Rússia e Catar poderiam ter estádios capacitados para receber as próximas duas edições da Copa do Mundo, ter grande parte de suas obras para o evento finalizadas com antecedência e se encaixarem em todos os requisitos nesse sentido para serem sedes do torneio. Mas nada disso teria valor se são dois países que deixam bastante a desejar quando o assunto é respeito aos direitos humanos. Ao menos se o critério usado pela Fifa fosse o mesmo que a Uefa diz que irá adotar.

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Com o debate, o julgamento e a pressão sobre a realização da Copa de 2018 e 2022 em lugares onde há relatos de trabalho escravo e violação de direitos dos operários que trabalham nas obras para o evento, a Uefa decidiu fazer diferente na escolha da próxima sede da Eurocopa, em 2024 (em 2020 o torneio terá múltiplas sedes). O país que quiser se candidatar para ser sede da competição em 2024 terá que ser responsável com os direitos humanos obrigatoriamente. Ao menos é o que diz a Uefa.

Nesta segunda, a entidade que rege o futebol na Europa anunciou que direitos humanos é, agora, um critério para sediar a Eurocopa. Serão 13 estádios como sede para 2020, espalhados pelo continente, sem uma sede fixa. A sede de 2024, que voltará a ser em um só país, porém, ainda não foi escolhida. Alemanha e Turquia já declararam interesse oficialmente em receber a Euro, e agora terão que ser rigorosos com esse assunto, já que passa a ser um requisito.

“A proteção dos direitos humanos e dos direitos trabalhistas é de extrema importância para a Uefa. Achamos obrigatório introduzirmos artigos específicos sobre respeito e proteção aos direitos dos cidadãos nos requisitos para lançar candidatura em todas as nossas competições”, falou Aleksander Ceferin, presidente da entidade, depois de reunião com as federações alemã e turca.

“De agora em diante, as nações candidatas deverão aderir estritamente a esses artigos durante a organização e realização desses torneios”, disse ainda o esloveno. Os critérios de análise relacionados a direitos humanos são baseados nos Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos e em outras convenções da ONU. A Uefa escolherá em setembro do ano que vem qual país sediará a Eurocopa de 2024. Por enquanto, só a Turquia e a Alemanha estão na disputa de maneira oficial.

Se a escolha fosse agora, provavelmente os turcos ficariam de fora da briga pela sede do torneio. Isso porque no início deste ano, a ONU publicou um relatório detalhando “violações graves de direitos humanos cometidas entre julho de 2015 e dezembro de 2016 no sudeste da Turquia”. A veracidade dos fatos foi negada pelo governo do país, mas não deixa de ser uma suspeita. Além disso, a nação turca está submetida a uma imensa instabilidade política sobretudo desde a tentativa fracassada de golpe militar em julho de 2016, além da questão da Síria.

Mês passado, o chefe de Estado turco Recep Tayyip Erdogan teve seus poderes ampliados após a vitória do ‘sim’ em um referendo sobre um novo sistema político no país. Há suspeitas de manipulação de resultado no plebiscito. Com ainda mais poder, o presidente expandiu o tempo do estado de emergência em vigor desde a tentativa de golpe de Estado por mais três meses. A Turquia completará um ano sob tal estado, o que a caracteriza como um país bastante conturbado politicamente no momento.

É impossível não relacionar a inclusão deste tipo de preocupação na escolha da sede da Eurocopa com o que vemos na preparação da Copa de 2018, na Rússia, e especialmente a Copa de 2022, no Catar. As denúncias em relação aos dois países se empilham em relação tanto em relação a direitos humanos quanto questões trabalhistas. Recentemente, um relato pesado sobre violações de direitos trabalhistas surgiu em relação à Rússia-2018. Em 2016, um relatório encomendado pela própria Fifa indicou que os países que violam direitos humanos não deveriam receber a Copa do Mundo. Com a Uefa tomando esse passo, a pressão na Fifa aumenta.