Torcida argentina canta em partida contra a Suíça no Itaquerão (AP Photo/Sergei Grits)

Argentinos e brasileiros fazem clássico de gogós em SP

Com vídeos de Leandro Beguoci, Mariana Castro, Ubiratan Leal e Vinícius de Oliveira

Caaaatchan, caaaatchan, caatchan, caatchan, catchan, catchan. O barulho se repete, mas cada vez com intervalos menores. O som da roda passando sobre imperfeições do trilho é o mais marcante do trem que sai da Estação da Luz e leva centenas de torcedores para Itaquera, onde Argentina e Suíça decidirão uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo.

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O som do trem dá uma rápida sensação de que é um momento cotidiano, nada especial. É um trem lotado se direcionando à Zona Leste, algo que ocorre todo dia em São Paulo. Mas o barulho dos trilhos some. É o momento que argentinos percebem que os brasileiros dentro do vagão estão quietos e resolvem dar início a um dos maiores duelos do Mundial de 2014.

Dois, três, quatro, dez, quinze, vinte, trinta argentinos começam a cantoria. “Y ya lo vé, y ya lo vé, somos locales otra vez.” Estão se gabando de uma nova invasão, de ter superioridade numérica e sonora dentro de um estádio da Copa do Mundo de seu maior rival. Já havia sido assim no Maracanã contra a Bósnia-Herzegovina, no Mineirão contra o Irã e no Beira-Rio contra a Nigéria.

A chegada na Arena Corinthians não reduz a confiança dos argentinos. Apesar de haver muitos brasileiros, a sensação de que haverá domínio territorial é clara. E o repertório é vasto:

- Brasilero , brasilero / Que amargado se te ve / Maradona es más grande / Es más grande que Pelé

- Vamos vamos, Argentina / Vamos vamos a ganar / Que esta banda quilombera / No te deja no te deja de alentar

- Ole, ole, ole / Ole, ole, olá / Ole ole ole / A cada dia te quiero más / Soy argentino / Es un sentimiento / No puedo parar

- Brasil, decime que se siente / Tener en casa a tu papá / Te juro que aunque pasen los años / Nunca nos vamos a olvidar / Que Diego los gambeteó / Que Cani los vacunó / Están llorando desde Itália hasta hoy / A Messi lo vas a ver / La Copa nos va a traer / Maradona es más grande que Pelé

Traduzindo:

- Brasil, me diga como se sente / Ao ter em casa seu pai / Te juro que mesmo que passem anos / Nunca vamos esquecer / Que Diego (Maradona) te driblou / Que Cani (Cannigia) te vacinou / Estás chorando desde a Itália até hoje / O Messi você vai ver / A Copa vai nos trazer / Maradona é maior que Pelé

Essa última, apesar da letra mais longa e que apenas 3% dos brasileiros entendem inteiramente, é claramente a preferida. Ela chama o Brasil de freguês, sugere a invasão argentina na Copa 2014, faz referência a uma vitória histórica (ainda que seja bem discutível o fato de os brasileiros estarem chorando pela Copa de 90 até hoje), diz que Messi vai ganhar o Mundial e arremata com o “Maradona é maior que Pelé”. Sim, é uma letra excepcionalmente complexa na arte de provocar um rival.

Nesse momento, o clima é tranquilo na entrada do estádio. Após notícias de problemas com argentinos em Porto Alegre, as autoridades paulistas aumentaram muito o policiamento na entrada da Arena Corinthians. Além disso, o fato de a região só estar acessível por trem e metrô pode ter inibido a presença de uma quantidade grande de torcedores sem ingressos tentando entrar de forma ilegal (forçando a entrada ou roubando ingressos).

Depois do constrangimento de passar apuros contra a torcida mexicana em Fortaleza, a brasileira não pode aceitar passivamente que um visitante se sinta como mandante na Copa. Aos poucos, surgem as primeiras tentativas de reação. Alguns apostam na música que surgiu na campanha de compor cantos para a Seleção: “Se você é argentino / Então me diga como é / Ter apenas duas Copas / Uma a menos que o Pelé”. Alguns vão na onda, mas ela não ganha embalo suficiente. Os argentinos seguem em vantagem.

Era um jogo pesado, e ninguém ousa o desgastado “Sou brasileiro / Com muito orgulho / Com muito amor”. Os corintianos, maioria entre os brasileiros, tentam o “Timão ê ô” que até teve sucesso em outras partidas no Itaquerão, mas esse clássico sul-americano precisava que todos se unissem. E obviamente, são-paulinos, palmeirenses e santistas jamais reforçariam o coro alvinegro.

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Até que alguns brasileiros recorrem a uma música que já havia sido ouvida no Mineirão durante o Brasil x Chile: “Mil gols / Mil gols / Mil gols, mil gols, mil gols / Só Pelé / Só Pelé / Maradona cheirador”. A letra faz pouco sentido, pois a produção ofensiva de Pelé não tem relação alguma com o problema com drogas de Maradona, mas o canto pegou.

Dá para entender. A música que menciona a quantidade de Copas que a Argentina já ganhou é bem sacada, mas é comportada. A versão dos “mil gols” faz uma agressão clara ao grande ídolo argentino, lança mão de um xingamento que merece diversas considerações sobre o quão desrespeitoso ele é. E, por mais que seja criticável jogar problemas pessoais na cara dos outros, o lado transgressor dá um prazer mórbido a quem canta essa letra. E atinge quem a ouve.

Nesse momento, a Argentina já começava a sofrer com a marcação suíça e a confiança da torcida platina estava abalada. O canto que os brasileiros descobriram dominou o estádio (que, diga-se, tinha algo em torno de 60% de brasileiros, ainda que poucos com a camisa amarela da Seleção). Os argentinos não tinham ânimo para responder. Um revés que eles não esperavam, até porque só no Maracanã haviam enfrentado oposição da torcida brasileira.

Em determinado momento, um argentino pergunta o que diz a letra, pois ele não entendia. Ao descobrir o conteúdo, ele sorri como um jogador de pôquer que reconhece o valor do adversário que ganha a mão por não cair em seu blefe e diz: “É, essa música é muito boa”.

No geral, as animosidades entre brasileiros e argentinos se dá mais no grito. Mas há focos de brigas, em geral por motivos fúteis. Há duas na minha frente. Em uma, um brasileiro reclama que um argentino fica em pé muito tempo durante o jogo. Eles discutem e trocam empurrões, mas para por aí. Na outra, logo após o fim do jogo, um argentino acaba batendo sem querer em um senhor brasileiro enquanto comemora a vitória de sua seleção. Os dois discutem um pouco e a coisa parece que não vai sair disso, mas outro brasileiro se mete e dá um soco na cara do argentino. A atitude foi tão desproporcional que todo mundo separou os dois imediatamente.

A vantagem no gogó e o resultado em campo dão confiança aos brasileiros, que gritam “Olé” quando a Suíça troca passes. Os argentinos respondem em momentos pontuais, como no começo da prorrogação. Mas o temor da eliminação é tamanho que dá para senti-lo no ar, é quase palpável, e tira o poder de reação. Em determinado momento, os argentinos tentam o “Vamos vamos, Argentina”, mas são silenciados rapidamente por vaias.

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O Cone Sul parece monopolizar o jogo, mas a Suíça também está em campo. Os brasileiros cantam “Suíça, Suíça” quando os vermelhos fazem alguma boa jogada. A pequena torcida helvética canta músicas típicas de torcidas europeias e gritam “Schweiz” (nome do país em alemão), mas na prorrogação já resolvem entrar na onda brasileira e eles também passam a gritar “Suíça”, em português. Não dá para condená-los por buscar agradar os aliados nessa disputa.

No final, o gol tardio e salvador da Argentina dá novo ânimo aos alvicelestes. Eles voltam a cantar forte, sempre apostando no “Brasil, decime que se siente”. Esse duelo continua no caminho para a estação Itaquera. Os cantos argentinos são fortes e tomam conta da estação. Até que os brasileiros retrucam com o “Mil gols”. As duas torcidas cantam alto suas músicas, uma disputa de gogó.

É uma partida sensacional para quem presenciava. Um dos grandes clássicos da Copa 2014. Até que os brasileiros resolveram acabar com a brincadeira. Um grupo fica animando os torcedores de todos os países na entrada do Shopping Itaquera (anexo à estação de metrô e trem) antes dos jogos. Eles contam com bateria, e resolveram participar da disputa de torcedores. Sem saber o que está rolando, chegam com o “Sou brasileiro / Com muito orgulho / Com muito amor”, mas logo percebem que estão ido pelo caminho errado. Aprendem o “Mil gols” e, com instrumentos musicais aumentando o barulho, silenciam os argentinos.

No duelo da terça, a vitória foi brasileira. Os argentinos entraram quietos no metrô, mas voltaram à carga assim que chegaram ao centro de São Paulo. Talvez já estejam preparando o gogó para o novo encontro. E vão precisar. Os brasileiros já estão mais preparados que no começo da Copa.

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