A rigor, a Bélgica já não precisava mais se preocupar com classificação ou coisas do tipo na partida contra a Argélia. Embora de modo apagado, já tinha cumprido sua tarefa e afastou completamente o temor de vexame que às vezes pega seleções na primeira fase da Copa do Mundo. No entanto, a vitória por 1 a 0 sobre a Coreia do Sul teve uma serventia: mostrar que o ataque dos Diabos Vermelhos nada tem da “ótima geração belga”.

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Com relação à defesa, o crescimento é visível. O setor que sofreu nas mãos dos argelinos, na estreia em Belo Horizonte, já exibira mais segurança contra a Rússia. E mesmo com as alterações feitas para poupar jogadores nesta quinta, em São Paulo, a linha de quatro marcadores costumeiramente escalada por Marc Wilmots não sofreu. Por mais pressão que os sul-coreanos tentassem fazer, nada abalava os defensores. E dois personagens que estiveram em campo na Arena Corinthians mostraram bem essa evolução.

Um deles só confirmou seu status na seleção belga. A Coreia do Sul até tentou alguns chutes. Com Lee Keun-ho, com Koo Ja-cheol, com Ki Sung-yueng… só que sempre encontrava Thibaut Courtois no caminho. Não chegou a ser um bombardeio, mas o camisa 1 belga sempre estava bem colocado e até fez boas defesas. Courtois termina bem a primeira fase. E com perspectivas até de cumprir as expectativas sobre seu nome, tornando-se um dos melhores goleiros da Copa. Mas disso Leandro Stein tratou melhor neste texto aqui.

Ao contrário do arqueiro, um dos outros dois destaques da defesa belga precisava exatamente daquilo que teve na quinta-feira: uma boa atuação. Enfim, Jan Vertonghen mostrou algo próximo do bom nível que tem. Mais relaxado do que nos jogos contra Argélia e Rússia, ganhou mais confiança para avançar ao ataque, fazer cruzamentos e, por fim, participar da jogada que levou ao seu gol, que definiu o placar. É verdade que a Coreia do Sul não é lá um time muito desafiador. Tão verdade quanto o fato de que Vertonghen está mais concentrado e focado em fazer o que sabe. Assim, pode crescer na Copa.

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Courtois e Vertonghen foram mencionados, mas também há Alderweireld, razoável na Copa; Kompany, soberano no miolo de zaga (e poupado exatamente para que a lesão na virilha não o tirasse das oitavas de final, bem mais importantes); Van Buyten, que cresceu na esteira do parceiro Kompany; os reservas Vanden Borre e Lombaerts entraram hoje sem problemas… enfim, a Bélgica pode dormir tranquila com relação à sua defesa. Não é à toa que é a melhor da Copa, junto de Costa Rica e México, com apenas um gol sofrido.

O meio-campo também ajuda: Witsel tem sido um bom volante, marcando sem problemas e mostrando boa saída de bola. Fellaini, por sua vez, apresenta um nível de jogo satisfatório como não era desde os tempos de Everton. Na armação, De Bruyne anda produzindo até mais do que Hazard.

Só que nem só desses setores se forma um time que faça uma boa participação na Copa. E o ataque terminou a fase de grupos dando sérias razões para preocupação a Marc Wilmots. No jogo desta quinta, somente Mertens ofereceu algum tipo de perigo, no primeiro tempo, fazendo suas tradicionais jogadas pela esquerda, dando problemas aos marcadores sul-coreanos. Todavia, mesmo o camisa 14 falhou por várias vezes na finalização, contrariando o que fizera contra a Argélia, quando foi decisivo na vitória.

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Mas era bem melhor se o ataque belga tivesse a voluntariedade falha de Mertens. Porque Mirallas, o homem de área, deixou a desejar. Foi mais ativo do que o titular Lukaku, é verdade. E também é bom ponderar que a expulsão (justa, diga-se de passagem) de Defour forçou a Bélgica a ter mais cuidados defensivos. Mas o fato é que Mirallas também não causou muito tormento ao miolo de zaga adversário. Pela direita, o novato Januzaj não deu razão alguma a quem esperava bastante que ele confirmasse o status de “mais uma promessa belga”.

Este lugar, por sinal, é ocupado pelo atacante de quem menos se esperava no início da Copa. Embora ainda não possa ser chamado de titular, Divock Origi já se apresenta como a opção mais confiável para o ataque, no banco de reservas. Forte e rápido, o camisa 17 entrou e trouxe a rapidez de que o ataque belga precisava para os contra-ataques.

Além disso, sua habilidade permitiu que participasse de jogadas perigosas, como a do gol de Vertonghen. No entanto, jogar a responsabilidade de “homem-gol” nas costas de Origi talvez seja precipitado. Ou não, como ele indicou em entrevista após o jogo em São Paulo: “Acho a pressão algo positivo, me sinto bem, e isso se vê nas partidas”.

Entre a solidez cada vez maior da defesa e um ataque deficiente, o saldo é positivo. Menos do que poderia ser, é verdade, já que a expectativa sobre os Diabos Vermelhos era inflada pelos elogios. Mas é bom lembrar que trata-se de um dos únicos quatro times que saíram da primeira fase com três vitórias em três partidas. Repita-se: vexame a Bélgica não dará mais.

Ainda assim, é inegável que marcar apenas quatro gols é pouco auspicioso para a seleção da Bélgica. Melhorá-lo é o desafio até o jogo da próxima terça, contra os Estados Unidos, em Salvador. Afinal de contas, só com gols é possível que um time sólido confirme o que se esperava dele antes da Copa.