Cillessen; Janmaat, De Vrij, Vlaar, Martins Indi e Blind; Robben, De Jong, Sneijder e De Guzman; Van Persie. Caso não haja lesões nem surpresas, esta será a escalação da seleção da Holanda no amistoso contra Gana, neste sábado, às 15h30 de Brasília, em Roterdã. Pode parecer que a coluna cometeu um erro. Afinal de contas, a escalação saiu no 5-4-1, não no 5-3-2 pensado por Louis van Gaal e cada vez mais treinado durante a fase de preparação para a Copa do Mundo. Mas foi feito de caso pensado.

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Porque é exatamente assim que Van Gaal coloca o time em campo, no sentido tático. E o amistoso contra o Equador, em Amsterdã, há quase duas semanas, foi a mostra perfeita disso. Escalada no 5-3-2 (ou no que seria um 5-2-3 absurdo, pelo que a arte da transmissão televisiva mostrava), o que se via era Van Persie como jogador absoluto, no meio da área, para finalizar as jogadas. Pelos lados, Boëtius e Wijnaldum partiam do meio-campo para alcançar o ataque, enquanto Clasie era o armador.

E a fase posterior de treinamentos, tanto no centro de treinamentos de Hoenderloo quanto na viagem a Lagos, balneário português, foi fundamental para mostrar que a Holanda jogará com apenas um finalizador de ofício (claro, Van Persie) na frente. E como seria quase um suicídio jogar com dois meio-campistas avançando pelos lados, era necessário dar mais força ao meio-campo. É aí que Wesley Sneijder entra na história.

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Se antes recebia desconfiança constante sobre sua forma física e sua motivação para a Copa, agora o meio-campista do Galatasaray chegou e foi amplamente elogiado por Van Gaal, um dos que mais o alfinetavam. Basta citar as palavras do técnico da Oranje, na última segunda-feira, durante entrevista coletiva: “A surpresa positiva que tive foi Sneijder. Ele chegou em ótima forma, o que foi inacreditável para mim. (…) Eu o vi jogando em janeiro, quando estive na Turquia, e a diferença de agora é clara. Se ele estiver em forma, certamente jogará”.

Se Wesley já era considerado o favorito para ser o armador titular nos jogos da Copa, agora sua presença entre os onze que começarão as partidas é quase inevitável, com o corte de Van der Vaart. A ausência dele, em razão da lesão na panturrilha direita, sofrida na última terça, será sentida: afinal, Van der Vaart é o jogador de sua geração com mais experiência de seleção, e seria o único substituto confiável para Sneijder.

Mas é preciso dizer que o meio-campista do Hamburg também não estava em perfeita forma: sua temporada pelos hanseáticos foi apagada (decepcionante, até). E mesmo durante os treinamentos com a seleção, Van der Vaart estava recuperando-se de uma gripe. Aliás, exatamente por ela é que estava treinando separado do resto dos jogadores quando sofreu a lesão que o tirou daquela que seria sua terceira Copa do Mundo.

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De quebra, Van der Vaart é um jogador menos acelerado do que Sneijder. E isso prejudicaria fortemente o trabalho de marcação no meio-campo: afinal, Daley Blind precisa de um parceiro para fazer isso. A melhora física do jogador do Galatasaray foi providencial. E sem Van der Vaart, o caminho se abre para Jordy Clasie. Elogiado pelo belo passe feito para o gol não menos bonito de Van Persie no 1 a 1 contra o Equador, o meio-campista do Feyenoord tem tudo para segurar a bucha, caso Sneijder precise de um substituto. Até o estilo de ambos é parecido: técnico e acelerado quando necessário.

Além de Clasie, Vilhena e Wijnaldum disputam a vaga que se abriu no meio-campo. Tecnicamente, o jogador do PSV é favorito, exatamente por aquilo que mostrou no amistoso contra o Equador: maior capacidade de chegar ao ataque, criar jogadas e até ajudar na finalização. Porém, talvez Van Gaal prefira ficar com Vilhena, exatamente pela melhor capacidade do atleta do Feyenoord na marcação e por sua maior velocidade.

No ataque, além dos inquestionáveis Robben e Van Persie, há a dúvida na esquerda. Lens é titular, a princípio. Mas tanto Boëtius quanto Quincy Promes têm estilos parecidos ao do jogador do Dynamo Kiev. Promes sai na frente: além de demonstrar maior empolgação (leia-se maior velocidade – e às vezes só isso), voltou da seleção sub-21 credenciado pelos três gols feitos contra a Escócia, no meio de semana, nas eliminatórias do Europeu da categoria. Hoje, é o favorito para ficar entre os 23.

Mas ainda há a marcação, a defesa, sempre ela. E talvez seja por isso que Van Gaal escale o time num 5-4-1 com mais jogadores ofensivos: é preciso fortalecer o ataque para não deixar tudo estourar na defesa. Não que os jogadores de trás sejam grossos, incapazes tecnicamente. Apenas são ingênuos demais. Mostra disso foi o gol do Equador no amistoso de 17 de maio.

Lembrando a jogada: Kongolo, Martins Indi e Veltman estavam perto de Caicedo, mas De Vrij não viu Montero perceber que receberia passe em profundidade. Resultado: Caicedo lançou, Veltman escorregou ao tentar interceptar, e Montero ficou livre para tocar na saída de Cillessen. O problema principal reside aí: na falta de capacidade de se preparar para as jogadas adversárias. E aí, Van Gaal poderia escalar oito jogadores na defesa, que isso não se resolveria.

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E conviria pensar numa alternativa para a lateral direita, já que os dois jogadores do local (Janmaat e Verhaegh) estão voltando de lesão. O amistoso contra Gana deve ser o teste definitivo para Janmaat mostrar que já se recuperou plenamente do problema no tornozelo, sofrido contra o Equador. E Verhaegh já voltou aos treinos após sua lesão, também no tornozelo. Com as posturas bem mais defensivas que ambos têm em campo, a permanência no elenco é útil para Van Gaal. Agora, mesmo que a defesa cuide de evitar os gols adversários, a ingenuidade histórica dos zagueiros holandeses deixa o ensinamento: de nada adiantará se o pessoal do meio e do ataque não ajudar, marcando desde a saída de bola.

Talvez por isso, também, Van Gaal esteja deixando a Holanda com um jeito mais ofensivo do que as aparências indicam. E assim como os 4 a 1 contra os ganenses, pouco antes da Copa de 2010, também tiveram sua serventia (mostraram que aquela seleção estava redonda, pronta para uma campanha decente – talvez não com o vice-campeonato com que terminou, mas decente), o amistoso deste sábado pode servir para arredondar ainda mais este 5-4-1 travestido de 5-3-2. E para mostrar quem tem mais condições de encerrar a lista de 23 a ser revelada no próximo dia 2.

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