A Copa do Mundo de 1938 refletia o contexto geopolítico turbulento às vésperas da Segunda Guerra Mundial. E o exemplo mais claro disso, obviamente, esteve representado pela Alemanha. O “Anchluss”, como ficou conhecida a anexação da Áustria, aconteceu em março daquele ano. Menos de três meses depois, acabou se desdobrando no Mundial. A seleção austríaca não enfrentou a Suécia nas oitavas de final, como havia sido determinado pelo sorteio. Os jogadores também tinham sido anexados pela nação de Hitler. Nove austríacos passaram a carregar o símbolo nazista no peito durante aquela Copa. Quatro deles haviam feito parte do aclamado Wunderteam, que chegou às semifinais do torneio quatro anos antes. Não estava entre eles, entretanto, Mathias Sindelar, o cérebro do esquadrão que, em abril de 1938, havia arrebentado com os alemães num amistoso para “celebrar a unificação”.

As expectativas eram elevadas para que a Alemanha se afirmasse em campo, ressoando o que se planejava na política. E o time tinha ainda outros talentos locais, como Fritz Szepan, ídolo histórico do Schalke 04. No entanto, o grupo treinado por Sepp Herberger encarava uma missão difícil contra a Suíça. Os vizinhos eram comandados por Karl Rappan, famoso por idealizar o “ferrolho suíço”, e também possuíam seus destaques individuais, em especial André Abegglen, que representava uma linhagem familiar de grandes jogadores. Não à toa, duas semanas antes, os suíços haviam derrotado a Inglaterra por 2 a 1 em Zurique.

A missão de Herberger era difícil. Em 1937, o jovem treinador alemão tinha sido jogado na fogueira. Assistente de Otto Nerz, assumiu quando o seu chefe acabou demitido. Em poucas semanas, precisaria transformar duas seleções bastante diferentes em um só time, dentro de um contexto que não era dos mais afáveis. Suas noites sem dormir desembocaram em 4 de julho, quando 27 mil pessoas encheram o Parc des Princes para assistir àquela que se tornou a abertura da Copa do Mundo, válida pelas oitavas de final.

Sob um calor escaldante, Alemanha e Suíça não passaram de um empate. Josef Gauchel abriu o placar aos 29 minutos, mas Abegglen empatou antes do intervalo, em 1 a 1 que se arrastou até o final da prorrogação. Quatro dias depois, as equipes voltariam a campo em Paris para o duelo de desempate. Os suíços, sem responsabilidade nenhuma, aproveitando os lazeres da estadia na França durante este intervalo. Os alemães, precisando lidar com a pressão do regime, com o principal jornal nazista publicando a manchete: “Sessenta milhões jogarão em Paris”. A teoria de superioridade, todavia, cairia por terra.

Herberger veio com seis mudanças no time e, com 22 minutos, a Alemanha vencia por dois gols de vantagem. Walaschek diminuiu antes do intervalo, mas a Suíça precisou resistir por 20 minutos com um jogador a menos, quando um de seus homens recebia atendimento médico. No segundo tempo, contudo, a história seria outra. O implacável Alfred Bickel empatou. Já a virada saiu com Abegglen, anotando dois tentos em três minutos. Com a vitória por 4 a 2, os suíços despacharam os alemães de volta ao Reich. Nas manchetes dos vencedores, a provocação era clara: “Sessenta milhões de alemães jogando contra nós, mas 11 suíços foram suficientes”. A mera vitória nas oitavas de final já rendeu uma comemoração tremenda pelas ruas da Suíça, mesmo que acabassem caindo na fase seguinte, ante a Hungria. Existem resultados cuja a importância não se mede pela fase, e nas Copas do Mundo isso se torna ainda mais latente. Os suíços sabem bem.

1938: Suíça 1×1 Alemanha

Oitavas de final
Parc des Princes, em Paris (FRA)
Gols: Abegglen (SUI), Gauchel (ALE)

1986: Alemanha Ocidental 1×1 Uruguai

Primeira rodada da fase de grupos
Estádio La Corregidora, Querétaro (MEX)
Gols: Alzmendi (URU), Allofs (ALE)

2002: Japão x Bélgica

Primeira rodada da fase de grupos
Estádio de Saitama, em Saitama (JAP)
Gols: Suzuki, Inamoto (JAP), Wilmots, Van der Heyden (BEL)