Barcelona e Chelsea já protagonizaram algumas batalhas memoráveis na Liga dos Campeões. As semifinais de 2009 e de 2012 certamente estão entre os melhores momentos da história de cada clube, respectivamente. Como se esquecer do golaço de Andrés Iniesta, que abriu o caminho à consagração do time de Pep Guardiola, em meio a confronto cercado de polêmicas? Ou do contra-ataque fulminante de Fernando Torres, que valeu todo o esforço dos Blues rumo ao seu primeiro título no torneio? Em nível de equilíbrio, porém, os melhores embates aconteceram ainda nas oitavas de final, em 2004/05 e 2005/06. Eram duas equipes recheadíssimas de craques, dominantes em suas ligas nacionais. E aqueles duelos acabaram marcando também a magia de Ronaldinho Gaúcho em sua apoteose.

No primeiro daqueles confrontos, em 2004/05, tanto Barcelona quanto Chelsea vinham em momentos de afirmação. Os Blues viviam sua primeira temporada sob as ordens de José Mourinho, buscando a grande taça que referendasse o investimento feito por Roman Abramovich. Enquanto isso, os blaugranas desfrutavam dos primeiros meses sob as ordens de Frank Rijkaard, que havia conseguido uma grande arrancada na temporada de estreia, mas precisava de um título que garantisse a estabilidade ao seu trabalho.

De um lado e de outro, dois esquadrões. O Chelsea contava com a espinha dorsal daquela escalação que quase todo mundo se lembra de cor, com Petr Cech, Ricardo Carvalho, John Terry, Claude Makélélé, Frank Lampard, Joe Cole, Damien Duff e Didier Drogba. Já o Barcelona se moldava para tomar a Europa de assalto, com Carles Puyol, Xavi, Deco, Iniesta, Samuel Eto’o, Ludovic Giuly. E principalmente Ronaldinho.

O desempenho na fase de grupos, de qualquer maneira, deixava o Chelsea um passo à frente. Os Blues lideraram a chave que tinha o então campeão Porto, enquanto o Barça não conseguiu competir com o poderoso Milan de Carlo Ancelotti, ficando três pontos atrás. Assim, os ingleses teriam o direito de disputar a partida de volta em Stamford Bridge. Algo que faria toda a diferença no embate.

Na ida, realizada dentro do Camp Nou, o Barcelona deu um passo à frente. Ronaldinho e Eto’o começaram infernizando a defesa do Chelsea, mas a pontaria não estava tão afiada nas conclusões. E apesar do bombardeio catalão, os ingleses terminaram o primeiro tempo em vantagem, com um gol contra de Belletti, ao tentar cortar cruzamento de Duff. As esperanças do Barça se reavivaram na segunda etapa, quando Drogba recebeu o segundo amarelo, após uma disputa de bola dura com Victor Valdés. Mourinho, após a partida acusaria Rijkaard de visitar o árbitro Anders Frisk nos vestiários. Já o sueco anunciaria sua aposentadoria dias depois, intimidado justamente pelas ameaças de morte endereçadas à sua família após o confronto.

Dentro de campo, entretanto, o cenário foi bem menos tenebroso. A virada dos anfitriões dependeu de um personagem inusitado. Então uma aposta blaugrana, Maxi López saiu do banco no lugar de Giuly e resolveu. O argentino empatou aos 22, após receber de Eto’o, soltando um tiro cruzado feroz. E retribuiria o presente seis minutos depois, em belíssimo passe para que o camaronês escorasse. Ao final, a vitória por 2 a 1 acabou magra ao Barcelona, por aquilo que o time criou. Seguiu martelando contra a meta de Petr Cech, mas não ampliou a diferença – muito graças a John Terry, que salvou um chute de Deco heroicamente com a cabeça. Os tentos desperdiçados fariam falta no reencontro realizado duas semanas depois, em Londres.

Drogba seria um desfalque em Stamford Bridge, mas não faria falta. Eidur Gudjohnsen e Mateja Kezman deram conta na linha de frente. Não à toa, a dupla funcionou para abrir o placar em contra-ataque aos oito minutos. O sérvio arrancou e passou ao islandês, cortando a marcação de Belletti antes de fuzilar. Aos 17, o Chelsea já tinha o que precisava. Pressionando no ataque, os Blues anotaram o segundo a partir de um rebote de Valdés, que Lampard aproveitou na pequena área. E aos 19, o esboço de uma goleada que parecia inimaginável. Em mais um contragolpe, Joe Cole lançou Duff e o irlandês disparou em meio ao rombo na zaga, apenas tirando do alcance do goleiro para anotar o terceiro.

Não seria tão fácil assim conseguir a classificação. Ainda mais quando Ronaldinho está do outro lado. Antes do intervalo, o herói da camisa 10 faria a diferença. O Chelsea recuou e permitiu que o Barcelona crescesse na partida. Eto’o só não diminuiu porque Cech operou um milagre. Mas aos 27, o goleiro não teria o que fazer, em pênalti infantil cometido por Paulo Ferreira. Na cobrança, R10 mandou no cantinho do goleiro, que até acertou o lado, mas não achou nada. Já a imagem impregnada na memória aconteceu aos 38. O gênio anotou um dos gols mais bonitos da carreira.

Ronaldinho recebeu a bola de Iniesta na meia-lua. Estava marcado por Ricardo Carvalho e Lampard se aproximava por trás. Para ludibriar o zagueiro, o craque deu uma sambadinha com a bola dominada. E quando o lusitano fez um movimento em falso, abrindo a brecha ao ser confundido pelo remelexo boleiro do mágico, R10 não demorou a apertar o gatilho. Desferiu um chute perfeito, na lateral da rede. A bola passou por entre outros dois defensores do Chelsea e Petr Cech, sem reação, apenas a viu entrando. “Tem muito do futsal nesse gol. Foi uma solução que encontrei. Não planejei”, afirmou a lenda, anos depois, à FourFourTwo. Naquele momento, a classificação era do Barça.

A reação dos catalães deixou a partida bem mais aberta para os minutos finais. O Chelsea acertou uma bola na trave antes do intervalo. Já no segundo tempo, embora os Blues ameaçassem de maneira mais constante no ataque, quem realmente fez a diferença foi Cech. O goleiro realizou três defesas fantásticas. Desviou com a ponta dos dedos uma bomba de Belletti e salvou uma cabeçada à queima-roupa de Puyol. Depois, voaria para triscar em chute de Iniesta, que ainda bateu na trave. Com o gol aberto, contou com a sorte, ao ver Eto’o desperdiçar. E os Blues, na base da insistência, anotaram o gol da classificação aos 31. Cobrança de escanteio e Terry cumprimentou no primeiro pau. Com a visão encoberta, Valdés nada pôde fazer. O Barça tentou o gol salvador, que permitisse a classificação, mas a vitória por 4 a 2 consagrou os londrinos.

O Chelsea, de qualquer forma, não teria vida tão longa assim naquela Champions. Eliminou o Bayern de Munique nas quartas de final, até cair diante do Liverpool nas semis. Ambos os rivais se contentaram nos torneios domésticos. Os Blues faturaram a Premier League com uma campanha histórica e o Barça também ficou com a taça em La Liga. A competição continental, entretanto, representava um passo além. E o reencontro aconteceu novamente nas oitavas de final, em 2005/06. Mais amadurecido e com Ronaldinho imparável, o Barcelona fez uma campanha praticamente perfeita na fase de grupos e passou em primeiro. Já o Chelsea acabaria em segundo, superado justamente pelo então campeão Liverpool.

Assim, a primeira partida aconteceu em Stamford Bridge. O Chelsea tinha novas estrelas, incluindo Hernán Crespo e Arjen Robben. Já do outro lado, um tal de Lionel Messi era a principal adição ao time titular do Barcelona. Num gramado maltratado, o Barcelona se mostrava ligeiramente superior, novamente encontrando uma barreira em Petr Cech. Porém, a situação se abriu um bocado logo aos 37 minutos. Messi fazia uma jogadaça pela ponta direita e só foi parado com uma entrada violenta de Asier del Horno. O lateral espanhol recebeu o vermelho direto.

Apesar da desvantagem numérica, o Chelsea voltou melhor ao segundo tempo e capitalizou o momento aos 14, abrindo o placar. Em cobrança de falta de Lampard, Thiago Motta mandou contra as próprias redes. E os londrinos ainda tiveram boas oportunidades para ampliar. Contudo, seria difícil segurar a diferença por tanto tempo. O empate saiu aos 27, em cobrança de falta de Ronaldinho que Terry desviou no meio do caminho e estufou as próprias redes. O zagueiro se redimiu pouco depois, ao travar Henrik Larsson com o gol escancarado na pequena área e ao afastar um chute quase em cima da linha, mas ficaria vendido no lance decisivo. Rafa Márquez cruzou com perfeição e Eto’o fuzilou de cabeça aos 35. Ronaldinho, embora não tenha participado do segundo tento, foi protagonista no triunfo por 2 a 1. Especialmente no massacre dos minutos finais, era ele quem distribuía o jogo com maestria.

O encontro no Camp Nou, por fim, viu Ronaldinho em sua melhor forma. O Barcelona mantinha a posse de bola e ia envolvendo o Chelsea, que precisava desesperadamente do resultado. As combinações do camisa 10 com Lionel Messi eram um incômodo. No entanto, o argentino precisou ser substituído logo nos primeiros minutos, lesionado. Mesmo assim, o que os Blues faziam era pouco para quem necessitava anotar dois gols. Causaram uma ameaça ou outra à meta de Victor Valdés, mas nada tão concreto.

Para o segundo tempo, Mourinho tentou dar novo fôlego ao seu time, com as entradas de Crespo e Gudjohnsen. no ataque. Exceção a uma chance do argentino que tirou tinta da trave, nada tão contundente. A noite era mesmo de Ronaldinho. Perseguido de perto pela dura marcação, o camisa 10 distribuía pedaladas, e toques de calcanhar, e chapéus, e passes magistrais. Faltava um pouco mais de qualidade na conclusão. O que aconteceu aos 33.

A partir de uma combinação entre Larsson e Eto’o, o brasileiro recebeu na intermediária. Tinha cinco marcadores à sua frente, mas encontrou um buraco. Na entrada da área, John Terry tentou dar uma trombada, parando o craque com falta. Mas foi o zagueiro que caiu no chão. R10 resistiu ao choque e viu o caminho livre, batendo no contrapé de Cech. Aos 47, em um pênalti, Lampard até ajudou o Chelsea. O empate por 1 a 1, ainda assim, valia à classificação do Barcelona.

O Chelsea conquistaria o bicampeonato da Premier League. Todavia, mais feliz ao final da temporada seria o Barça, não apenas bicampeão de La Liga, mas também faturando sua primeira Champions em 14 anos. Os embates entre londrinos e catalães voltaram a acontecer na fase de grupos da Champions 2006/07, com a vitória dos Blues em Stamford Bridge e o empate arrancado no finalzinho por Drogba no Camp Nou. Naquele momento, entretanto, os dois esquadrões entravam em declínio. Não conseguiram o tri em suas ligas e ambos foram eliminados pelo Liverpool nos mata-matas da Champions. Os novos capítulos grandiosos ficariam marcados para 2009, 2012 e agora, 2018.