Texto publicado originalmente em 6 de dezembro de 2013

Perseguições políticas são detestáveis. Perseguições políticas por questões raciais são inomináveis. E quando um perseguido por tais razões se vira aos seus algozes com um tom sereno e pacífico, sem rancor, sem desejo de revanche, ele apenas aumenta a sua superioridade e revela quão pequena é a alma de quem o tentou subjugar. Basicamente por isso, o mundo inteiro lamentou a perda de Nelson Mandela, nesta quinta, aos 95 anos de idade.

Já se sabe como o esporte ajudou na vontade de Mandela em reconciliar brancos e negros na África do Sul, após o apartheid e sua eleição como presidente do país, em 1994. Um dos momentos em que isso se viu foi no título mundial de rúgbi, em 1995, cuja história é contada pelo livro “Conquistando o inimigo”, de John Carlin – que inspirou, por sua vez, o filme “Invictus”, de Clint Eastwood. O outro, como a Trivela contou aqui, foi na Copa Africana de Nações de 1996, vencida pelos Bafana Bafana.

Lógico, vários esportistas juntaram-se no lamento mundial pela morte de Mandela. O que pouco se soube, e pouco se falou nesta quinta-feira, foi como um grande jogador de futebol ostentou abertamente posições a favor de Nelson Mandela quando ele ainda lutava pela liberdade, em meio ao apartheid. Curiosamente, um jogador de um país diretamente responsável pela situação que o líder sul-africano viveu entre 1963 e 1990: a Holanda, país que originou aqueles que ficaram conhecidos como “bôeres” – e que, junto da Inglaterra, colonizou o país e iniciou a política de segregacionismo.

No final da década de 1980, poucos personagens significavam tanto no futebol mundial quanto Ruud Gullit. E o craque das trancinhas rastafári nunca escondeu seu apoio a Madiba. Já durante a parte “holandesa” de sua carreira, em Feyenoord e PSV, Gullit sempre doava dinheiro a entidades que encampavam a luta anti-apartheid. Esse apoio financeiro e público tornou-se ainda mais forte quando Gullit foi para o Milan, no meio de 1987.

As ótimas atuações do meio-campista, tanto como rossonero quanto como jogador do PSV, renderam-lhe a Bola de Ouro da revista “France Football”, como melhor jogador europeu de 1987. E aí se deu o momento de maior demonstração pública do apoio de Gullit: ele pediu à revista para fazer, enquanto recebia o prêmio, um discurso de desagravo e apoio a Mandela, então ainda detido nas masmorras de Robben Island, na Cidade do Cabo.

A revista proibiu Gullit de fazer o discurso. Sem problemas: quando recebeu a Bola de Ouro, o holandês dedicou-a a Mandela, da mesma maneira, durante os agradecimentos. E entregou uma cópia do discurso que pretendia fazer a cada um dos presentes na cerimônia de premiação. Na volta à Itália, Gullit recebeu várias perguntas: “Nelson quem?”. E explicava, pacientemente, seu apoio e veneração ao sul-africano.

A participação de Gullit na luta anti-apartheid seguiu pela cultura: em 1988, ele participou da canção “South Africa”, da banda de reggae Revelation Time. Montado num respaldo futebolístico imenso pela conquista da Euro 1988, Gullit recebeu mais um “prêmio”. A canção alcançou o terceiro lugar nas paradas holandesas.

O tempo passou. Mandela foi libertado, ganhou o Prêmio Nobel da Paz pela transição que encerrou o apartheid (feita junto ao seu antecessor na presidência da África do Sul, Frederik Willem de Klerk), virou presidente da nação que mudara. Gullit viveu seu auge no Milan, foi protagonista na seleção holandesa por mais um tempo, jogou na Sampdoria, teve destaque no Chelsea.

Mas pouco disso significou para ele, após um encontro com Mandela, em 1994. O líder sul-africano, livre, enfim pôde desabafar: “Agora, tenho muitos amigos. Mas poucos fariam o que você fez por mim quando eu estava na prisão. Você foi um dos poucos amigos que tive quando estava lá”. E Gullit ofereceu sua Bola de Ouro à inspiração de toda uma vida.

Sempre que se encontravam, Gullit e Mandela trocavam afetos. Isso se tornou algo institucional em 1997, quando Holanda e África do Sul fizeram um amistoso em Joanesburgo. O já ex-jogador visitou a África do Sul e recebeu a Ordem da Boa Esperança, principal honraria do governo sul-africano. Ou então, em 2006, quando Ruud teve um programa de entrevistas que incluiu Mandela entre as personalidades com que falou.

Em 2007, quando comentou sobre a entrevista, Gullit revelou: “Há quatro meses, eu visitei Robben Island, e encontrei três caras que foram companheiros de cela de Mandela. Eles lembraram da minha dedicatória do prêmio a ele, em 1987, e disseram não acreditar no que eu tinha feito, tinham certeza de que as autoridades cancelariam o prêmio”.

Finalmente, por meio de sua conta no Twitter, Gullit lamentou singelamente a morte daquele a quem apoiou em horas difíceis: “É uma grande perda de um grande homem. Sinto-me muito orgulhoso por ter tido momentos contigo. Muito obrigado, Madiba, por estar conosco e nos ensinar a amar e a respeitar o próximo. E por nos abençoar com sua sabedoria e amor”. Um belo fim de uma história simpática, em que um jogador de fama mundial usou o prestígio de sua melhor fase para apoiar uma causa das mais justas – e um homem dos mais nobres que o planeta já viu.