Um dos clubes mais tradicionais e importantes de Portugal está perto de voltar à elite do futebol no país. Nesta semana, a Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) divulgou que o Boavista tem prazo até 24 de abril para apresentar sua inscrição à Primeira Liga da próxima temporada. Se isso realmente acontecer, o Campeonato Português será alargado de 16 para 18 times (um playoff entre o penúltimo da primeira divisão e o terceiro colocado da segunda definirá o 18º participante).

O retorno à elite é uma briga que o Boavista trava há seis anos e que, agora, está perto de ganhar. O passo final será apresentar a renegociação de todas as dívidas da SAD, a Sociedade Anônima Desportiva, que gere o futebol do clube. Avaliada em cerca de € 40 milhões, a maior parte dela é com o governo.

O caso foi explicado pela coluna em março do ano passado (clique aqui para ler), mas não custa relembrar. Os panteras negras disputavam a primeira divisão e foram rebaixados na temporada 2007/08, por uma decisão do Comitê de Disciplina da Liga. Na época, o órgão avaliou que o clube estava envolvido no escândalo conhecido como Apito Final, em que era acusado de tentar coagir e subornar árbitros durante o campeonato de 2003/04. Na época, o Porto, também envolvido nas acusações, foi punido com a perda de seis pontos, mas não com o rebaixamento.

A queda forçada para a segunda divisão iniciou um período de enorme crise nos axadrezados. A presença na Segunda Liga, aliás, durou apenas uma temporada. Com 16 derrotas em 32 jogos, o time terminou o campeonato em penúltimo lugar e caiu para a terceira divisão (atualmente chamada de Campeonato Nacional de Seniores). Em Portugal, o terceiro escalão do futebol é semi-profissional e disputado de maneira regionalizada. Acumulando mais dívidas fora do campo do que pontos dentro dele, o Boavista até fez campanhas razoáveis, mas não ao ponto de retornar para a Segunda Liga. Atualmente, é o quarto colocado na fase decisiva de sua região.

Mas, enquanto mantinha o time disputando as competições mais rasas do futebol lusitano, a diretoria seguiu batalhando na Justiça pelo que considerava serem os seus direitos. A vitória veio no ano passado, quando uma decisão do Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa declarou nula a reunião do Conselho de Justiça, que rebaixara o clube no final da década passada. Pouco tempo depois, a Assembleia Geral de Clubes aprovou o retorno do time à primeira divisão.

Posteriormente a isso, uma sensata decisão da Federação Portuguesa de Futebol (leia mais aqui) rejeitou o retorno dos axadrezados nesta temporada. O argumento era que, se isso acontecesse, o campeonato teria de ser alargadado para 18 times, o que exigiria uma imoral mudança no regulamento de acesso e descenso durante a competição. Mas a Federação deixou aberta a possibilidade de isso acontecer em 2014/15, como de fato pode ocorrer.

O adiamento por um ano não foi ruim para o Boavista. Pelo contrário, deu à SAD do clube mais tempo para correr atrás da renegociação das dívidas. E ela ainda ganhou um presente em janeiro, quando o Ministério da Economia de Portugal criou um plano que permite o pagamento em até 150 meses de dívidas relativas a impostos e encargos sociais com o Estado.

Mas, se a dívida é grande, os axadrezados confiam também em receber um bom dinheiro como indenização pelo tempo em que o time deixou de disputar a primeira divisão. O clube pede na Justiça um ressarcimento de € 30 milhões da LPFP relativos ao que deixou de ganhar (direitos de televisão, patrocínios, etc) no período em que esteve afastado da elite. Nesse caso, a tendência é que ambas as partes cheguem a um acordo extrajudicial e o os panteras negras recebam entre € 15 milhões e € 20 milhões, evitando prolongar demais o imbróglio.

É importante salientar que o salto do Boavista da terceira para a primeira divisão não representa uma virada de mesa. O que o clube fez, acertadamente, foi recorrer à Justiça Comum por algo que achava ter sido prejudicado (o rebaixamento em 2007/08), sem contudo deixar de cumprir o que a Justiça Esportiva havia determinado, jogando as divisões inferiores. E agora que provou inocência, ganha o direito de retornar à primeira divisão e ainda requer uma compensação financeira pelo prejuízo a que foi submetido.

Em comunicado divulgado nesta semana, a diretoria do Boavista afirmou que irá apresentar sua candidatura à disputa da elite, “reunindo a documentação necessária durante o prazo previsto”. O comunicado classifica o momento de histórico para o clube.

Se a inscrição dos axadrezados for aceita pela Liga de Clubes (o que deve ocorrer, caso a renegociação das dívidas esteja em ordem), o Boavista será o 17º integrante da primeira divisão na próxima temporada. O 18º será definido, então, num playoff entre o penúltimo colocado da primeira divisão e o time que ficar em terceiro lugar na segunda divisão. Os jogos já têm até data para acontecer: a ida em 13 ou 14 de maio e a volta em 17 ou 20 de maio.

O alargamento do Campeonato Português, porém, só acontecerá se o Boavista conseguir a inscrição na Primeira Liga. Em caso contrário, segundo a LPFP, o playoff nem será realizado.

Se realmente ocorrer, o retorno dos axadrezados é motivo de comemoração. Ao lado do Belenenses, o Boavista é o único time que conseguiu desbancar o trio Benfica / Porto / Sporting e conquistar o Campeonato Português, em 2000/01. Possui uma torcida apaixonada, que não o abandonou nem nesses momentos difíceis. É dono de um estádio charmoso, o Bessa, localizado em área nobre da cidade do Porto. Possui 110 anos de história e é muito mais conhecido fora de Portugal do que várias das equipes que disputam a primeira divisão atualmente. E, principalmente, tomou uma atitude honrada ao buscar seus direitos sem deixar de cumprir o que a Justiça Desportiva havia determinado