Nos últimos meses, surgiram diversos questionamentos sobre a regra do 50+1 na Alemanha. A Bundesliga determina que os clubes em suas divisões profissionais não devem ter mais de 50% do poder decisório nas mãos de apenas um investidor – permanecendo, desta maneira, ao menos 50% + 1 voto ao próprio clube. No entanto, há quem afirme que o sistema limita o poderio econômico do futebol local, repelindo magnatas ou companhias que queiram gerir suas agremiações como bem entenderem – a exemplo do que acontece na Inglaterra. Também acusam que isso diminui a competitividade internacional das equipes germânicas, gerando um cinclo vicioso, entre as más campanhas nos torneios da Uefa e a falta de interesse estrangeiro no campeonato nacional. Nesta queda de braço, porém, prevaleceu a realidade atual. Entidade responsável por organizar a liga alemã, a DFL se reuniu nesta quinta-feira em Frankfurt. Em votação, os clubes das duas primeiras divisões nacionais concluíram que o 50+1 seguirá em vigor.

Os grandes defensores do 50+1, no fim das contas, são os próprios torcedores. Através da regulamentação, os riscos do clube cair nas mãos de um aventureiro inexistem. Um único indivíduo ou uma companhia pode representar mais de 50% do montante investido na agremiação, mas não consegue superar esta porcentagem no poder decisório. Assim, a maioria dos votos permanece entre os associados, independentemente da fatia financeira adquirida pelo principal investidor. Alguns consórcios chegam a concentrar 100% do dinheiro por trás do clube, embora nunca tenham mais de 50% dos ativos.

Há exceções dentro da legislação. O RB Leipzig, por exemplo, encontrou uma brecha e foi fundado em 2009 por sete funcionários da Red Bull, que concentram o poder decisório. Além disso, quando foi criado em 1998, o próprio 50+1 previu uma abertura. A resolução inicial permitia que investidores que possuíssem mais de 20 anos de parceria com o clube antes 1° de janeiro de 1999 poderiam ultrapassar os 50% dos votos. Esta era uma brecha para que Bayer e Volkswagen mantivessem o poder em Leverkusen e Wolfsburg.

Isso perdurou até 2011. Naquela ocasião, o empresário Martin Kind conseguiu derrubar a data-limite junto à DFL. A partir de então, qualquer investidor com mais de 20 anos de agremiação pode tomar controle, mesmo que os 20 anos se completassem depois de 1999. O primeiro a se aproveitar disso foi Dietmar Hopp, dono da SAP, que possuía um histórico de investimento no Hoffenheim desde 1989 e atualmente controla 96% do clube. Já nos últimos meses, os holofotes passaram ao Hannover 96.

A mudança pleiteada pelo tal Martin Kind no início da década não era sem motivos. Dono de um grupo com diversas áreas de atuação, o empresário alemão é presidente do Hannover desde 1997. Já no ano seguinte, o milionário passou a representar 52,73% do investimento sobre o clube – mas sem conseguir tomar para si tal parcela dentro do poder decisório. Agora em 2018, a parceria completa 20 anos. Assim, Kind vem manifestando sua intenção de tomar o controle do Hannover para si – o que, particularmente, reflete em uma onda de rejeição muito grande entre os torcedores, descontentes em ver seu clube limitado na mão de um dono. Desejam que se invista no clube, e não que o dinheiro se torne lucro nos bolsos do empresário. Não à toa, apesar da boa temporada de retorno à primeira divisão, as greves de silêncio, os boicotes e os protestos são uma constante na AWD Arena.

Um dos maiores críticos do 50+1, Kind entrou com um requerimento junto à DFL para assumir além dos 50% dos ativos do Hannover. Segundo as informações iniciais, entretanto, a entidade tende a barrar a proposta do empresário por avaliar que seu investimento é insuficiente para isso. E no meio do turbilhão, a discussão do assunto se tornou inescapável. Na temporada passada, a DFL foi ameaçada até mesmo com um processo de “inconstitucionalidade” do 50+1, elaborado pelo bilionário jordaniano Hasan Abdullah Ismaik. Principal investidor do Munique 1860, o magnata acusava a liga de limitar o seu controle sobre o clube. Quando os Leões foram rebaixados à terceira divisão, ele se recusou a pagar a licença para disputar o campeonato, levando o time à quarta divisão em 2017/18.

Em pesquisa feita pelo jornal Bild com os clubes da primeira divisão, vários dirigentes se manifestaram publicamente sobre o 50+1. A maioria deles indicava a necessidade de revisões na regra – alguns contrários de maneira veemente, como Martin Kind ou Karl-Heinz Rummenigge, do Bayern de Munique. Já nas arquibancadas, torcedores demonstraram seu apoio à regulamentação. Foram exibidas faixas e até mesmo mosaicos defendendo a manutenção do cenário. Presidente da DFL, Reinhard Rauball recebeu uma petição assinada por três mil grupos de torcidas da Alemanha. Todos eles se juntaram para ressaltar a importância do 50+1, escrevendo também uma carta ao dirigente.

“O futebol une centenas de milhares de pessoas todas as semanas. Ele não pertence a indivíduos, companhias ou investidores. Ele pertence a todos nós e não deveria se tornar cada vez mais um brinquedo de poucos. A omissão ou o relaxamento sobre a regra poderia mudar fundamentalmente o futebol. A pressão competitiva aumentaria sobre todos os clubes. O poder financeiro de alguns poucos donos poderia repentinamente ser mais importante que o trabalho sólido de outros. No fim, é sobre o dinheiro sendo repassado aos mesmos que lucram. Isso não é melhor para os torcedores e a responsabilidade social se enfraquece. Muito se discute sobre a competitividade internacional da Bundesliga. Mas queremos realmente orientar-nos pelos salários insanos de Paris ou pelo mercado maluco da Inglaterra? Em vez de lançar um debate sobre como o futebol profissional está ficando distante das realidades cotidianas em muitos aspectos, a regra do 50+1 é posta em debate. Mas não deixaremos que ela se vá”, escrevem.

Diante do imbróglio, a DFL preferia adiar as decisões quanto ao 50+1. Nesta quinta, no entanto, o St. Pauli frustrou os planos da entidade e levantou a pauta durante a reunião em Frankfurt. O representante do clube fez uma proposta para “manter a regra 50+1, melhorando a segurança jurídica e as outras considerações em relação às mudanças”. Dos 34 clubes aptos a votar, 18 defenderam a permanência do 50+1. Enquanto isso, apenas quatro agremiações votaram contra e as demais se abstiveram. Os números enfatizam como o pensamento de Kind ainda é exceção, embora o apoio massivo não indique que todos estes 18 queiram que a regulamentação não sofra alterações. Como o próprio termo proposto pelo St. Pauli ressalta, há adaptações a se debater e o risco dos tribunais de justiça comum questionarem a legitimidade da limitação.

“A discussão não era apenas se o 50+1 fica ou sai. Conversamos muito e tivemos muitas controvérsias, mas agora iremos dar os próximos passos. É sobre todos os tópicos que ocupam o futebol profissional, que você precisa repetidamente colocar à prova ou discutir. Seria negligente se não fizéssemos isso hoje. Não só temos o direito de organizar a Bundesliga, mas temos a obrigação de projetá-la ao futuro. Assim, independentemente da manutenção do 50+1, temos que lidar com estes temas periodicamente”, propõe Oliver Mintzlaff, diretor do RB Leipzig.

Por outro lado, Martin Kind demonstrou-se resignado com a derrota, mas esperando que isso tire os obstáculos sobre o seu requerimento quanto ao aumento da participação no Hannover: “Podemos conviver com o resultado, mas agora recomendamos uma rápida implementação da aquisição. Nossa aplicação é baseada no estatuto da própria DFL, está dentro das possibilidades. Esperaremos e veremos o que será modificado, mas nossa petição continua adormecida”. Há ainda muito o que rolar na Alemanha, em batalhada travada também nas arquibancadas.