A Síria atravessa anos marcados pela barbárie e pelo derramamento indiscriminado de sangue – e quem acompanha minimamente o noticiário internacional sabe o tamanho da crise humanitária, que não se restringe ao território nacional. Justamente em um momento tão delicado, o futebol pode surgir como uma esperança. A seleção síria chega à última rodada da terceira fase das Eliminatórias Asiáticas com chances de se classificar pela primeira vez à Copa do Mundo. Tem uma missão dificílima, é verdade. Mas não seria devaneio imaginar a equipe figurando ao menos na repescagem, mesmo com todas as dificuldades para reunir o time e se preparar aos jogos, sem sequer poder atuar em casa ao longo da competição.

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A Síria vinha de um tropeço como mandante na rodada anterior, apenas empatando com a China. Contudo, deu a volta por cima de maneira imponente, ao derrotar o Catar por 3 a 1 na Malásia. Omar Kharbin marcou os dois primeiros gols para os sírios, enquanto Mahmoud Al-Mawas fechou a conta aos 50 do segundo tempo. Um tento importantíssimo, considerando os efeitos que ele pode ter na tabela. Nas arquibancadas vazias em Malacca, alguns poucos “anfitriões” sírios comemoraram bastante.

O melhor para os sírios é que tudo conspirou a seu favor, quando a disputa pela Copa do Mundo parecia limitada a Coreia do Sul e Uzbequistão. Os sul-coreanos receberam o Irã em Seul e, mesmo classificado, o time de Carlos Queiroz dificultou bastante contra os anfitriões. Segurou o empate por 0 a 0, mesmo jogando com um a menos durante a maior parte do segundo tempo. A rivalidade recente entre as duas seleções certamente foi uma motivação a mais aos persas. Já os uzbeques, que poderiam se aproveitar da situação, acabaram decepcionando. A China manteve um fio de esperança ao buscar a vitória por 1 a 0 em Wuhan aos 39 do segundo tempo, com Gao Lin.

Soberano, o Irã domina o topo do Grupo A com 21 pontos. Outras quatro seleções disputam a segunda vaga direta e o terceiro lugar, que leva à repescagem. A Coreia do Sul está em vantagem, com 14 pontos e um gol de saldo. Na terceira colocação, a Síria soma 12 pontos e um gol de saldo, à frente justamente nos critérios de desempate, com os uzbeques apresentando 12 pontos e saldo de menos um. Por fim, a China depende de um milagre, mas a matemática a mantém respirando por aparelhos, com nove pontos e menos três de saldo.

A grande batalha da rodada final acontece em Tashkent, onde o Uzbequistão recebe a Coreia do Sul. Uma vitória classifica os sul-coreanos. Já o empate pode favorecer a Síria, que visita o Irã em Teerã. Neste cenário, uma vitória dos sírios valeria a vaga na Copa do Mundo. Já se o Uzbequistão e a Síria ganharem, os uzbeques só podem ficar com a vaga direta se tirarem dois gols de diferença no saldo – e, neste caso, a Coreia do Sul sequer iria à repescagem.

Se ganhar do Irã é um obstáculo gigantesco, secar o Uzbequistão e manter a mesma pontuação dos ex-soviéticos já valeria a repescagem para a Síria. Um feito e tanto, considerando todo o contexto. Vale dizer que a seleção síria ainda aparece como um elemento político em todo o contexto local, sendo apoiada pelo ditador Bashar Al-Assad como um elemento de propaganda – enquanto existe também uma equipe composta por rebeldes. De qualquer forma, não dá para limitar o impacto de uma Copa do Mundo apenas às peças existentes no intrincado tabuleiro. Uma história grandiosa que talvez seja contada a partir de terça-feira, quando os times voltam a campo.

Pelo Grupo B

O Japão confirmou sua classificação à Copa do Mundo, a sexta consecutiva – o que será, obviamente, assunto de um texto aqui na Trivela, a ser publicado logo mais. Os nipônicos asseguraram seu lugar na Rússia ao baterem a Austrália em Saitama, por 2 a 0. Já o restante da briga na chave acaba concentrada especialmente entre os próprios australianos e os sauditas.

Na terça-feira, os Emirados Árabes Unidos frearam as pretensões da Arábia Saudita ao vencerem o confronto direto por 2 a 1. Assim, os sauditas aparecem na segunda colocação com 16 pontos, e seis gols no saldo. Os Socceroos estão em terceiro, com 16 pontos e quatro de saldo. Já os emiratenses ficam no quarto posto, sustentando as suas chances principalmente pela matemática, com 13 pontos e menos dois no saldo. Na rodada final, a Austrália tem tudo para ficar com a outra vaga direta, caso goleie a Tailândia em Melbourne. A Arábia Saudita joga as suas fichas contra o Japão em Jeddah. Por fim, os Emirados Árabes visitam o Iraque em Amã precisando golear e torcendo por tropeços de seus concorrentes.

Vale lembrar que os dois terceiros colocados se enfrentam em confrontos diretos na repescagem. O vencedor ainda faz um duelo intercontinental contra o quarto colocado da Concacaf. Quem sobreviver, enfim, estará no Mundial.