A noite em Turim não valia meros três pontos ao Napoli. Valia um sonho. Valia o amor de centenas de milhares de napolitanos, que veem naquela camisa celeste a sua identidade. Que têm no clube um símbolo de afirmação. Isso havia ficado bem claro na partida dos jogadores a Turim, com as ruas tomadas de gente. E a sintonia de ambos os times era visivelmente distinta no Estádio Allianz. A Juventus, calejada por seu hexacampeonato e tranquila por sua vantagem na tabela, se continha na segurança esperando uma brecha. Mas a vontade era toda do Napoli. A fome pelo Scudetto era do Napoli, jogando a partida da vida de muitos em campo, de tantos nas arquibancadas, de uma multidão em sua cidade. Gianluigi Buffon era o único a igualar os partenopei em ambição, intransponível durante quase 90 minutos. Quase. Aos 45 do segundo tempo, o gol de Kalidou Koulibaly causou um terremoto na Itália. Garantiu a vitória napolitana por 1 a 0 e abre totalmente a Serie A.

Massimiliano Allegri confiou em uma Juventus mais contida defensivamente. Sem Mattia De Sciglio, Benedikt Höwedes era a opção na lateral direita, enquanto Juan Guillermo Cuadrado e Mario Mandzukic ficavam por ora no banco. Nada de se expor a um Napoli que vinha com tudo desde os primeiros minutos. E, de fato, a escalação de Maurizio Sarri, com força máxima, indicava os celestes bastante agressivos. Como de praxe, assim os celestes jogaram. Fizeram uma partida intensa durante o primeiro tempo em Turim.

O Napoli era incansável na marcação. Atento, pressionando a saída de bola da Juventus sem deixar que a Velha Senhora passasse do meio-campo. E a preocupação dos bianconeri eram necessárias. Dois jogadores da linha defensiva receberam cartões amarelos durante os dez primeiros minutos, enquanto Giorgio Chiellini precisou ser substituído por Stephan Lichtsteiner, ao se lesionar. Os celestes até encontravam dificuldades para se infiltrar dentro da área e ameaçar a meta de Buffon. Mas logo o jogo de abriria.

A Juventus esboçou equilibrar o embate por volta dos 15 minutos. E levou o coração dos napolitanos à boca em dois lances consecutivos. Miralem Pjanic cobrou falta na barreira, mas a bola desviou e triscou o poste. Já na sequência, após levantamento na área, Gonzalo Higuaín arrematou cruzado e José Callejón apareceu para afastar o perigo quase em cima da linha. Mas logo depois o Napoli se acalmaria, retomando o controle. Seguia com problemas para se aproximar do alvo, insistindo um pouco mais nas bolas levantadas. Mas, em uma dessas, Mário Rui quase surpreendeu Buffon. O goleiro precisou se esticar para espalmar a bola sobre o travessão.

Quando enfim achou uma brecha pelo lado esquerdo, onde concentrava as suas ações, o Napoli perdoou. Marek Hamsik invadiu a área após mais uma jogada de Mário Rui, mas, com pouco ângulo, bateu para fora. O clima era quente e não demorou para os jogadores se estranharem, com Lorenzo Insigne, Sami Khedira e Douglas Costa no meio do bolo. E apesar do momento favorável, os napolitanos não transformavam seu ímpeto em gols. Quando conseguiram balançar as redes aos 37, o bandeira assinalou impedimento. Jorginho deu uma enfiada cirúrgica, mas Insigne acabou flagrado no limite da linha.

A Juventus trouxe novidades para o segundo tempo. Juan Guillermo Cuadrado substituiu o desencontrado Paulo Dybala. E apesar de um pouco mais de iniciativa da Velha Senhora durante aqueles instantes iniciais, o Napoli permanecia mais perigoso. Hamsik ficou no quase de novo, acertando a parte de fora da rede, aos seis. O jogo seguiu mais tenso, sem ninguém se expor e o cansaço pesando sobre os visitantes. Sarri botou Arkadiusz Milik para dar mais presença de área ao ataque, o que não funcionou muito. Do outro lado, os bianconeri se defendiam com organização e pareciam satisfeitos com o empate. Além disso, Allegri preferiu trocar Douglas Costa por Mario Mandzukic para a reta final do confronto.

Nos 20 minutos finais, a definição começou a se aproximar. E, que não criasse chances tão evidentes assim, o Napoli ia martelando a meta de Buffon. O goleiro salvou a primeira vez aos 27, em lance anulado por impedimento de Callejón. Zielinski também tentou, mas o veterano se agigantou. Quando as esperanças se esvaíam é que o prêmio ao empenho celeste apareceu, aos 45. Buffon afastou um cruzamento fechado de Insigne. Escanteio para o Napoli. Na cobrança, Callejón cobrou para Kalidou Koulibaly subir no terceiro andar. Cabeceou firme, sem que o camisa 1 pudesse salvar desta vez. Ao time que gosta de atuar pelo chão, as bolas paradas se tornam salvadoras nesta reta final. E possibilitaram mais um grande resultado, o maior de todos até o momento.

As cenas após o apito final são emblemáticas. O abatimento dos jogadores da Juventus era óbvio, assim como o de seus torcedores, atônitos. Buffon, particularmente, cumprimentava os oponentes um por um pela grande noite. Já a comemoração do Napoli lembrava muito a classificação à final de um campeonato, com atletas e comissão técnica correndo para se abraçar. Melhor ainda, os guerreiros que viajaram ao norte do país e viram o duelo das arquibancadas não continham as lágrimas. Pela segunda vez nas últimas três décadas, a primeira desde 2009, os partenopei bateram a Velha Senhora em Turim. O significado disso, de qualquer maneira, vai além de números. Está expresso no orgulho daqueles que se emocionavam com aquilo que viviam. E com o maior que ainda podem viver.

Individualmente, Jorginho merece destaque pela partidaça que fez no meio-campo. Foi fundamental para que o Napoli controlasse o duelo. Além disso, o trabalho de Allan e Hamsik sem a bola valeu demais, dando o combate, assim como dos laterais, sem correr tantos riscos contra os pontas da Juve. Do outro lado, os juventinos deveram demais. As individualidades foram praticamente nulas durante a noite. E se Dybala sequer ficou até o fim, Higuaín se expôs mais aos erros e à falta de efetividade. O time não deu um chute sequer no gol de Pepe Reina durante os 90 minutos. Falta de ousadia que cobra seu preço.

Nápoles vai celebrar ardorosamente este triunfo. Receberá os seus jogadores ainda mais como heróis. Sabem como esta corrente positiva é importante para motivar um time com todos os seus limites – a inferioridade financeira, os problemas de lesão, o cansaço de um elenco curto. Apesar disso, a equipe de Maurizio Sarri jogou ao seu máximo durante boa parte do tempo no Estádio Allianz e, mesmo quando tudo parecia acabado, arrancou a vitória. Há vida na Serie A. Há vida como em nenhuma das principais ligas europeias neste momento.

A Juventus permanece na liderança. Soma 85 pontos, apenas um a mais que o Napoli. E a tabela da Velha Senhora se sugere mais difícil. Os bianconeri encaram Internazionale (Fora), Bologna (Casa), Roma (F) e Verona (C) – ainda tendo o compromisso com o Milan na final da Copa da Itália bem no meio da sequência. Já os celestes pegam Fiorentina (F), Torino (C), Sampdoria (F) e Crotone (C). O desfecho dessa história? Será um prazer poder ver. Um dos capítulos mais empolgantes, desenrolados neste domingo, deixou aquela ansiedade. E a vibração dos celestes acaba por contagiar.