierro e Roberto Carlos, um com a bola longa e outro com uma grande velocidade. O seu sistema tático era simples e o time criou uma base que se tornaria vencedora e dominante, inclusive em termos europeus.

Capello conquistou o título espanhol, superando o Barcelona de Ronaldo por dois pontos. Contudo, sua passagem por Madri durou só mesmo a temporada 1996/97. O italiano se desentendeu com o presidente Lorenzo Sanz, que aproveitou a impopularidade do técnico com a torcida. Foi demitido do Real Madrid, mas seria só a primeira vez.

Capello voltou ao Milan em 1997, mas desta vez a passagem foi muito mais curta e sem sucesso. O time precisava ser reformulado depois de anos de glória com o próprio Capello e as contratações renderam muito pouco. O 10º lugar na Serie A, combinado com péssimos resultados contra Juventus e Roma, tomando goleadas, resultou na demissão do técnico ao final da temporada.

O seu trabalho seguinte teve um grande impacto. Capello foi contratado pela Roma em 1999, clube que ele defendeu como jogador, com sucesso. O treinador conseguiu montar um time reformulado, com grandes jogadores e fez do time da capital um campeão. Em 2000/01, conquistou o título da Serie A com Francesco Totti como destaque e Gabriel Batistuta brilhando. É, até agora, a última conquista do scudetto pela Roma.

Fabio Capello como técnico da Roma, em 2001 (Foto: Grazia Neri/ALLSPORT)

Os problemas financeiros da Roma fizeram Capello decidir deixar o clube e assinar com a Juventus. No novo clube, conquistou os títulos da Serie A de 2004/05 e 2005/06, mas ambos foram retirados no escândalo Calciopoli, que foi deflagrado em 2006. Capello se demitiu e assinou novamente com o Real Madrid para uma segunda passagem, 10 anos depois da primeira.

Sua segunda passagem pelo Real Madrid teve alguns elementos parecidos com a primeira. O título, mais uma vez, foi conquistado. As críticas dos torcedores também se repetiam, desta vez pelo estilo defensivo do time.

A campanha ruim na Champions League, sendo eliminado precocemente, diante do Bayern de Munique, tornou a situação de Capello muito delicada. Ele foi mantido no cargo e, no final, conseguiu levantar a taça do Campeonato Espanhol. O título, porém, não foi suficiente para manter o técnico italiano no cargo.

Se antes os torcedores do Real Madrid viam um time dos Galácticos que jogava bem, mas não ganhava muitos títulos – especialmente na Europa -, com Capello o time se tornou campeão, mas tinha estilo que não agradava.

Capello então começou a sua carreira de treinador de seleções. Assinou com a Inglaterra em dezembro de 2007, com a missão de liderar o time rumo à Copa 2010. Ele levou o time à Copa, quando caiu para a Alemanha por 4 a 1 no jogo que teve o gol de Frank Lampard que entrou, mas o juiz não viu – e que certamente acelerou a adoção da tecnologia na linha do gol.

Apesar do fracasso, ele seguiu no cargo para as Eliminatórias para a Eurocopa 2012. Ficou no cargo até pouco antes da competição, depois que a Football Association tirou a braçadeira de capitão de John Terry após o episódio com o ex-companheiro de time Wayne Bridge, mesmo a contragosto de Capello. O técnico italiano, então, pediu demissão.

Depois da Eurocopa, assumiu a Rússia, visando a Copa de 2014. A classificação veio, mas a campanha na Copa foi absolutamente ridícula. Caiu ainda na primeira fase. Continuou no cargo, mas o desempenho ruim do time nas Eliminatórias para a Copa 2018 determinou sua demissão. Encerrou a sua carreira como técnico do Jiangsu Suning, da China, clube que tem Alex Teixeira. Em 2017, o time ficou só em 12º na liga que tem 16 times. No dia 28 de março, foi demitido após o mau início de temporada.

Seu nome ainda era ventilado para ser técnico da seleção italiana, que sofre para encontrar um nome que substitua Giampiero Ventura, responsável pelo fracasso italiano nas Eliminatórias para 2018 – fazendo a Itália ficar fora do Mundial. Ao ser perguntado sobre isso, ele anunciou que não treinará mais nenhum clube ou seleção.

Fabio Capello com David Beckham no Real Madrid em 2006 (Photo by Denis Doyle/Getty Images)

Seleção italiana

“Técnico da seleção? Não, eu já tive minhas experiências com Inglaterra e Rússia”, afirmou o técnico de 71 anos. “Minha experiência com o Jiangsu Suning foi o meu último, eu os mantive na primeira divisão, e eu estou feliz”, afirmou. “Agora eu vou aproveitar e ser comentarista. Você sempre vence com esse emprego”, afirmou ainda Capello.

Quando perguntado sobre o nome de Roberto Mancini, o mais falado para assumir o comando da Azzurra, ele elogiou o companheiro, mas criticou a geração. “Neste momento, nós estamos em falta de líderes e jogadores que façam a diferença. Mancini tem experiência e isso o ajudará com o tempo, mas falta talento à nossa seleção”, analisou o treinador. “Há alguns jogadores que estão indo bem na Serie A, mas mal na seleção, então é preciso experimentação”.

Formação no futebol italiano

Em entrevista à rádio Anch’io Sport, Capello criticou a formação de jogadores no país, comparando com outro país que tem tido muito sucesso. “Eu ouço falar sobre as escolas de futebol. Aos 12 anos, as crianças sempre recebem apenas a bola na Espanha, enquanto na Itália tudo é tática”, criticou. “É muito mais fácil ensinar tática do que técnica: você pode corrigir a tática, mas não pode corrigir a técnica”.

China

“Minha experiência na China foi muito interessante. É um tipo diferente de futebol, mas eu tive dificuldade para me comunicar”, contou o treinador. “Eu constantemente tive um tradutor porque o elenco sabia pouco sobre outras línguas. Eu dificilmente conseguia transmitir algo pessoalmente”.

Champions League

“Será muito difícil para os italianos. Real Madrid e Barcelona têm a vantagem”, afirmou. “Ronaldo é incrível, é um verdadeiro atacante, como Van Basten e Trezeguet. Messi, por outro lado, cria tudo: os italianos não têm muita chance, sinto muito por isso”.

Roma

“Eu lembro de fazer um grande esforça. Na Roma, você fica deprimido e empolgado muito facilmente. Roma é bonita e extraordinária, mas tem esta certa característica. Depois do scudetto em 2001, foram seis meses de festa, mesmo quando eu queria trazer todo mundo de volta à terra”.

Serie A

“A Juventus tem [Massimiliano] Allegri, que lê as partidas muito bem. O Napoli perdeu muito do seu jogo brilhante que [Maurizio] Sarri os fez jogar antes nesta temporada. No final, tudo será decidido nos detalhes, então os Bianconeri são favoritos”.

VÍDEO: 

A maior conquista de Capello como técnico, a Champions League 1993/94