Orgulho. Não havia outra palavra para definir o que a seleção peruana e todo o restante do país passou a sentir quando, enfim, a espera de 36 anos pela Copa do Mundo se encerrou. O orgulho já se via na campanha agônica durante as Eliminatórias, do empate arrancado na Bombonera ao drama feliz no Estádio Nacional contra os colombianos, e principalmente nos embates ante a Nova Zelândia – uma questão de interesse nacional. A partir de então, a Blanquirroja se tornou uma história a ser contada e saboreada. Dá para dizer que a classificação ao Mundial transformou o país. Afinal, este orgulho esteve latente em todos os amistosos posteriores, na multidão que invadiu arquibancadas em Lima e na Europa, na maneira como os compatriotas se uniram para empurrar a equipe e também defender Paolo Guerrero. Os jogos na Rússia eram o propósito e o pretexto de algo que já havia acontecido. Uma pena é que tenha durado tão pouco. Fora campo, ao menos, pode e deve durar mais, nas lembranças e nos sentimentos que ficam.

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As marcas da seleção peruana na Copa de 2018 são indeléveis, apesar daquilo que não veio em campo. É a paixão evidente na massa blanquirroja que invadiu a Rússia, vindos não apenas do Peru, mas de outros países que abrigam uma gente apegada às raízes. De um povo enlouquecido por futebol e que aproveitou o sucesso da equipe nacional para se apresentar um pouco mais ao restante do mundo. E a emoção transbordava além das ruas, além das arquibancadas. Ela se sentiu em campo em diversos momentos dos dois primeiros jogos do time de Ricardo Gareca, em vontade expressa por tomar o protagonismo. O que não necessariamente resultou nas vitórias que os Incas precisavam para triunfar, eliminados tão cedo, quando se criava tantas expectativas.

O Peru fez uma das melhores preparações à Copa do Mundo. Tumulto ao redor de Guerrero à parte, a Blanquirroja seguiu a cartilha ideal do trabalho a ser realizado. Buscou alternativas táticas, encaixou jogadores ao esquema, fez boas exibições, ganhou amistosos contra adversários de estilos distintos ao que encontrou nas Eliminatórias. Mais do que isso, a seleção realizou um pacto com a sua gente, que a acompanhou e a engrandeceu. Mentalmente, os peruanos deveriam chegar fortes à Rússia, até pela absolvição de seu capitão semanas antes do torneio. O moral estava lá no alto, em confiança que se reproduziu várias vezes, e se contava pelo número de partidas invictas acumuladas pela equipe de Ricardo Gareca.

Futebol, porém, não é uma ciência exata – ainda bem, por toda a imprevisibilidade que lhe confere prazer. Aos peruanos, isso se torna uma lamúria. A seleção não fez uma Copa do Mundo ruim. Jogou como se esperava, com iniciativa, em busca da classificação. Mas há um detalhe que faz toda a diferença no esporte: as redes balançando. Entre o que não conseguiu no ataque e o que se falhou na defesa (isto, em pontuais defeitos), o saldo dos Incas é de duas derrotas. Dois tropeços que terminaram na decepção pela passagem curta pela Rússia. Bem mais curta por aquilo que o time teria condições de realizar.

O Peru sabia pelas experiências anteriores que nada cai do céu. Sua última vitória em Copas aconteceu na fase de grupos de 1978, antes das malfadadas (e polêmicas) ocorrências na reta decisiva na Argentina. Causou um carnaval com a classificação rumo ao Mundial de 1982 e alimentou as especialmente, especialmente ao bater a França de Michel Platini nos amistosos preparatórios, mas uma série de entraves internos impediu a celebração na Espanha. E desde então, uma maldição parecia acompanhar os Incas, com especial menção às frustrações nas Eliminatórias rumo a 1986 e 1998, perdendo a vaga só na reta final finais. O que se passou ao longo do último ciclo era uma redenção. Que, ainda assim, dependia do que ocorreria na Rússia. Havia fome e fé.

Contra a Dinamarca, o Peru foi inegavelmente superior. Buscou o ataque, pressionou os adversários, criou chances de gol. Contudo, não as converteu, e a desatenção no contra-ataque de Yussuf Poulsen gerou uma derrota custosa demais. Na Copa do Mundo, o sorteio da segunda fase acaba sendo decisivo a muitas seleções. E encarar a França não era boa coisa aos peruanos. Foi o que se viu nesta quinta-feira, mesmo que os sul-americanos não tenham se amedrontado por isso.

Sobretudo no primeiro tempo, a Blanquirroja protagonizou uma belíssima atuação. Enfrentou os Bleus de igual, teve volume de jogo, apresentou intensidade. Quando os franceses mais queriam o ataque, o time de Ricardo Gareca se defendeu com disciplina e segurança em si mesmo. Faltava mandar a bola para dentro, o que Guerrero por pouco não conseguiu, parando em Lloris. E a bola que o atacante perdeu no próprio campo, desarmado por Paul Pogba, se provaria decisiva.

A força mental do Peru pareceu se esfarelar ao longo do Mundial. O pênalti desperdiçado por Christian Cueva não ajudou, e os companheiros tentaram levantá-lo logo após a derrota ante a Dinamarca. Já nesta quinta, a lucidez desapareceu minuto a minuto entre os peruanos, ao longo do segundo tempo. Ainda era um time com posse de bola, mas estéril, diante da marcação de muito vigor físico dos franceses. Depois do míssil de Pedro Aquino que explodiu na trave, até se esboçou um bombardeio, mas isso não passou de imaginação e as chances de gol rarearam. Quando mais precisava botar pressão, a Blanquirroja sofria, contra um adversário que gastava o tempo e incomodava no ataque. Coletivamente, o time de Ricardo Gareca se saiu muito bem. Teve solidez. Mas não resolveu os jogos – e, sem isso, não se triunfa no futebol.

E não dá para colocar a culpa no treinador, em um jogador, em um lance isolado. Seria melhor entrar com Guerrero no primeiro jogo? Seria melhor tirar Cueva no segundo? Gareca fez as suas escolhas, feliz ou não nelas, e não se discorda que o treinador teve a sua parcela de ousadia, especialmente com as mudanças no intervalo contra a França, definitivamente colocando os Incas ao ataque. Só que a engenharia de obra pronta é o mais fácil para acusar, quando as situações inicialmente pensadas não se concretizam. Em um esporte que depende de detalhes em partidas apertadas, eles penderam para o outro lado, e não ao peruano.

Na saída de campo, lágrimas – como não poderia deixar de ser. Dos mais jovens aos veteranos do elenco, ninguém escondia o sonho dilacerado em pouco mais de 180 minutos, entre sábado e quinta-feira. E pela forma como o elenco se preparou, não se tira a razão do vazio que se sentiu. Sensação reproduzida, também, nas arquibancadas, entre os vários torcedores que não escondiam o pranto. O baque vem pela ambição que se interrompeu não mais que de repente, quando a Blanquirroja sentia o prazer desta injeção de euforia chamada futebol. Poderia durar um pouco mais. Termina em fugacidade, diante daquilo que ficou tão próximo. O Mundial se atravessa em overdoses de emoção, e nem sempre elas acabam em regozijo.

O que o Peru apresentou ao longo dos últimos meses, de qualquer forma, não se perde. O restante do planeta pôde conhecer uma outra faceta do país. Além dos estereótipos e lugares comuns, viu a identidade de uma nação tão diversa ser exibida da maneira mais carnal. Mais unida. É o que fica além da Copa do Mundo, por aquilo que se vive e se lembrará, não apenas pelo que não aconteceu. Quando as lágrimas secarem e a consciência voltar, o orgulho será o legado que fica acima do futebol.