Por Arlindo Novais*

Ser gestor de um time ou um jogador de futebol? Muitos torcedores já pensaram em seguir pelo menos uma dessas opções. E é misturando esses dois desejos com a tecnologia que amigos de Volta Redonda, no interior do estado do Rio, criaram o Craque Digital, um site que simula uma realidade alternativa na qual um jogador de videogame se torna técnico e gestor dos principais clubes do mundo. A ferramenta usada para isso? O jogo FIFA 2016.

LEIA TAMBÉM: “O Ronaldinho tá igualzinho!”: Como era a aparência dos jogadores no clássico World Cup 98

O presidente da “federação”, como ele mesmo se intitula, o administrador Rafael Neto, disse que a ideia de criar o site surgiu dos torneios de videogame dos quais participava na infância e adolescência.

– Sempre tivemos alguns campeonatos físicos (de videogame) aqui em Volta Redonda. Com um pessoal fechado. Mas nunca foi expandido. Era mais para a galera, os amigos mesmo. Então, como o jogo online flui muito bem atualmente, decidimos fazer um teste. É uma simulação de temporadas, bem parecida com a vida real. Criei o site, as regras, e coloquei no ar – explicou, lembrando que logo no início os usuários do torneio eram os mesmos dos antigos campeonatos físicos.

Atualmente o torneio está na terceira temporada e reúne 50 jogadores de vários estados do país e divididos em cinco divisões. Segundo Rafael, o sistema de disputa é bem definido com jogos a cada quatro dias, sendo que alguns podem ocorrer em um espaço de dois dias dependendo do calendário da equipe. Entre os times disponíveis estão gigantes europeus como Barcelona, Real Madrid, Chelsea, Manchester United e City, e também outros de menor expressão como Besiktas, Hannover e Stoke City. Times brasileiros são deixados de lado pela diferença de atributos dos jogadores com relação aos clubes europeus.

Apesar da diferença na vida real, e até no game, o presidente do Craque Digital ressaltou que tudo é bem nivelado pelas regras e divisões definidas, além de haver um mercado de transferências – com contratos inclusive publicados no site.

– Toda regra e formato da temporada estão no site. No FIFA, na verdade, não tem esse tipo de torneio. Então é um amistoso normal entre dois jogadores no ambiente virtual usando a internet. Depois do jogo disputado, compilamos o resultado no site e a tabela. Cada time tem um plantel diferente do outro. Ou seja, só existe um Messi – esclareceu.

As negociações costumam ser a parte favorita para muitos, de acordo com Rafael. Ele disse que através desta ferramenta, os jogadores conseguem moldar o time com o perfil que desejam.

– No caso das transferências, elas funcionam com os jogadores sendo trocados entre os players, inclusive tendo a possibilidade de empréstimos. Tudo bem organizado e com um contrato assinado por ambas as partes para que o negócio seja formalizado. Depois que assinou, não tem como desistir ou voltar atrás. Lá por exemplo o Ibrahimovic está no Chelsea. É bacana – comentou.

Crescimento

O administrador contou que quando teve a ideia de criar o site e o formato de disputa de temporada, o pensamento inicial era diversão, mas deixou aberto a possibilidade de investimento.

– Quando montei o formato do campeonato, mesmo sem pretensão de crescer, eu planejei como poderia ser para gerar rentabilidade com isso e torná-lo atrativo. Então coloquei alguns itens para serem comprados em dinheiro real. Por exemplo, se o técnico quer aumentar o limite do plantel há um item chamado slot; se quer assinar com um jogador que está sem clube, tem que comprar um item chamado scout – explicou, acrescentando: “Para jogar conosco o cara não precisa pagar. Não é obrigatório, o pagamento só torna as coisas mais divertidas. Temos um plano mensal de R$ 20, que ajuda o site a se manter no ar e a ter novidades para evoluirmos. Por exemplo, agora estamos para lançar nosso aplicativo oficial”.

Brincadeira de gente grande

Com 50 usuários ativos na temporada, que normalmente dura cerca de 75 dias (incluindo as janelas de transferências), o site reúne diversos tipos de jogadores. Para Rafael, esse é o fato mais legal do Craque Virtual.

– O mais bacana é que temos usuários de todas as idades, desde os de 18 anos até 50. Temos muitos players com 40 anos, por exemplo, e como a competição tem um ritmo light todo mundo consegue se adaptar e jogar. O campeonato são 18 rodadas, nove cada turno. Com dois times subindo e dois times descendo em cada divisão – falou.

Ao ser questionado sobre o que o vencedor de cada divisão ganha, o administrador brincou.

– Experiência (risos). Brincadeira. Temos um patrocinador que oferece alguns prêmios, mas o que o pessoal mais gosta é o ranking, que é uma reputação mesmo. Se o Barcelona (time que está na primeira divisão do torneio) fica sem técnico, quem assume o comando é um treinador com maior reputação, melhor ranqueado – disse, lembrando que a demissão acontece quando o time é rebaixado, ou quando o player burla uma regra muito crítica ou ter vários W.Os (não comparecimento aos jogos) durante a temporada.

A realização das partidas acontece em comum acordo entre os envolvidos, então elas acontecem de manhã até de madrugada. Ao ser perguntado sobre o que acontece se a internet de um jogador simplesmente cai, ou uma queda de luz compromete a disputa, Rafael explicou que tudo tem que ser documentado, de preferência pelos dois usuários.

– Se o jogo é parado por algum motivo, ele volta ao tempo que parou mantendo o mesmo placar. Hoje com celular é muito prático tirar uma foto provando qual era o tempo e o marcador. E temos um fair-play muito grande entre os técnicos – destacou.

Anti-doping e noticiário

E não é só na vida real que existe o exame anti-doping. No Craque Digital também há. O tira-teima é feito para poder evitar que players possam editar e melhorar os atributos de seus atletas antes de uma partida. Para combater isso, os usuários que estão se enfrentando devem pedir um anti-doping após o término da disputa.

– O usuário intimado é obrigado a abrir uma tela onde é possível ver se houve alterações nos atributos. Tudo deve ser filmado, por celular mesmo. É algo impossível de correr. Se fugir, há uma punição severa, podendo ser banido – garantiu Rafael, frisando que o caso é avaliado pela federação do Craque Digital.

Além do doping, algo que torna o torneio ainda mais real são as notícias sobre o jogo no site. Uma equipe do Craque Digital fica responsável por fazer a cobertura dos jogos, janela de transferências e até entrevistas com os personagens.

– Hoje temos o vice-presidente da federação, Marcos, que já lidava com essas competições quando as disputas eram físicas. Ele fica responsável pela organização, lançar placar, gols e etc no site. Além disso, temos o Carlos Magno que é uma espécie de repórter do Craque Digital. Ele era um player comum e hoje faz entrevistas e reportagens com os nossos usuários para abastecer o site, dando uma dinâmica de jogo legal – destacou.

Há sete meses no ar, a reportagem do Trivela questionou sobre como Rafael definiria o Craque Digital.

– Acho que é um campeonato muito mais que diversão, porque faz a galera sair mesmo da realidade. É um mundo alternativo, como se fosse um MMO de futebol (sigla em inglês para Massive Multiplayer Online – Multijogadores Massivos Online, na tradução literal) e representa uma modalidade de jogo online, onde vários jogadores competem e interagem ao mesmo tempo – afirmou.

A reportagem também questionou se algum interessado em participar do torneio começasse a jogar hoje, por exemplo com o Leicester City, se ele contaria com os destaques da vida real.

– Não. O time já está totalmente diferente. E quando termina-se uma temporada, não resetamos. No caso quando um player novo vai montar o elenco, ele pode substituir esses jogadores por outros sem clube – esclareceu.

Serviço

Para ingressar no Craque Digital basta entrar em contato com os administradores do site através dos endereços digitais que podem ser encontrados aqui:http://craquedigital.com. A previsão é que a próxima temporada tenha início no começo de maio.

*Autocrítico e exigente, Arlindo Novais é jornalista formado pelo UBM – Centro Universitário de Barra Mansa (RJ) desde 2011 e atualmente trabalha no jornal DIÁRIO DO VALE de Volta Redonda-RJ. Apaixonado por futebol, costuma dividir o tempo entre a profissão de repórter com a de analista tático e comentarista amador. Além do esporte bretão, aprecia boas discussões sobre política e religião.