O árbitro Ricardo Marques Ribeiro tinha uma decisão difícil para tomar. A última rodada do Campeonato Brasileiro entre Atlético Paranaense e Vasco estava paralisada há mais de 70 minutos por causa de uma violenta briga entre as torcidas. Após ouvir do chefe do policiamento na Arena Joinville que a situação estava controlada, resolveu permitir que a bola voltasse a rolar, embora ainda houvesse inquietações nas arquibancadas e nos arredores do estádio.

Não que isso aconteça todo dia, mas o que ele fez não foi nada além do procedimento padrão para esse tipo de situação, segundo o presidente da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol, Marco Martins.

“A decisão final é dele, mas quem informa se o jogo tem condições de continuar é o policiamento”, disse em entrevista à reportagem da Trivela. “De fora é difícil dizer, mas ele seguiu procedimentos normais. Ele teve a capacidade de avaliar. Seguiu o que estava na regra e teve bom senso”. Não é apenas o policiamento que o árbitro pode ouvir antes de tomar uma decisão. Martins admite que às vezes há contato externo como, por exemplo, com a CBF ou a dona dos direitos de transmissão do evento. “Nada impede, mas a princípio, a decisão é do árbitro”.

O relato de quem estava em campo corrobora o que diz Martins. O técnico do Atlético Paranaense, Vágner Mancini, disse que a intenção de Ricardo Marques Ribeiro sempre foi recomeçar a partida, caso houvesse condições para isso. “A todo instante o árbitro dizia que recomeçaria o jogo quando tivesse segurança”, contou. “Quando a Polícia Militar deu o sinal verde, ele recomeçou a partida”.

Ricardo Marques Ribeiro retomou a partida após mais de 70 minutos de paralisação

Ricardo Marques Ribeiro retomou a partida após mais de 70 minutos de paralisação

Demorou mais de uma hora para a polícia militar dar o tal sinal verde porque a segurança da Arena Joinville estava sob responsabilidade de uma empresa privada. A PM fazia a patrulha apenas nos arredores, mas decidiu intervir quando as torcidas de Atlético Paranaense e Vasco transformaram as arquibancadas em um campo de batalha entre gladiadores.

Teria sido um processo mais direto, entre o árbitro e o comando da segurança. Mas há exemplos que mostra como outros agentes podem entrar nesse debate durante uma partida que é interrompida por força maior. Foi o caso da final da Copa João Havelange de 2000. O alambrado de São Januário cedeu diante da aparente superlotação durante o primeiro tempo de Vasco x São Caetano. Pessoas ficaram feridas no gramado, e criou-se a dúvida: segue ou não a partida?

Oscar Roberto de Godoy apitava o jogo, mas a decisão teve muita participação externa. Eurico Miranda, presidente do Vasco na época, entrou no gramado para “liberar a área” para o jogo recomeçar. Mas ele não foi o único a pressionar o árbitro. Anthony Garotinho, governador do Rio de Janeiro, ligou para o chefe da Defesa Civil e ordenou que a partida fosse refeita em outro dia devido à falta de segurança. Eurico não gostou, e acusou a Globo de influenciar a decisão. segundo o cartola, a emissora queria terminar a transmissão logo para o jogo não invadir o horário da novela Uga-Uga, programada para às 18h (o jogo começou às 16h).

Os vascaínos, por ordem de seu presidente, chegaram a dar uma volta olímpica no estádio, mas o jogo foi refeito desde o início em janeiro de 2001. Como forma de vingança à Globo, Eurico mandou estampar o logotipo do SBT na camisa sem avisar ninguém. Até o SBT alegou desconhecer a ação que expôs sua marca durante uma transmissão da Globo em rede nacional.

Romário comemora o título da Copa João Havelange no Maracanã (Reprodução)

Romário comemora o título da Copa João Havelange no Maracanã (Reprodução)

Tempo de paralisação

A confusão entre Atlético Paranaense e Vasco não envolve apenas o fato de o jogo ter recomeçado. O tempo que levou para o árbitro tomar a decisão também se tornou importante. A partida ficou parado por 71 minutos, o que excede o tempo previso no regulamento (30 minutos, com possibilidade de estender por mais 30). Uma brecha que o clube carioca tenta usar para alegar que o encontro foi irregular. Os três pontos salvariam os cruzmaltinos do rebaixamento.

Segundo Marco Martins, da Anaf, esse não é um problema. “O regulamento diz 30 mais 30, mas existe uma recomendação de bom senso. Se o policiamento diz que precisa de mais dez minutos para colocar tudo em ordem, o árbitro acha prudente esperar. Tem toda uma questão financeira envolvida, todo mundo ali para jogar. Por que não esperar mais três ou quatro minutos depois dos primeiros 59?”.

O caso era delicado, e o jogo também poderia ficar sub judice se fosse encerrado naquele momento. Com o sinal verde do policiamento, o Atlético Paranaense poderia contestar os motivos do árbitro para suspender a partida e pleitear os pontos na Justiça, sem a realização de um novo jogo. Afinal, ele estava ganhando. “Quando o policiamento diz que tem condições é complicado”, disse Martins. “O Atlético diria que queria a partida, o policiamento mandou continuar e o árbitro teria ignorado essa recomendação”.

Situação enrolada, mas ainda longe da mais caricata envolvendo partidas interrompidas, justamente uma em que a decisão foi apenas do árbitro. Em 1962, Santos e Peñarol decidiram a Libertadores na Vila Belmiro. O time paulista, desfalcado de Pelé, precisava apenas de um empate para se sagrar campeão e o estava conseguindo até Sasía fazer 3 a 2 para os uruguaios. Os ânimos ficaram exaltados em campo e nas arquibancadas. Torcedores atiraram objetos em campo e a partida foi interrompida. Quando tudo se acalmou, o árbitro Carlos Robles retomou o jogo, Pagão empatou, os santistas desceram para os vestiários comemorando o título e os jornais do dia seguinte até publicaram a notícia da façanha do Peixe.

O problema é que Robles, sem avisar, deu o jogo por encerrado no momento da confusão e o que se seguiu – inclusive o gol de Pagão – foi apenas um jogo de cena para que a torcida não perdesse a cabeça e o trio de arbitragem, mais o time uruguaio, conseguissem ir embora em segurança. A vitória ficou com o Peñarol, o que forçou a realização de um jogo extra em campo neutro. Com Pelé de volta de contusão, o Santos conquistou o título, apesar de uma decisão maluca do árbitro que abusou um pouco do poder de tomar a decisão sobre a retomada do jogo.

Santos 2x3 Peñarol jornal