Pouco depois que o árbitro José de Assis Aragão apitou o início do jogo, eis que o animal surge em campo. Um urubu apareceu bem no gramado do Maracanã, rondando a área defendida por Taffarel e levando a galera ao delírio. Sabe-se lá como, um torcedor conseguiu entrar com a ave nas arquibancadas e resolveu soltá-la em “sinal de sorte”, antes da partida decisiva contra o Internacional. Pois um homem seria o responsável por tirar o mascote do gramado: Renato Gaúcho. O camisa 7, apesar de toda a sua vaidade, não teve problemas em agarrar o bicho pelos pés e jogá-lo atrás do gol, arrancando ainda mais gritos da multidão. Coincidência ou não, o Flamengo marcaria o tento do título pouco depois, aos 16 minutos. Andrade deu uma enfiada primorosa para Bebeto concluir. Os rubro-negros derrotavam os colorados por 1 a 0. Há exatos 30 anos, comemoravam a conquista da Copa União.

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Desta vez, vamos deixar um pouco de lado a disputa jurídica que envolveu aquela competição – e que continua discutida à exaustão, mesmo três décadas depois. Vamos falar de futebol. E o Flamengo teve grandes motivos para celebrar aquela conquista. Cresceu ao longo da competição, com grandes atuações principalmente na reta final. Derrubou o embalado Atlético Mineiro de Telê Santana, antes de se proclamar campeão em cima do Inter de Ênio Andrade. Um Fla de Carlinhos, o eterno Violino, treinador tão importante para se entender o espírito rubro-negro. Um time que não era exatamente o mais cotado à taça, mas se encontrou ao longo da campanha.

Vários jovens talentos eclodiram durante aquele campeonato, com menção especial a Bebeto, Zinho, Leonardo e Jorginho. Outros veteranos voltaram a desfrutar a glória, a exemplo de Leandro, Andrade e Edinho. Havia Zico, novamente vestindo a camisa rubro-negra, se esforçando para recuperar o topo e deixar para trás os traumas das seguidas lesões. E, estrelando o ataque, a grande aposta da diretoria naquele ano. Renato Portaluppi era ídolo absoluto no Grêmio, mas já não encontrava muita paz em Porto Alegre. Mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de um novo rumo, de tranquilidade para seguir em frente. Encontrou uma cidade para chamar de sua, uma torcida para adorá-lo, um time para oferecer o seu talento. Virou Renato Gaúcho, ganhador da Bola de Ouro da Placar como melhor jogador da Copa União de 1987.

A passagem de Renato pela Gávea não começou tão bem. Teve problemas de lesão e não engrenou nas primeiras partidas. Foi preciso um bocado de paciência. No entanto, a vontade do atacante triunfar também pesou. Acabou se tornando uma das lideranças do elenco, aos 25 anos, elo entre os mais jovens e os medalhões que tanto entendiam da camisa rubro-negra. E assim que a Copa União começou, passou a gastar a bola. O camisa 7 oferecia o seu melhor ao time de Carlinhos: era um ponta fulminante, de muita potência física, que dava trabalho aos defensores em suas arrancadas. Mas combinava essa intensidade à qualidade técnica de quem também possuía o drible entre suas armas, assim como a capacidade de marcar gols.

“Não sei o que me deu. Pensava que era o dono do mundo”, afirmou, em entrevista à Placar de 26 de outubro de 1987, fazendo uma autocrítica sobre os últimos meses conturbados no Grêmio – mais por motivos extracampo do que exatamente por falta de rendimento. Segundo a mesma reportagem, Renato estava se empenhando nos treinamentos exaustivamente e chegou a reunir o elenco do Fla para firmar um pacto, exigindo espírito de luta para conquistar o segundo turno da Copa União. Ele mesmo seria um dos principais responsável por conduzir esta raça, tão pedida pela torcida rubro-negra.

“Eu me sinto como um prisioneiro que ganhou a liberdade e recomeçou a viver. No Sul, eu podia estar em plena forma, fazendo grandes partidas e decidindo jogos, mas ninguém queria saber. Se me viam numa boate, mesmo nos dias de folga, me criticavam e eu acabava me sentindo culpado de um erro que tinha consciência de não estar cometendo. Aqui, tem sido diferente: treino, jogo e saio, sem ter que dar satisfações a ninguém. Naturalmente, nunca sai às vésperas de jogos, nem no Rio e nem em Porto Alegre”, diria ainda Renato ao Jornal do Brasil de 15 de dezembro de 1987.

O Flamengo fez uma campanha fraca na primeira metade da Copa União. Conquistou apenas duas vitórias, embora Renato brilhasse – decisivo inclusive nos dois triunfos, fazendo as jogadas para que o time batesse Vasco e Coritiba. No segundo turno, porém, o tal pacto realmente funcionou. Os rubro-negros ganharam força e venceram jogos importantes. O camisa 7 chamava a responsabilidade, desequilibrando contra alguns dos principais rivais. Brilhou contra o Botafogo, anotou um belo gol contra o Palmeiras, preparou a jogada para o empate contra o Corinthians. Já na última partida da fase de classificação, embora não tenha ido tão bem contra o Santa Cruz, foi ele quem sofreu a falta para Zico anotar o célebre gol no ângulo de Birigui. O tento que selou a passagem às semifinais.

“A gente via o sofrimento do Zico. Era o seu Zico, meu ídolo. Eu chego a ficar arrepiado. A gente via o sofrimento durante a semana e aí chega o dia do jogo, como é que eu não ia correr por ele? Como nós todos não íamos correr por ele? Ele foi fundamental, foi o símbolo daquele título”, relembrou, em entrevista à Globo em 2009. “Esse ano de 1987, pra mim, foi perfeito em todos os sentidos. Meu primeiro ano no Flamengo; jogar do lado do meu grande ídolo, que sempre foi e sempre vai ser o Zico; conquistar o Brasileiro; e ganhar a Bola de Ouro. Como jogador, não preciso de mais nada”.

A grande partida de Renato Gaúcho aconteceu justamente na semifinal, contra o Atlético Mineiro, dono da melhor campanha na fase de classificação. Na ida, Bebeto garantiu a vitória por 1 a 0 no Maracanã. Já a noite do camisa 7 viria no reencontro decisivo, no Mineirão. Renato brigava muito e infernizava a defesa do Galo com suas arrancadas. No primeiro tempo, fez a jogada para o segundo gol do Fla, cruzando para Bebeto fuzilar. Apesar dos dois tentos de vantagem, os rubro-negros permitiram o empate dos anfitriões. No segundo tempo, os flamenguistas contavam com os contra-ataques. E foi assim que o craque definiu a vitória por 3 a 2, partindo do círculo central. Deixou Batista e João Leite no chão, antes de escorar para as redes vazias. Um dos gols mais expressivos de sua carreira, com um quê de vingança pessoal, por toda a disputa com Telê Santana na Copa de 1986. Na eleição da Bola de Prata, a revista Placar atribuiu nota 10 ao atacante por aquela sua exibição de gala.

Por fim, na decisão contra o Internacional, se não balançou as redes, Renato ainda ofereceu grande contribuição. O empate por 1 a 1 no Beira-Rio nasceu em uma jogada sua. Partiu para cima da defesa e, na linha de fundo, cruzou para Bebeto completar. Já na volta, além de tirar o urubu de campo, puxou a marcação colorada e foi uma preocupação constante. A jogada do gol nasceu justamente em uma bola roubada por Renato na lateral, enquanto ele teve duas oportunidades para marcar e não alcançou a redonda por centímetros. Quando o apito final soou, pôde ir à forra, justamente contra os maiores rivais do seu Grêmio.

“Este título, inédito na minha carreira, é dedicado a essa torcida maravilhosa que sempre me tratou com carinho, mesmo nos piores momentos. Estou duplamente realizado. Não só pelo título, mas, sobretudo, por ele ter sido conquistado justamente em cima do Internacional. Os gaúchos que me perdoem, do Inter eu ganho sempre”, afirmou, em meio aos festejos, ao Jornal dos Sports.

A comemoração no dia seguinte seria da maneira como Renato mais gostava: em seu habitat, na praia. Jogando futevôlei, comendo churrasco, tomando sua cerveja e dando alguns mergulhos no mar. Longe de imaginar toda a confusão que discutiria a legitimidade de sua conquista, e que se arrasta há 30 anos. O ídolo rubro-negro permaneceu na Gávea até 1988, antes de sua frustrada passagem pela Roma. Voltaria a defender o Fla em outras três passagens. Mas nada que se compare às doces lembranças que deixou pelas atuações vorazes na Copa União. A gratidão dos torcedores permanece.

* O Sport também será tema de texto no site, em fevereiro, quando se completarem 30 anos da vitória sobre o Guarani. Daremos ênfase também às questões esportivas. A Trivela considera os argumentos de ambos os clubes para se afirmarem como campeões brasileiros em 1987.