Luis Aragones com o troféu da Euro 2008: título marcante (AP Photo/Bernat Armangue)

Aragonés não sabia se venceria, mas sabia como queria tentar chegar lá

A Espanha fez história no futebol ao criar um estilo que leva ao extremo o conceito de manutenção de posse de bola e, assim, entrar para a história de times marcantes, como a Hungria de 1974, o Brasil de 1958, 1970 e 1982, a Holanda de 1974, a Dinamarca de 1986, entre tantos outros. Sim, foi a seleção da Espanha que começou o tiki-taka, que depois seria incorporado – e por que não dizer, aprimorado – pelo Barcelona de Guardiola, um grande admirador do estilo. Melhor dizendo: o Barcelona influenciou a Espanha, que influenciou novamente o Barcelona. Tudo isso tem muito a ver com Luis Aragonés, que morreu aos 75 anos, vítima de uma leucemia, na madrugada deste dia 1º de fevereiro.

Aragonés assumiu o comando da seleção espanhola em 2004, logo após a Eurocopa daquele ano, quando a Espanha foi um fracasso que terminou em terceiro lugar no Grupo A e acabou eliminada na primeira fase do torneio. Portugal e Grécia avançaram – e esses dois times fariam a final, vencida pelos gregos. Foi a partir dali que começou a mudar a história da Espanha, com um estilo de jogo paciente, que valoriza muito o passe curto e a manutenção da posse de bola. Claro que não foi de um dia para o outro. Mas dois anos depois, em 2006, já começava a dar frutos.

O então ex-jogador Guardiola comentou um jogo da Espanha na Copa do Mundo de 2006 em um texto no jornal El País. Foi no dia 15 de junho de 2006, um dia depois da estreia espanhola naquele Mundial, um estrondoso 4 a 0 sobre a Ucrânia de Shevchenko. No texto, Guardiola elogia Cruyff, que mudou a cara do Barcelona.

“Até a sua chegada como técnico em Barcelona, o jogo do meu amado time era o do seu treinador. Jogávamos à argentina como Menotti, à Alemanha com Lattek e também com Venables, à inglesa ganhamos uma liga. Mas um dia de verão chegou o senhor Cruyff e começou a dizer e a fazer umas coisas que, hoje, 16 anos depois, ainda perduram”, diz Guardiola. Sim, o Barcelona teve muitos estilos, mas a chegada de Cruyff mudaria isso.

Guardiola elogia Aragonés por acreditar. Aliás, esse é o título do texto, “Por creer”. “Por acreditar que ‘não sabemos como acaba, mas que tudo começa com a bola’. Porque ninguém sabe como acabam as coisas, mas sim como queremos começar”. Sim, o Barcelona influenciou a Espanha para que o tiki-taka como conhecemos agora acontecesse. Mas foi a Espanha que começou com esse estilo que seria tornado vencedor por Aragonés, daria ao futebol espanhol uma cara que tem até hoje e que seria usada também por Guardiola no Barcelona, a partir de 2008.

O ex-jogador do Barça assumiu o Barcelona logo depois da Eurocopa de 2008, vencida pelos espanhóis com esse estilo. Guardiola tinha uma ideia e, mais do que isso, tinha os elementos para fazer do Barcelona a obra-prima desse estilo. Xavi era do Barcelona, o principal regente desse estilo. Guardiola agradeceu a Aragonés antes mesmo de saber que, dois anos depois, estaria no banco de reservas do seu clube de coração para usar aquele mesmo estilo e criar um dos maiores times de todos os tempos.

Aragonés fez a Espanha entrar no grupo dos grandes campeões. Foi ele que mudou a história da seleção que era chamada de “Fúria” antes, e ironizada por isso, e que prefere ser chamada de “Roja” depois disso, porque era um símbolo da nova era. Um trabalho que Vicente Del Bosque deu continuidade depois da Eurocopa de 2008 e resultou na conquista da Copa do Mundo de 2010 e novamente na Eurocopa de 2012. Sempre com um estilo. Mesmo quando perde, a Espanha sabe o que quer fazer em campo, com a bola. Assim como o Barcelona. Mesmo nas derrotas, o Barcelona tem o seu estilo, que é marcante e quase sempre dominante.

Guardiola deixou o Barcelona e vem fazendo do Bayern de Munique uma equipe que segue aquilo que Cruyff lá atrás e Aragonés em um passado recente fizeram. O Bayern de Guardiola tem um pouco da Espanha de Aragonés. E talvez a Espanha de Aragonés seja o que permitiu que Guardiola tivesse convicção de usar esse estilo.

Aragonés entra para a história como o técnico de um time marcante da Espanha, como foi a Holanda entre 1974-78, a Alemanha de 1972-74, o Brasil de 1958, 1970 e 1982, a Dinamarca de 1986, entre tantos outros. Uma Espanha que continua fazendo história e que entra na Copa do Mundo de 2014 como um candidato ao título novamente. Há 10 anos, quando Aragonés assumiu a seleção espanhola, era difícil imaginar que viveríamos um período tão grande de dominância do estilo espanhol. O futebol te agradece, Aragonés.