Confirmado como reforço da Inter no último dia da janela de transferências de inverno, Hernanes mudou o status em que a equipe se encontrava. Desde que o brasileiro entrou em campo, a Beneamata não perdeu um jogo sequer – foram quatro vitórias e dois empates, e apenas dois gols sofridos. O Profeta foi contratado para dar mais fluência à criação de jogadas da equipe, mas, curiosamente, é sua contribuição defensiva que tem chamado mais atenção. Com este novo equilíbrio, apesar de uma considerável distância (11 pontos) para o Napoli, terceiro colocado, o time ainda ambiciona a classificação à próxima Liga dos Campeões.

Taticamente, o time é o mesmo que vai a campo desde o primeiro jogo da temporada, pela Coppa Italia, diante do Cittadella. O que mudou com a chegada de Hernanes e, dizem em coro os jogadores do elenco interista, com a derrota para a Juventus na terceira rodada do returno da Serie A, foi a mentalidade.

Depois de quase nove meses, a filosofia de trabalho do técnico Walter Mazzarri parece, enfim, ter sido assimilada pelos jogadores do elenco nerazzurro. “A personalidade, a autoestima, a convicção do elenco em si mesmo aumentou. A organização tática pouco a pouco foi digerida. A minha forma de ver e pensar o futebol logo foi ‘comprada’ pelos jogadores, que se entusiasmaram, mas precisamos de um pouco de tempo para que eles entendessem o que eu lhes pedia”, disse Mazzarri à Gazzetta dello Sport.

A derrota contra a Velha Senhora escancarou o grande abismo técnico e tático entre as duas equipes, algo que não era evidente no primeiro duelo entre os times neste campeonato – na ocasião, a Inter jogou bem e a Juve precisou de Vidal para arrancar um empate. O choque de realidade fez o time voltar a trabalhar duro, para reverter a sequência amplamente negativa, que apontava apenas uma vitória em 10 jogos, entre a 13ª e a 21ª rodadas. Desde então, a Inter não sabe mais o que é perder.

Por incrível que pareça, a contratação de Hernanes, que apenas assistiu das tribunas à derrota de sua nova equipe frente a Juve, parece ter influído diretamente no acerto defensivo da Inter. Após a contratação do brasileiro, considerado como um craque de nível mundial por todos no futebol italiano, a Inter mostrou ambição – e o Profeta, jogador bom de grupo e bom de bola, chamou a responsabilidade. Além de contribuir com a organização do jogo, ele tem se dedicado a marcar e interceptar muitas bolas no campo de defesa, algo que não vinha fazendo na Lazio, onde vivia momento um tanto negativo.

Certo, desde que Hernanes chegou à Milão, a Inter também se mostra uma equipe diferente na metade do campo em que os adversários se defendem. Cria mais, é mais objetiva, mantém mais a posse de bola no ataque, onde Icardi ganhou a vaga de Milito, por ajudar no jogo coletivo, e viu Palacio voltar a marcar – são três os gols neste ano, depois de um jejum de quase dois meses. A equipe corre menos riscos por controlar mais os jogos. E, graças a este controle, o time parece mais calmo e consciente de onde pode chegar.

Com a chegada de Hernanes, os problemas na defesa começaram a ser resolvidos, mas não sem a retirada do promissor Ranocchia do time titular. Com a recuperação de Samuel, pilar da defesa azul e preta nos últimos anos, o zagueiro da seleção italiana, que vinha cometendo erros em excesso, passou a amargar o banco de reservas – e, por essas e por outras, perdeu sua vaga também na Nazionale.

Samuel fez quatro excelentes partidas e liderou a defesa nestes jogos. Pela esquerda, Juan, que já vinha atuando com regularidade, continuou atuando bem, e Rolando, pela direita, cresceu bastante – suas atuações tem feito a diretoria da Inter se apressar em comprá-lo em definitivo e o levaram a ser chamado novamente para a seleção de Portugal, pela qual não jogava desde 2012.

Nos últimos dois jogos, após ser preservado, Ranocchia voltou ao time titular e teve ótimas atuações, assim como Campagnaro, que está se recuperando de problemas físicos e, quando foi chamado em causa, não comprometeu. Até pela idade avançada de Samuel, Ranocchia deve ser mantido como titular até segunda ordem, com o argentino de prontidão.

Seria injusto atribuir esta mudança na Inter apenas a Hernanes. Também contribuíram para esta tranquilidade a manutenção de Guarín, sem falar nas negociações para a renovação dos contratos do colombiano e de Palacio e da saída do diretor Marco Branca, que estava muito desgastado com alguns setores do elenco e do próprio departamento de futebol. O grupo recebeu do presidente Erick Thohir garantias de que a Inter ainda pretende lutar por objetivos maiores em um futuro próximo. Claro, um argumento trazido à tona por Mazzarri faz sentido: com o encerramento da janela de transferências, os jogadores ficaram mais concentrados no futebol.

O respaldo que Guarín tem recebido da diretoria também está ajudando a equipe dentro de campo porque o meia passou a render bem. O colombiano faz um ótimo trio de meias ao lado de Hernanes e Cambiasso e tem sido mais disciplinado taticamente. Em termos defensivos, os três tem oferecido boa proteção ao trio de zagueiros, e propiciado as subidas dos ofensivos alas da equipe, Jonathan e Nagatomo, que tem se destacado por entrarem muito nas áreas adversárias e, além da participação com assistências, também pelos gols marcados.

Parte essencial nesse crescimento também é Cambiasso, que cobre os meias e dá suporte ao beque central. O argentino, em mais uma boa fase da carreira, tem garantido vários roubos de bola no campo de ataque e recuperações em contra-ataques. Ultimamente, voltou a atuar quase como box-to-box, especialmente no segundo tempo, já que Hernanes e/ou Kovacic  garantem o controle e um jogo entre linhas que não se via na Inter desde os tempos de José Mourinho, quando Thiago Motta, o próprio Cambiasso e Sneijder davam o tom do meio-campo nerazzurro.

Agora, com a boa fase, a Inter sonha alto e quer usurpar a terceira posição do Napoli, 11 pontos à frente, mas com uma tabela complicada nos dez jogos restantes: enfrenta, em ordem alfabética, Fiorentina, Juventus, Inter, Lazio, Parma, Sampdoria, Udinese e Verona. Chegar à Liga dos Campeões ainda é possível? Considerando, ainda, que a Fiorentina, quarta colocada, e o Parma, sexto, também vivem bons momentos e também enfrentam os napolitanos, a missão é complicada. No entanto, considerar que a terceira vaga para a Champions é favas contadas, com tantos confrontos diretos, é precipitado.

Diante da Atalanta, no domingo, a Inter terá uma prova de fogo na primeira das “dez finais” que Mazzarri diz que o time tem pela frente. Entre os times menores do futebol italiano, é exatamente La Dea aquele que mais complica a vida dos interistas – importante ressaltar que Bérgamo fica perto de Milão e há forte rivalidade regional –, e o equilíbrio está nos números: são 21 vitórias da Beneamata, 19 empates e 15 vitórias atalantinas. A Inter não vence a Atalanta desde abril de 2010 (quando fez 3 a 1), e conquistou apenas duas vitórias nos últimos nove jogos contra o time comandado pelo atacante Denis. Contando com um resultado positivo na partida entre Napoli e Fiorentina, que também acontece neste fim de semana, o fio pode virar a favor dos interistas.