A partida começou, e Garrincha driblou Kuznetsov. Em seguida, driblou Kuznetsov de novo. E de novo, e de novo, e de novo. Garrincha driblou outros defensores soviéticos também, mas naquele dia, driblou especialmente Kuznetsov. E apenas nos primeiros 38 segundos (sim, segundos), driblou Kuznetsov várias vezes. Eventualmente, cansou de driblar Kuznetsov e encheu o pé na trave de Yashin. Dezessete segundos depois, Pelé acertou o travessão. O Brasil ficou em cima da União Soviética até Didi achar o passe para Vavá marcar, aos três minutos. Os maiores três minutos da história do futebol. 

O relato, cujos detalhes foram retirados da biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, foi sobre a terceira rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 1958. Depois disso, ou até antes disso, talvez tenha havido três minutos melhores do que aqueles. Talvez não. Mas, naquela época, o jornalista francês Gabriel Hanot, da France Football, um dos responsáveis pela criação da Copa dos Campeões, classificou aqueles dos brasileiros contra os soviéticos como os maiores da história do futebol.

Precisamos entender um pouco do contexto. O Brasil era a seleção do complexo de Vira-Lata, ainda lambendo as feridas da derrota de 1950 para o Uruguai, enquanto os soviéticos eram os representantes do “futebol científico”, fortes, sobre-humanos, capazes de correr durante 180 minutos sem cansar. Tudo parte da propaganda comunista da época da Guerra Fria, mas, sem Google ou sequer uma linha direta com Moscou, era difícil checar esse tipo de lenda. O importante é que a União Soviética metia medo. 

A estratégia de Vicente Feola para surpreendê-los era Garrincha. A ideia seria dar a primeira bola para o ponta-direita do Botafogo e partir com tudo para cima, de modo a assustar os europeus. Até então, vinha jogando Joel, do Flamengo. Foi a estreia de Garrincha naquela Copa do Mundo. E também a de Pelé, no lugar de José Altafini, e a de Zito na vaga de Dino Sani. E apenas a segunda de Vavá, que foi preterido por Dida, na estreia contra a Áustria (3 a 0). Em seguida, veio um empate por 0 a 0 contra a Inglaterra, e Feola decidiu fazer algumas mudanças para enfrentar os Ivan Dragos do futebol.

A vitória por 2 a 0 sobre a União Soviética foi um marco porque ali começava a ser formada a lista de onze nomes que mudaram a história do futebol brasileiro: Gilmar; Djalma Santos (embora tenha pegado a vaga de De Sordi apenas na final), Bellini, Orlando e Nilton Santos; Didi e Zito; Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo. A escalação do primeiro título de Copa do Mundo da história do único país que a venceu cinco vezes. 

1958: Brasil 2 x 0 União Soviética

Terceira rodada da fase de grupos
Estádio Nya Ullevi, em Gotemburgo (Suécia)
Gols: Vavá, duas vezes (Brasil)

1974: Uruguai 0 x 2 Holanda

Primeira rodada da fase de grupos
Niedersachsenstadion, em Hannover (Alemanha)

Gols: Johnny Rep, duas vezes (HOL)

1986: Bélgica 4 x 3 União Soviética

Oitavas de final
Estádio Camp Nou, em León

Gols: Scifo, Ceulemans, Demol e Claesen (BEL); Belanov, três vezes (URSS)