Às vésperas de completar 40 anos, aquele que é considerado por tantos como o melhor goleiro da história tinha um objetivo derradeiro em sua carreira: a Copa do Mundo. Gianluigi Buffon deixou bastante claro que esta seria a sua última temporada, visando principalmente o Mundial. Visando a chance de defender a seleção italiana aos olhos de todo o planeta pela última vez. Pela sexta vez, número que o tornaria recordista absoluto em presenças na competição. A paixão exposta a cada vez que os azzurri entram em campo, seja pelo hino cantado em veias saltadas no pescoço ou pelos punhos cerrados em comemoração às defesas, o movia rumo a 2018. Porém, a viagem de Gigi à Rússia, justamente o palco onde iniciou a trajetória com a Nazionale, não acontecerá. A ausência da Itália na Copa também priva o gigante de escrever suas últimas linhas no maior dos torneios.

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Fantástico na Euro 2016, Buffon continuou como a alma da seleção durante toda a campanha nas Eliminatórias. Foi lenda, mas também humano. E como todo o restante do elenco azzurri, sucumbiu. Não conseguiu parar a Espanha em uma noite incontrolável de Isco, que relegou o time à repescagem. Precisariam manter a concentração e o ímpeto contra a Suécia. Porém, o que se viu foi a desorganização e o desespero de um time que não se encontrou em 180 minutos de futebol. Gigi, que nada pôde fazer no chute desviado que determinou o revés em Solna, passou a maioria absoluta do tempo de longe, sofrendo. Como mais um torcedor.

O início da noite no San Siro, aliás, já havia demonstrado que o coração de Buffon não cabia no peito. Primeiro, diante das vaias ao hino da Suécia, aplaudiu os rivais, tentando dar uma mostra de respeito – como já havia feito em outra ocasião, diga-se. E quando a canção italiana começou a ecoar no estádio, o coração do capitão mais parecia sair pela boca, tamanho fervor colocado para entoar a letra. Mas logo todo esse ímpeto se transformaria em angústia. De longe, Gigi assistia aos seus companheiros pressionando os escandinavos. Martelando, arriscando, chutando. Mas sem furar o ferrolho auriazul. Sem criar aquilo que precisavam: o gol.

Se ver todo aquele sufoco à distância – do conforto do sofá e mesmo sem torcer para a Itália – já dava um enorme aperto no peito, imagine então a sensação de acompanhar aquela impotência de dentro do campo. Protagonizada por seus próprios amigos. E, pior, sem sequer poder ajudar além do grito de motivação. Buffon precisava guardar seu posto. Precisava confiar nos outros italianos e aguardar em sua área, para que nada ainda pior acontecesse. O caminhar dos ponteiros, de qualquer forma, assinalavam o final de uma carreira brilhante com a seleção. Que teve outros momentos de baixa, é verdade, mas nunca com o desgosto de acabar fora da Copa do Mundo.

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Quando o relógio já havia atingido o minuto 90, era hora de atravessar o campo. Hora de tentar, como tantas vezes, ser o herói, mas desta vez de um jeito totalmente diferente. Buffon foi para o ataque em dois escanteios. E quantos não esperavam que a bola passasse alguns centímetros mais para baixo, que tocasse sua cabeça e rumasse às redes? Quantos não esperavam um capítulo inenarrável para a lenda? Que a predestinação de um dos melhores da história, enfim, reluzisse diante de todos? Mas este momento épico ficou limitado à imaginação. Gigi lembrou a todos que até os maiores são passíveis às derrocadas. Assim, tão humanos. E, assim, ainda mais antológicos por tudo o que fizeram antes do adeus entristecido.

Ao apito final, enquanto diversos jogadores italianos choravam, Buffon ressaltou outra vez sua grandeza. Emocionado, porque nem ele resistia à dor, caminhava pelo gramado do San Siro. Cumprimentava os seus adversários suecos, parabenizando pela conquista da classificação à Copa do Mundo. Um feito que ele sabe bem da importância, e que muitos experimentarão pela primeira vez. Logo depois, saiu para abraçar os seus companheiros italianos. Aqueles que caíram por duas vezes consecutivas na fase de grupos, e agora carregarão a chaga que não se vivia no país desde 1958. O consolo era seu papel como líder. Seu papel como capitão. O papel como exemplo a todos. E como um dos grandes símbolos da história da Azzurra, eleito nos últimos dias como o maior jogador que já passou pela Nazionale.

Buffon não se escondeu. Antes de sair de cena, foi aos microfones. Olhos marejados, expressou seus sentimentos. E, enfim, desabou em lágrimas, porque até os maiores mitos são feitos de sonhos. São justamente estes sonhos que alimentam sua vontade de vencer, e assim perpetuam a grandiosidade. Buffon sempre foi um desses, e especialmente na seleção.

“É decepcionante. Não para mim, mas para o movimento ao redor do futebol, porque falhamos em algo que poderia ser realmente importante para este país, até mesmo socialmente. Este é o único arrependimento que fica e certamente não é por isso que estou encerrando minha carreira, mas sim porque o tempo passa e é tirano. É um lamento que meu último jogo oficial tenha coincidido com o fracasso na tentativa de nos classificarmos à Copa do Mundo”, declarou Buffon.

“Há certamente um futuro para o futebol italiano. Somos um povo com orgulho, teimoso, obstinado. Depois das dificuldades, sempre encontramos uma maneira de reencontrar o caminho. Deixo uma seleção com talentos, que dirão a que vieram, como Gigio Donnarumma e Mattia Perin. Eu quero dar um abraço em todos. No meu Chiello, no meu Barza, no meu Leo e no meu Lele, que estiveram por uma década ao meu lado. Eu agradeço aos rapazes que estiveram conosco e, embora isso não tenha sido suficiente, espero que tenhamos dado algo a eles”, complementou.

O tempo, este mesmo tirano que impedirá Buffon de dar sua volta por cima aos 44 anos, também será remédio ao veterano. Demorará, mas a dor vai passar. E as lembranças que ficarão sobre sua carreira de duas décadas na Nazionale serão muito maiores. Guardarão as inúmeras defesaças. Manterão intactos os momentos dourados vividos na Copa do Mundo de 2006.

O sexto Mundial ficará como um objetivo que o camisa 1 não completou, e por razões que fugiram de suas mãos santificadas. Será um número a menos em uma trajetória tão condecorada. Que, ainda assim, machuca a alma de Gigi. E as lágrimas de Buffon são também as de milhares de torcedores e fãs, que compartilham os lamentos pelo ponto final melancólico à história extraordinária escrita com luvas. Gigante, mas que por detalhes não conseguiu ser ainda maior.