A trajetória do Irã nas Copas do Mundo está muito ligada às mulheres do país. Principalmente, à luta das mulheres iranianas em busca do direito de assistir aos jogos nos estádios iranianos. Desde 1981, elas são proibidas de frequentar as arquibancadas pela lei local, baseada na sharia – o que, vale ressaltar, não é necessariamente a regra em todos os países islâmicos. As mulheres não podiam sequer ver os jogos pela televisão até 1987, quando ganharam a “permissão” do aiatolá. E a cada novo ciclo mundialista dos persas, a discussão volta à tona. Em 1997, aconteceu o primeiro grande rompimento, quando o Team Melli assegurou o retorno ao Mundial após duas décadas de ausência. Milhares de mulheres saíram às ruas, em comemoração, e três mil torcedoras forçaram sua entrada no Estádio Azadi, na recepção ao time após a façanha conquistada na Austrália. As cenas se repetiram, em diferentes graus, também nas classificações de 2005 e 2013. Já nesta quarta, a história se fez dentro e fora do território iraniano, durante o encontro com a Espanha no Mundial de 2018.

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Pela primeira vez nestes 37 anos, as mulheres iranianas ganharam permissão para assistir a um jogo nas arquibancadas do Estádio Azadi, o principal do país. Tudo bem, o Irã não estava em campo, e o jogo em Kazan acabou transmitido apenas em telões. Ainda assim, não deixa de representar uma quebra no que se viveu em quase quatro décadas. Ao lado de suas famílias, milhares de iranianas estiveram entre os 20 mil presentes no local. Com bandeiras e rostos pintados, as torcedoras representaram sua paixão pelo futebol e o desejo de derrubar a proibição.

A noite histórica, todavia, teve as suas reviravoltas. Ela estava prevista para acontecer inicialmente na última sexta-feira, durante a estreia do Mundial de 2018, contra o Marrocos. A falta de uma permissão especial do poder público em Teerã impediu que isso ocorresse. Já nesta quarta-feira, apesar dos ingressos vendidos previamente, houve o anúncio de que o evento seria cancelado. A polícia bloqueou uma das vias de acesso ao estádio e o responsável pela praça esportiva informou a uma rádio local que a exibição não aconteceria por “dificuldades infraestruturais”. Quando a multidão já se reunia nos arredores do Azadi e a revolta se evidenciava, o Ministro do Interior, Abdolreza Rahmani Fazli, assegurou que os portões fossem abertos. Só então começou a festa.

Gianni Infantino, presidente da Fifa, se envolveu na luta pelos direitos das mulheres iranianas. O dirigente visitou o país em março e, segundo suas palavras, intercedeu com o presidente persa para que as restrições se afrouxassem – algo que as autoridades locais ensaiaram algumas vezes ao longo da última década, mas sem nunca realizar a mudança, geralmente barrada pelas autoridades religiosas. Na ocasião, Infantino visitou o clássico entre Persepolis e Esteghlal. Entretanto, 35 mulheres acabaram detidas nos arredores do Azadi pelo “crime” de tentarem entrar no estádio. Depois disso, o cartola reafirmou o seu empenho, inclusive durante a Copa de 2018.

Nestes últimos meses, a mobilização dos iranianos ao redor do tema aumentou, indo além das ativistas. Há anos, um dos artifícios das mulheres para entrarem nos estádios é se “camuflarem” como homens. E os próprios torcedores passaram a acobertar as infiltradas, com vídeos sobre o assunto se espalhando nas redes sociais. O capitão da seleção, Masoud Shojaei, também reiterou o tema com o presidente. Além disso, foi criada uma petição recente para ser levada até o governo. Ante a pressão, o poder em Teerã dá sinais de abertura, embora o evento desta quarta seja apenas uma etapa. Resta saber se a permissão acontecerá novamente nos “jogos de verdade”, dentro dos estádios. A postura da TV estatal, por exemplo, deixa interrogações quanto ao futuro. Há imagens que mostram um repórter tentando evitar as torcedoras durante uma filmagem na saída do Azadi após a transmissão do duelo com a Espanha.

Enquanto isso, como tradicionalmente acontece nas competições internacionais, as mulheres iranianas usaram a Copa do Mundo como palanque. No jogo contra Marrocos, em São Petersburgo, foram vários os cartazes de protestos contra a proibição, exibidos nas arquibancadas. Já nesta quarta, há uma denúncia de que a segurança do estádio em Kazan deteve uma ativista por duas horas e reteve um cartaz de manifestação. Segundo uma porta-voz da Fifa, a entidade já está ciente do caso e busca seu esclarecimento, enfatizando que não há qualquer proibição quanto às faixas. “Os cartazes são considerados pela Fifa uma forma de expressar o apelo social, algo oposto de um slogan político, e por isso não são proibidos pelos regulamentos”, apontou a representante da Fifa, à agência Reuters.

E foi importante o que a transmissão oficial da Fifa realizou durante o jogo contra a Espanha. Se contra o Marrocos algumas mulheres e cartazes haviam aparecido, desta vez as imagens eram numerosas e deliberadas. Em diversos momentos do jogo, as câmeras focavam as iranianas, com suas bandeiras e seus adereços. Rostos que não apenas transmitem uma mensagem ao resto do mundo e conscientizam sobre a luta de décadas. Os rostos também chegam aos próprios televisores iranianos e mostram que aquelas cenas, tratadas como tabu no país, deveriam ser naturais.