A temporada avassaladora de Pep Guardiola no Manchester City causou repercussão além de seus méritos esportivos nas últimas semanas. Em sinal de apoio aos membros do movimento independentista da Catalunha aprisionados pelo governo espanhol, o treinador passou a usar uma fita amarela no terno. No entanto, o comandante corre o risco de ser punido pela Football Association por isso. A federação inglesa indiciou Guardiola, diante do ato proibido de “vestir uma mensagem política”, ocorrido na derrota para o Wigan na Copa da Inglaterra – ele já vinha exibindo o símbolo durante as partidas da Premier League desde outubro.

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Apesar da ação movida pela FA, Guardiola não mudou a sua postura. Voltou a ser assunto durante a decisão da Copa da Liga Inglesa, quando conquistou seu primeiro título à frente dos Citizens. O treinador usava a fita por dentro da jaqueta e ela ficou visível quando abriu o agasalho. Poderá enfrentar mais uma indiciação por conta disso. Assim, o catalão respondeu sobre o assunto, às vésperas do reencontro com o Arsenal, agora pela Premier League. Não se nega a deixar a manifestação de lado, mas apenas em prol do clube.

“É mais importante o que acontece com o time e com o clube do que minha opinião pessoal. Eu acho que não vai acontecer, mas se o clube pedir para eu deixar de usar, aceitarei isso. Eles são os chefes. Logicamente, eu não quero prejudicar meu time ou meu clube. Talvez, se no fim decidir que houve publicidade o suficiente, posso parar. Mas isso não é uma questão de esquerda ou direita na política”, afirmou o técnico.

Guardiola nunca escondeu seu apoio à causa independentista na Catalunha. Chegou a fazer aparições públicas em prol do movimento e até mesmo discursos convocando a população para ir às urnas, se posicionando quanto à questão. Também votou no plebiscito realizado em setembro. Por conta disso, o treinador entrou na mira das autoridades espanholas. Na última semana, a polícia revistou seu jato particular, quando pousava no aeroporto de Barcelona com a família. Havia a suspeita de que transportavam Carles Puigdemont, líder nacionalista e ex-presidente da Generalitat da Catalunha, que se encontra exilado na Bélgica.

Ainda assim, Guardiola preferiu se afastar do discurso meramente político quanto à fita amarela, dizendo que sua postura é em prol da liberdade: “O clube está à frente do que penso. Mas minha opinião pessoal não é uma opinião política. Quando homens e mulheres colocam uma fita rosa, é por causa da iniciativa contra o câncer de mama. O mesmo com a fita azul, do câncer de próstata. A ideia é a mesma, há muitas fitas. Estou certo que existe muita gente na Espanha e na Catalunha que não quer a independência, mas não concordam com a prisão de pessoas”.

No início da semana, Guardiola havia comparado a discussão na Catalunha com o Brexit: “Antes de ser técnico, sou humano. Não é sobre políticos, mas sobre democracia. Sobre ajudar pessoas que não fizeram nada de errado. Vocês, britânicos, organizaram o Brexit. Deixaram a população dar a própria opinião. Deixaram a Escócia fazer o referendo se queria ficar ou não. E, acima de tudo, deixaram as pessoas votar. É isso que eles pedem na Catalunha e por isso que estão na cadeia agora. Há quatro caras na prisão. Há outros dois exilados e, quando voltarem, serão presos. Eles não têm armas, a única arma são as urnas”.

A medida da FA, entretanto, vem sendo bastante questionada em Manchester. Os torcedores do City passaram a ficar ao lado de seu treinador, alguns usando também a fita amarela para apoiá-lo. Na decisão da Copa da Liga, isto ficou evidente em Wembley, até mesmo com algumas versões gigantes do símbolo carregadas pelos celestes. A possível punição, no fim das contas, ressoou ainda mais a causa.