A um clube que gosta de proclamar a sua torcida como “a Magnética”, um jogo de arquibancadas vazias é um jogo sem alma. De fato, sem magnetismo, não apenas que prenda totalmente a atenção de quem assiste, mas que também acorde um pouco mais os que trabalham em campo. Porém, antes fosse apenas a ausência de torcida que explicasse os problemas do Flamengo nesta quarta-feira, de estreia na Copa Libertadores. A falta de apoio no Estádio Nilton Santos era uma lacuna, mas as deficiências ficaram por conta da atuação insuficiente do time de Paulo César Carpegiani. Flertou com a vitória duas vezes, permitindo ao River Plate se recuperar em ambas. O Fla poderia ter triunfado? Certamente. Não que fizesse por merecer tanto assim. E o empate por 2 a 2, pelo contexto, custa. Especialmente quando reaviva os traumas recentes dos flamenguistas na competição continental.

Sem grandes novidades, o Flamengo entrou em campo praticamente completo, considerando a suspensão de Cuéllar. Paulo César Carpegiani repetiu a formação no 4-1-4-1, com o quarteto de meias composto por Diego, Everton Ribeiro, Lucas Paquetá e Everton. A principal ausência era o suspenso Cuéllar, substituído por Jonas. Já o River Plate, em crise pela falta de resultados, ainda busca uma identidade após o caminhão de contratações recentes. Marcelo Gallardo privilegiou Lucas Pratto e Bruno Zuculini, dois destes novatos, além do novo dono da meta, Franco Armani. Rodrigo Mora, que voltou de lesão há algumas semanas, também compôs a linha de frente. Já na ponta, espaço ao jovem Nicolás de la Cruz.

O primeiro tempo esteve aquém do que se pedia a um Flamengo x River Plate. Talvez a musiquinha da Conmebol não tenha sido suficiente para alertar os jogadores que aquele era um jogo de Libertadores, sem ouvir o barulho que realmente vale – o da torcida. Fato é que pouquíssimo rolou nos 45 minutos iniciais. Os Millonarios vinham com um plano de jogo mais contido, tentando não se expor e entrando firme nas divididas. A iniciativa ficava ao Fla, que, por sua vez, não apresentava clareza na construção do jogo e nem apertava os adversários na saída de bola. Dependia basicamente das individualidades e das bolas esticadas, sem muitas trocas de passes. Faltava aproximação. No máximo, valia a briga de Henrique Dourado, a energia de Everton ou a agressividade de Lucas Paquetá.

Armani mal sujou o uniforme durante o primeiro tempo. Aos 25, Dourado bateu forte, mas o goleiro conseguiu defender com segurança, em dois tempos. No mais, a incapacidade na criação atrapalhou bastante, com poucas ameaças à meta adversária. Aos 39, houve a reclamação de um pênalti após toque no braço de Zuculini, mas o árbitro não marcou nada. O apito, aliás, desagradou demais ambos os lados. Já do outro lado, Diego Alves só trabalhou aos 45, espalmando cobrança de falta de Mora.

No segundo tempo, enfim, o jogo melhorou. O Flamengo conseguiu ser mais incisivo e arranjou um pênalti logo aos seis minutos, em lance pueril de Leonardo Ponzio, calçando Diego dentro da área. Na cobrança, Henrique Dourado ratificou sua excelência na marca da cal e converteu. O problema é que os rubro-negros mal desfrutariam da vantagem. Instantes depois, o River Plate já conseguiu o empate. De la Cruz cobrou falta em direção à área e Rodrigo Mora, em posição irregular, apareceu para completar às redes. Balde de água fria tremendo, que quase resultou na virada, com Diego Alves rebatendo chute de De la Cruz, antes que Jonas neutralizasse.

O Flamengo voltaria a acordar na sequência, com Carpegiani tirando Pará e botando Rodinei no lugar. O segundo gol, todavia, dependeria mesmo é do talento de Lucas Paquetá. O empenho e a qualidade do garoto seriam premiados aos 21 minutos. Ou melhor, premiariam Everton, após lançamento primoroso vindo do camisa 11. O ponta, então, aproveitou a linha de impedimento mal feita por Jonathan Maidana para invadir a área. Livre, dominou e bateu cruzado, sem chances para Armani. Era o momento dos rubro-negros, que ficaram com o grito preso na garganta pouco depois. Em nova jogada de Paquetá, Everton Ribeiro tentou, mas perdeu o tempo da bola e não concluiu da melhor maneira.

Gallardo percebeu o cenário e mudou o River Plate para buscar o resultado. Mandou a campo Camilo Mayada e Juan Fernando Quintero, renovando o meio-campo. Enquanto isso, o Flamengo perdeu Jonas, com a entrada de Rômulo, em péssima fase desde que retornou ao Brasil. E os Millonarios colocariam mais pressão quando seu treinador trocou Enzo Pérez por Ignacio Scocco. Assim, a tendência da partida era uma só. O River partia para o abafa e os rubro-negros buscavam se segurar, também gastando tempo.

Nos dez minutos finais, as chances começaram a aparecer. Foram duas bolas que ricochetearam em Réver, com a reclamação de pênalti dos argentinos na segunda, e uma cabeçada Marcelo Saracchi que saiu por cima. A confiança dos flamenguistas caiu mais um pouco quando Willian Arão substituiu Everton. E a falta de coesão na marcação começava a se escancarar. Tragédia anunciada que se consumou aos 41, em rebatida que sobrou para Mayada arriscar de longe, explorando um rombo na cabeça de área. Apesar da visão encoberta, Diego Alves falhou, pulando tarde demais. No fim, não se via energia para o terceiro gol do Flamengo. Na melhor brecha, Diego segurou demais a bola e Paquetá, sempre o respiro dos cariocas, acabou flagrado em impedimento.

O Flamengo pode ter opções interessantes no elenco, mas ainda apresenta problemas como time. Pouco se viu o resultado destas semanas de preparação naquilo que foi demonstrado contra o River Plate. E, em comparação ao que aconteceu na Libertadores 2017, o início é bem menos empolgante. Novamente, os rubro-negros encararam um adversário com seus problemas internos – embora não sem ritmo como o San Lorenzo, este River Plate atravessa uma etapa de reformulação, e com as derrotas gerando uma cobrança enorme sobre Gallardo. Acabaram fazendo seu jogo e, apesar do empate nascido em um lance fortuito, foram atrás do placar. Sem necessitarem de aplausos, os Millonarios roubam um ponto e encerram a sequência de revezes como visitante.

Do outro lado, o Flamengo sabe cada vez mais que precisará buscar os resultados fora de casa, o que não aconteceu na última eliminação na fase de grupos. E ainda terá mais uma partida no marasmo de um estádio vazio. Desafio que dependerá de um trabalho duro nos próximos meses. Dependerá de um conjunto bem mais forte do que se viu nesta estreia pouco empolgante. Falta magnetismo, em diferentes sentidos.