Kim Jong-Un faz ameaças. Donald Trump retruca. O norte-coreano lança mísseis balísticos sobre território japonês. Os Estados Unidos prometem dureza em um eventual confronto, enquanto que o Havaí leva um susto de alarme falso de bomba e Coreia do Sul e Japão ficam alertas para o recrudescimento das relações. Com esse clima geopolítico, o planeta não pôde deixar de sorrir ao ver que, nesta sexta, as duas Coreias entraram no estádio Olímpico de PyeongChang sob uma mesma bandeira durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno.

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Não foi a primeira Olimpíada em que Coreia do Norte e do Sul desfilaram em conjunto, mas, dessa vez, elas se unirão também nas competições. No caso, no torneio feminino de hóquei no gelo. É um marco, ainda mais pelo momento político, mas também não é um acontecimento inédito. Ele já ocorreu em outras modalidades, inclusive no futebol. E o desempenho da Coreia unificada foi bem digno.

Em 1988, a Península Coreana recebeu sua primeira grande competição esportiva, os Jogos Olímpicos de Seul. O mundo ainda vivia uma Guerra Fria que motivou dois megaboicotes olímpicos, de Estados Unidos e aliados em Moscou-1980 e de União Soviética e aliados em Los Angeles-1984. A edição de 1988 foi o retorno de uma competição aberta, mas a Coreia do Norte pediu para sediar alguns eventos e, ao receber uma resposta negativa, decidiu não enviar atletas (Cuba fez o mesmo em solidariedade).

Curiosamente, naquele momento se iniciou uma aproximação entre os países no âmbito esportivo. Os dois comitês olímpicos negociaram a participação conjunta nos Jogos Asiáticos de 1990, realizados em Pequim (China). Não se chegou a um acordo definitivo, mas os dois lados conseguiram avançar em várias questões, como o design da bandeira (branca com o mapa dos dois países em azul no meio), critério de seleção de atletas e divisão de gastos.

Já havia a base para uma eventual participação conjunta. Uma oportunidade surgiu em novembro de 1990, no Campeonato Asiático Sub-20 de futebol. As duas Coreias participaram do torneio, e fizeram boas campanhas. Ambas ficaram em segundo lugar em seus grupos na primeira fase, conquistando vagas nas semifinais. O Sul venceu o Catar por 1 a 0 e assegurou uma vaga na final. O Norte bateu a Síria por 2 a 1 e também garantiu um lugar na decisão. No histórico choque entre Coreias, o Sul ficou com o título fazendo 4 a 3 nos pênaltis após 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação.

O resultado deu às Coreias as duas vagas asiáticas no Mundial Sub-20 de 1991, realizado em Portugal. Em fevereiro, Seul e Pyongyang chegaram a um acordo para formarem uma equipe unificada no Mundial de Tênis de Mesa. Esse acordo deu embalo para fazer o mesmo no futebol. Afinal, se as duas Coreias disputariam o torneio, por que não jogarem como um time só?

A proposta foi apresentada e rapidamente aceita pela Fifa. Cada país teria metade dos 18 convocados, o time seria representado pela bandeira branca com o mapa no meio, a comissão técnica teria um técnico norte-coreano e um auxiliar sul-coreano e a Síria, terceira colocada no Asiático Sub-20, herdaria a segunda vaga da Ásia. Como não existe uma entidade representando a Coreia unificada, os registros oficiais da Fifa registrariam a participação como se fosse do Sul.

A Coreia ficou no Grupo A, com Portugal (dono da casa e então campeão da categoria), Argentina e Irlanda. Apesar de o acerto foi ter um elenco com nove jogadores de cada país, o Sul acabou ficando com dez atletas e o Norte, com oito.

Na estreia, os coreanos enfrentaram a Argentina. Os alvicelestes não tinham nenhum craque, mas havia vários jogadores que tiveram sucesso na carreira:

– Mauricio Pochettino, ex-Paris Saint-Germain e Espanyol, atual técnico do Tottenham;
– Mauricio Pellegrino, ex-Barcelona, Valencia e Liverpool;
– Christian Bassedas, campeão da Libertadores e Mundial com o Vélez Sársfield, também defendeu o Newcastle e foi prata nos Jogos Olímpicos de 1996;
– Marcelo Delgado, tricampeão da Libertadores com o Boca Juniors (2000, 2001 e 2003) e também medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 1996;
– Juan Esnaider, ex-Juventus, Real Madrid e Atlético de Madrid.

Ainda assim, a Coreia foi melhor na partida, chegou a perder várias oportunidades no primeiro tempo e conseguiu a vitória com um arremate de longa distância do norte-coreano Cho In-Chol.

A segunda partida foi contra a Irlanda. Paul McCarthy abriu o marcador para os irlandeses (que, vale dizer, não tinham nenhum jogador que progrediu na carreira), mas Yun Chol, também norte-coreano, empatou o jogo no último minuto.

Na última rodada, a Coreia entrou em campo já classificada. O duelo com Portugal (que contava com Figo, Rui Costa, João Pinto, Abel Xavier e o técnico Carlos Queiroz) decidiria apenas o primeiro colocado do grupo. Os portugueses venceram por 1 a 0, gol de Paulo Torres. Com a segunda posição, os coreanos cruzariam nas quartas de final com o primeiro colocado do Grupo B, o Brasil.

Era um duelo ingrato à Coreia unificada, pois os brasileiros vinham como favoritos ao lado dos portugueses. Os principais destaques do elenco eram o goleiro Roger (ex-Flamengo e São Paulo, famoso por posar nu para revista), o lateral Roberto Carlos, os meio-campistas Marquinhos, Djair e Sérgio Manoel e os atacantes Élber e Paulo Nunes.

Marquinhos abriu o marcador para o Brasil, mas Chol empatou. No final do primeiro tempo, Élber fez 2 a 1 para os brasileiros, que deslancharam depois do intervalo e venceram por 5 a 1 (e seguiram até a final, quando perderam nos pênaltis para Portugal).

Apesar da boa campanha, em que bateram a Argentina e só caíram diante dos dois finalistas, nenhum jogador daquela seleção coreana teve grande destaque na carreira. Os norte-coreanos não conseguiram levar seu país a nenhuma competição internacional de destaque ou jogar no exterior. Entre os sul-coreanos, os melhores foram Cho Jin-ho, que fez uma partida na Copa de 1994, e Lee Lim-saeng, que entrou em campo uma vez no Mundial de 1998.

De qualquer forma, esses jogadores entraram na história. Até porque as Coreias não chegaram a novos acordos de participação conjunta em eventos esportivos de alto nível (campeonatos mundiais ou olímpicos). Houve cooperações, sinais de amizade e reuniões para torneios menores, mas uma unificação em competição só voltou a ocorrer nos Jogos de Inverno deste ano.