A Muralha Amarela do Westfalenstadion, há 10 anos, tornou-se branca no peito. Preta, vermelha e amarela nas bandeiras. Dortmund recebeu a Alemanha na tentativa de voltar a uma final de Copa do Mundo em casa após 32 anos. As arquibancadas mais imponentes do país seriam um reforço ao bom time de Jürgen Klinsmann. Do outro lado, porém, havia um velho carrasco. Um adversário destemido. Um esquadrão treinado por Marcello Lippi. A Itália só conquistou o tetracampeonato mundial dias depois, em Berlim, diante da França. Mas, na verdade, demonstrou todas as suas credenciais para levantar a taça naquele 4 de julho, ao aguentar 119 minutos de tensão antes de destruir o Nationalelf nos últimos instantes da prorrogação. Ao provocar o silêncio doloroso na Muralha Alemã.

O nervosismo da partida decisiva esteve evidente durante boa parte do tempo. Os dois grandes times tinham dificuldades para criar oportunidades claras. As defesas prevaleciam, especialmente aquela liderada por Fabio Cannavaro. E, quando sobrava espaço, Lehmann e Buffon permaneciam intransponíveis. Mas a necessidade moldou o jogaço. A partir da etapa complementar, o gol passou a ficar por um triz. Gilardino, naquela que talvez tenha sido a noite mais inspirada de sua carreira, mas também uma das mais azaradas, carimbou a trave duas vezes. Não evitou a prorrogação.

No tempo extra, a Alemanha teve a chance de sair em vantagem. Podolski fuzilou de dentro da área. Parou em uma defesa monumental de Buffon. Então, prevaleceu a paciência italiana. A equipe de Marcello Lippi realmente teve mais inspiração em Dortmund, orquestrada por Pirlo. O maestro cumpriu a sua missão com perfeição, distribuindo o jogo, regendo seu time. E coube a ele entregar a bola a Fabio Grosso, o herói eternizado naquela semifinal. Após a cobrança de escanteio, o lateral esquerdo estava pelo lado direito da área. O lugar certo e o homem certo para um chute de primeira, canhota indefensável, longe de Lehmann e rente à trave. Nem ele mesmo parecia acreditar.

Sob o som abafado no Westfalenstadion, a Alemanha partiu com tudo em busca do último suspiro, do empate. A abertura necessária para um dos contra-ataques mais belos que o futebol já teve. Fabio Cannavaro roubou a bola de Podolski no peito, com a autoridade de um general. Depois, Gilardino teve a frieza de um centroavante e a visão de um armador para passar ao lado. Para deixar o lance limpo a Del Piero, saindo do banco, providenciar o golpe fatal em um chutaço. Lendário.

A Alemanha sentia a derrota. A união de um país em torno da Copa não iria resultar em taça. Mas não havia como se lamentar. Era preciso reconhecer a superioridade da Itália no jogo. E que jogo. Os 120 minutos que melhor representam a grandeza do time tetracampeão mundial.

* Texto publicado originalmente em 4 de julho de 2016

1954: Alemanha Ocidental 3×2 Hungria

Final
Estádio Wankdorf, em Berna
Gols: Rahn [2], Morlock; Puskás, Czibor

1982: França 4×1 Irlanda do Norte

Segunda fase
Vicente Calderón, em Madri
Gols: Giresse [2], Rocheteau [2]; Armstrong

1990: Alemanha Ocidental 1×1 Inglaterra (4×3 nos pênaltis)

Semifinal
Estádio delle Alpi, em Turim
Gols: Brehme; Lineker

1994: Brasil 1×0 Estados Unidos

Oitavas de final
Estádio de Stanford, em Stanford
Gol: Bebeto

1998: Holanda 2×1 Argentina

Quartas de final
Estádio Vélodrome, em Marselha
Gols: Kluivert, Bergkamp; Claudio López

1998: Croácia 3×0 Alemanha

Quartas de final
Estádio de Gerland, em Lyon
Gols: Jarni, Vlaovic, Suker

2006: Itália 2×0 Alemanha

Semifinal
Westfalenstadion, em Dortmund
Gols: Grosso, Del Piero

2014: Brasil 2×1 Colômbia

Quartas de final
Castelão, em Fortaleza
Gols: Thiago Silva, David Luiz; James Rodríguez

2014: Alemanha 1×0 França

Quartas de final
Maracanã
Gol: Hummels