Texto publicado originalmente em 28 de janeiro de 2015

Quatro gols em finais de Copa do Mundo, feito inédito. Primeiro jogador na história a ser eleito por quatro vezes o Melhor do Mundo na premiação da Fifa. Dois títulos mundiais protagonizados por ele, que fez a França igualar Argentina e Uruguai em número de conquistas e, além disso, deixou os Bleus a apenas uma taça de chegar ao nível de Itália e Alemanha. Diante de tamanho brilho nos Mundiais, a discussão interminável não é mais sobre o melhor da história, Pelé ou Maradona. A dúvida é: Zinedine Zidane forma uma santíssima trindade com o Rei e El Dios?

Você deve ter percebido que as últimas linhas são apenas fruto da imaginação. Sem dúvidas, Zidane foi um dos melhores jogadores da história. No entanto, se o craque francês tivesse faturado a Copa de 2006, sua lenda seria ainda mais irrefutável. O camisa 10 que jogava de smoking, tal a elegância no trato com a bola, se aposentaria no topo do mundo. Bicampeão do torneio mais importante do futebol, com atuações monstruosas. Não aconteceu. Por culpa de uma cabeçada, e não aquela que acertou em cheio o peito de Marco Materazzi. Mas outra, desferida aos 13 minutos do primeiro tempo da prorrogação, exatamente cinco minutos antes do ato de fúria. As pontas dos dedos de Buffon mudaram o curso da história.

Diante dos rumos da decisão em Berlim, aquele lance acabou sendo esquecido por muita gente. A expulsão de Zidane é apontada como fatal à França, da mesma forma como maculou o desempenho impecável do camisa 10 até então. O fato é que, se a cabeçada de Zizou estufasse as redes, como acontecera duas vezes oito anos antes, tudo seria diferente. O passado que conhecemos não seria o futuro do gênio. O tal efeito borboleta. Pode até ser que a Itália conseguisse empatar o jogo por 2 a 2, ganhasse também nos pênaltis. Mas, daquele momento em diante, o jogo estaria nas mãos da França. Nos pés de Zidane.

Por mais que seja uma defesa espetacular, Buffon fez outras mais difíceis ao longo de sua carreira – eu, particularmente, me espanto a cada vez que vejo uma contra o Paraguai, em amistoso de 1998. Nenhuma delas, porém, foi tão importante quanto a de Berlim, uma das mais importantes da história do futebol. Afinal, poucas decidiram uma final de Copa, como aquela. O goleiro não espalmou apenas a cabeçada, mas também a desvantagem que seria difícil de reverter nos 17 minutos restantes. Ele espalmou a taça dos braços de Zidane. Ressaltou o excelente Mundial que fez sob as traves.

As virtudes de Buffon são inúmeras. Todas resumidas naquele lance. Quando Zidane recebeu a bola na intermediária, o goleiro já estava atento no que o meia fazia. A concentração essencial, que seus companheiros de Azzurra não tiveram. Enquanto os quatro defensores se preocupavam com Malouda e Trezeguet na área, os quatro meio-campistas cercavam Zizou, mas se desligaram depois do passe a Sagnol. Sem ser acompanhado por Pirlo, Zidane passou nas costas de Gattuso e estava sozinho, na marca do pênalti, para dar o golpe. Buffon, no lugar exato para salvar. Graças a seu senso de posicionamento perfeito, o camisa 1 nunca precisou de defesas espalhafatosas para ser espetacular. No segundo em que a testa do camisa 10 tocava a bola, o goleiro aterrissava um passo à sua direita. Para voar. A elasticidade e o tempo de reação o permitiram desviar a bola sobre o travessão.

As atitudes de Buffon e Zidane após o lance são emblemáticas. Por centímetros, o francês urrava de frustração. Por segundos, o italiano vibrava de alívio. Aquela bola dourada também poderia fazer a Bola de Ouro tocar as luvas do italiano. O prêmio acabou ficando em boas mãos, mas o segundo colocado na ocasião tinha seus méritos. A Azzurra era tetra muito por conta dele. Que, em um lance, mostrou porque é não apenas o maior goleiro da história da Itália (com a bênção de Dino Zoff), mas um dos melhores de todos os tempos.

1994: Brasil 3×2 Holanda

Quartas de final
Cotton Bowl, em Dallas
Gols: Romário, Bebeto, Branco; Bergkamp, Winter

1994: Itália 2×1 Espanha

Quartas de final
Estádio Foxboro, em Foxborough
Gols: Dino Baggio, Roberto Baggio; Caminero

2006: Itália 1×1 França (5 a 3 nos pênaltis)

Final
Estádio Olímpico, em Berlim
Gols: Materazzi; Zidane

2014: Argentina 0x0 Holanda (4 a 2 nos pênaltis)

Semifinal
Arena Corinthians, em São Paulo