Os mexicanos mais entusiasmados imaginaram, após o Mundial Sub-17 de 2005, que a seleção logo poderia se tornar uma força. El Tri conquistou o torneio com autoridade, revelando uma porção de talentos. Giovani dos Santos e Carlos Vela foram os protagonistas da equipe que bateu o Brasil de Marcelo, Renato Augusto e Anderson na decisão. E, dono da Chuteira de Ouro como artilheiro, Vela logo se tornaria uma aposta do futebol europeu, mesmo sem sequer ter estreado profissionalmente no Chivas Guadalajara. Transferiu-se ao Arsenal, onde iniciou uma jornada de altos e baixos não apenas em seus clubes, como também pela seleção. Precisou esperar mais de uma década para, enfim, viver o seu grande momento em uma Copa do Mundo. Ao menos parcialmente, para justificar as expectativas de todos aqueles que confiavam em seu talento. Nestas primeiras duas rodadas, o camisa 11 é um dos melhores jogadores de El Tri, essencial a uma campanha que consegue superar as expectativas.

Vela estreou pela seleção principal em 2007, quando rodava por empréstimos ao futebol espanhol, antes de ganhar sua chance no Arsenal. A temporada de 2009/10 não foi boa ao prodígio, com raras aparições em campo pelos Gunners. No entanto, a esta altura, já era titular e um nome importante a El Tri. A preparação à Copa do Mundo de 2010, aliás, aumentava o interesse quanto àquilo que o jovem talentoso poderia produzir. Em 2009, ajudou a destruir os Estados Unidos nos 5 a 0 em plena final da Copa Ouro. Já às vésperas do Mundial, garantiu uma vitória dos mexicanos sobre a Itália em amistoso.

Embora o México tenha feito uma boa Copa na África do Sul, Carlos Vela não viveu sua ambição em plenitude. Participou da estreia contra a África do Sul, mas se lesionou logo aos trinta minutos de jogo na vitória contra a França. Não voltaria mais a atuar naquela competição. Frustração que logo seria suplantada pela confusão que criou meses depois, em setembro de 2010. Por participar de uma “festinha” no hotel da seleção após partida contra a Colômbia, o atacante de 21 anos recebeu uma suspensão de seis meses. Sentia-se tratado como um bode expiatório, já que outros jogadores que estavam na farra não foram punidos com o mesmo rigor.

Vela até chegou a voltar ao time em 2011, mas causou mais atritos ao recusar a convocação aos Jogos Olímpicos de 2012. Justificou sua decisão ao preferir se firmar na Real Sociedad, após deixar o Arsenal. Da Espanha, viu seus compatriotas faturarem o ouro olímpico em Londres. Uma nova tentativa de reaproximação aconteceu em 2013, mas com uma nova recusa do atacante, que alegou motivos pessoais para não se juntar ao time nas Eliminatórias.

O problema com o técnico José Manuel de la Torre era claro e, após a saída do comandante, Vela reabriu a possibilidade de defender El Tri. A fase o referendava, aliás. Se não era a promessa que valeu a aposta do Arsenal, virou um bom destaque da Real Sociedad. No entanto, a novela teria novos capítulos, também com Víctor Manuel Vucetich e Miguel Herrera. A três meses do Mundial, Herrera viajou à Espanha com outros membros da federação. Encontrou-se com Vela justamente para discutir o seu futuro. Encontro que não terminou conforme o esperado.

“Notamos que não havia compromisso, desejo de defender a seleção. Você compreende isso, mas não compartilha. Vejo Zlatan incomodado porque não vai à Copa, os colombianos desesperados por Falcao. Mas cada um toma sua decisão e não sou eu que julgarei”, declarou Herrera, na época. Já na nota oficial, a federação afirmava que “Vela se manifestou que não está 100% do ponto de vista mental e emocional para enfrentar o Mundial”. Uma história sem inocentes, entre a indisciplina da estrela e a desorganização da federação, que sofreu naquele ciclo mundialista. O atacante se contentava em brilhar na Real Sociedad, onde construiu uma bela trajetória, mesmo com propostas para deixar o Estádio Anoeta. Em seu país, era tratado mesmo como alguém que não gostava de futebol tanto assim e não aproveitava seu talento ao máximo.

Em novembro de 2014, enfim, Carlos Vela mudou de ideia. Voltou a aceitar a convocação, integrando o elenco de Herrera. E sua experiência se tornou valiosa a partir do início do trabalho de Juan Carlos Osorio, em 2015. Virou uma das referências do time, por sua capacidade ofensiva e pelo poder de decisão. Em sua maior sequência com El Tri, não é exatamente o protagonista que se imaginou em 2005. Ainda assim, se transformou uma liderança clara ao lado de outros jogadores rodados, como Chicharito Hernández e Andrés Guardado, e das promessas que começaram a despontar para o ataque.

A tarimba faz bem a Vela – e desde a preparação, quando se afastou de uma “festinha” que poderia condená-lo por seu passado. Nesta Copa do Mundo, ele é o vértice do time, meia centralizado para organizar o jogo e dar velocidade nas investidas. O camisa 11 já tinha feito uma ótima partida na estreia contra a Alemanha. Continuou como um dos melhores diante da Coreia do Sul. O meia deu ritmo ao time, criou oportunidades aos companheiros, aproveitou bastante a movimentação de Hirving Lozano e Chicharito Hernández. Já aos 26 minutos, quando surgiu a oportunidade, assumiu a responsabilidade. Bateu o pênalti que abriu a vitória por 2 a 1 sobre os asiáticos. Uma serenidade e uma segurança que contrastam bastante com seu passado na seleção.

Aos 29 anos, Vela parece bem mais consciente de seu papel e de sua importância. Embora muitos desconfiassem de sua forma na Copa do Mundo após se transferir à menos exigente MLS, virando o rosto principal do “projeto hispânico” do Los Angeles FC, o jogador demonstra que o descanso fez bem para chegar inteiro à Rússia. Os momentos inconstantes são uma crítica costumeira ao futebol do camisa 11, mas, focado, pode render em uma competição de tiro curto como o Mundial. E, quem sabe, ter os seus lampejos. A torcida têm consciência que o camisa 11 nunca será o craque que imaginavam. Mas naquela que finalmente é sua Copa, pode ajudar com sua qualidade técnica inegável.