Texto publicado originalmente em 1° de dezembro de 2016

É difícil traduzir em palavras tudo o que aconteceu em Medellín na noite desta quarta-feira. Por mais que estas linhas relatem os fatos carregadas de adjetivos, nunca elas irão conseguir atingir o nível dos sentimentos sobre o que se viveu no Estádio Atanásio Girardot. A atmosfera era de condolências, de respeito, de luto. Mas o afeto demonstrado pelos colombianos foi de uma singeleza singular. Altíssimas doses de empatia, de solidariedade, de compaixão. Sobretudo, de caráter humano. Aquilo que nos enche de esperanças, mesmo poucas horas depois do convívio com a face mais dura e cruel da vida. O Atlético Nacional e sua gente foram capazes disso. De um abraço espiritual enorme, em Chapecó e no Brasil, que dispersou a fraternidade pelo resto do planeta. Depois de um ontem tão amargo, o hoje reservou um dos maiores dias da história da humanidade. E que oferece a fé de amanhãs sempre melhores.

Difícil destacar apenas alguns instantes do que se viu em Medellín. Porque o profundo desejo é detalhar cada fração de segundo em que a nobreza de coração dos paisas prevaleceu. O estádio começou a se encher muito antes do horário marcado pelo Atlético Nacional, referente ao momento em que o pontapé inicial da Copa Sul-Americana seria dado. Aos poucos, as arquibancadas ganhavam o branco das roupas daqueles que resolveram entregar um pouco de seu amor. Faixas se estendiam com palavras fortes de apoio. “Uma nova família nasce”, era uma das mais sintetizadoras daquilo que se passava. Afinal, ao mesmo tempo, Chapecó também vivia seu tributo. Criou-se um portal cósmico entre a Arena Condá e o Atanásio Girardot. Para sempre. Uma só energia que transforma 4,5 mil quilômetros em nada.

Os 45 mil lugares disponíveis nas arquibancadas eram pouco. Do lado de fora, a vontade de estender a mão levou o dobro disso aos arredores do estádio. A estimativa é de que cerca de 100 mil pessoas apoiassem a corrente também do lado de fora. Prova da generosidade da população de Medellín. Sinal indiscutível da paz que se deseja em uma cidade que possui o seu passado de violência, mas que nem por isso deve ser associada a tantos estereótipos negativos que costuma carregar. Medellín, Antioquia e Colômbia escancaram sua mais profunda identidade nesta quarta: a de um povo extremamente bondoso. A melhor definição, aliás, veio do próprio prefeito, o homem que a todo momento ofereceu apoio ao resgate e às vítimas: “O pior que pode acontecer a uma sociedade é ser indiferente à dor. E nós não somos”.

Tudo contribuía para o momento extremamente tocante. Era impossível ficar incólume. Impossível impedir que os olhos se enchessem de água. Os gritos de ‘Vamo vamo Chapê’. As velas e os celulares que iluminavam a vigília. As pombas que ganharam os ares. O silêncio respeitado durante a marcha fúnebre. As crianças com as camisas dos clubes. As flores arremessadas em campo. Os balões que ganharam os céus, representando cada uma das vítimas.

Foi daquelas noites em que os discursos realmente importam. Queremos ouvir as palavras de cada autoridade, mesmo aquelas que não representam tanto para nós. Elas nos ajudam a assimilar a realidade. Elas nos oferecem conforto. Elas nos emprestam óculos, para conseguir enxergar um pouco de doçura em meio a tanta dor. Cada palavra valia muito. Porque preenchem o vazio que insiste no peito.

Entre todos os que falaram, o técnico Reinaldo Rueda tocou de uma maneira especial. O campeão da Libertadores fez uma ode ao futebol brasileiro. Lembrou como os nossos grandes jogadores ajudaram vários cantos do mundo a se apaixonar mais pela bola, inclusive os colombianos. Uma adoração que agora se retribui pelo consolo. Para uma comunhão de toda a comunidade de futebol em busca de alento. A ode, no entanto, se dirigia mesmo aos jogadores da Chape. Um a um, Rueda citou o nome dos atletas falecidos. E reafirmou como cada um deles faz parte de um panteão eterno.

“Neste momento em que o aplauso precisa chegar até o céu”. A frase, das últimas ditas na noite em Medellín, apontava para o desejo geral. Que os falecidos, da forma que fosse, também pudessem receber toda aquela energia. E ela se dispersou muito além das arquibancadas. Fim de jogo no Atanásio Girardot. Ao apito final, venceram o Atlético Nacional e a Chapecoense. Mas também o Brasil e a Colômbia. O futebol e a humanidade.

Se o Atlético Nacional ofereceu a taça da Copa Sul-Americana e tamanho tributo à Chapecoense, eles merecem em retribuição o título do Campeonato Mundial de Seres Humanos. Não são só os dois clubes que se tornam irmãos a partir de agora, mas os laços de fraternidade de brasileiros e colombianos que se fortalecem muito mais. O próprio caráter identitário sul-americano. E o que transborda é a gratidão a um povo que, mesmo lidando com a tragédia e resgatando os corpos, também conseguiu afagar nossos corações desta maneira, em intervalo tão curto. Todos somos verdolagas a partir desta noite de tanta emoção.