Em termos de tradição, Athletic Bilbao e Olympique de Marseille fazem um dos melhores confrontos das oitavas de final da Liga Europa. São dois times de história, com museus repletos de taças e grandes campanhas que referendam o passado. Além disso, apostam suas principais cartadas na competição continental. Enquanto os bascos têm um desempenho mediano em La Liga, os provençais brigam pelo G-3 da Ligue 1, mas veem na frente europeia sua principal chance de impulsionar o atual projeto esportivo empreendido no clube. Tudo conspira para que sejam dois bons jogos. Especialmente o que extrapola o futebol propriamente dito. Afinal, Athletic e Olympique são o que são graças às suas identidades.

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Há muitos elementos em comum entre bilbaínos e marselheses. Algo evidente é a paixão nas arquibancadas. Tanto San Mamés (sobretudo a antiga catedral, no caso) quanto Vélodrome podem ser considerados templos do futebol. A fidelidade dos torcedores chega a níveis de devoção. Tudo porque ser Athletic ou ser Olympique não é uma questão apenas de adotar um time de futebol para si, ou de torcer para o clube de sua região. É muito mais do que isso. E o orgulho cultural pelo local onde cada agremiação se insere significa bastante.

O caso do Athletic Bilbao é o mais conhecido. Os leones são os principais representantes da causa basca, e ajudam a ressoá-la ao redor do mundo. O elenco restrito a jogadores nascidos região de Biscaia – uma premissa adotada ainda na década de 1910, quando os adversários começaram a criar caso com os ingleses escalados pelos alvirrubros – se tornou a diretriz mais importante do clube. A política sofreu aberturas ao longo das décadas, com a admissão de atletas nascidos ou crescidos em outras partes da chamada “Euskal Herria”, assim como alguns estrangeiros de ascendência basca. Fato é que a regra também retrata uma autopreservação do vínculo local, quando se considera a supressão sofrida pelos bascos durante o franquismo.

O Athletic Bilbao, em muitos aspectos, não deixa de ser a pátria de seus torcedores. Apoiar o clube é também uma maneira de exaltar as próprias raízes. As ações dos leones para apoiar a região não se limitam aos jogos, com um trabalho amplo na comunidade e a representação de símbolos. No escudo, por exemplo, a equipe carrega a Gernikako Arbola – a árvore que simboliza liberdade dos bascos e foi um dos motivos do bombardeio a Guernica em 1937. Já outro episódio emblemático foi a entrada da ikurriña em campo, em tempos nos quais a bandeira do País Basco era proibida na Espanha. A valentia dos jogadores do Athletic, ao lado de seus colegas da Real Sociedad, acabou sendo decisiva para o fim do banimento.

O Olympique de Marseille, por sua vez, não repercute tanto em outros cantos do mundo por sua relevância regional. Mas, inegavelmente, ela é importante e explica muito sobre a ligação dos celestes com seus torcedores – embora o sucesso do clube permita que sua torcida seja mais ampla no território nacional ou mesmo associada aos imigrantes do norte da África. De maneira parecida com o País Basco, a chamada Provença possui um distanciamento com o “poder central” do país. Há uma cultura particular e uma língua própria, bem como um regionalismo forte – com direito a movimentos separatistas. E enquanto se engrandece as particularidades, se opõe à capital. Percebe-se um certo ranço com Paris ou Madri por conta de momentos históricos difíceis aos provençais e aos bascos – incluindo o declínio do porto de Marselha ou a derrota dos republicanos na Guerra Civil Espanhola.

O futebol, de certa forma, se torna uma revanche simbólica. Há um senso de honra que faz as regiões se agarrarem ao seu clube. Assim, os estádios se tornam um palco de encorajamentos não apenas aos times, mas também à representatividade. E, em Bilbao ou Marselha, é possível captar outras similaridades paralelas. Por exemplo, a religiosidade possui sua importância no dia a dia dos clubes, com maioria católica; os grupos de ultras se identificam com movimentos à esquerda – o que não se repete necessariamente nas urnas dentro da política local; as bandeiras regionais se tornam praticamente um segundo emblema, muito presentes nas arquibancadas; e há um convívio constante com a questão imigratória de diferentes formas, considerando a ligação do sul da França com o norte da África e a diáspora basca, embora nos últimos anos a chegada de estrangeiros também tenha sido notável na comunidade autônoma espanhola.

Diante do pano de fundo, é natural que Athletic Bilbao e Olympique de Marseille sejam tratados com tamanho fervor por suas torcidas, como claramente se sente nas arquibancadas. O clube se transforma como um consenso em suas cidades, unindo diferentes classes sociais e diferentes bairros. Em ambos os casos, existe uma projeção da sociedade e de questões com as quais convivem no cotidiano. A proximidade, todavia, não impede que os ultras se oponham quando se encontram. Nos últimos jogos entre bilbaínos e marselheses, pelos 16-avos de final da Liga Europa 2015/16, ocorreram embates no entorno de ambos os estádios. Dentro de campo, melhor para os bascos, que avançaram à fase seguinte com direito a um golaço de Aduriz.

Por fim, vale dizer também que há mesmo personagens em comum entre os dois clubes, apesar das restrições dos leones em seu elenco. Bixent Lizarazu, primeiro francês a atuar no Athletic, teria posteriormente uma curta passagem pelo Olympique. Enquanto isso, um dos maiores ídolos dos marselheses é exatamente um basco: Didier Deschamps, nascido em Bayonne, principal cidade do lado francês da região. O capitão do título da Champions de 1993 iniciou sua carreira no Aviron Bayonnais, clube atualmente conveniado ao Athletic, por onde passou Aymeric Laporte. No banco de reservas, Marcelo Bielsa foi igualmente alvo de adoração das duas torcidas, em passagens positivas, mas invariavelmente explosivas. E no atual momento, o responsável por levar em frente o projeto esportivo dos celestes é ninguém menos que Andoni Zubizarreta, atual diretor que atravessou cinco anos significativos em Bilbao, goleiro nos últimos títulos dos alvirrubros em La Liga. Sem dúvidas, será um duelo entre irmãos – por mais que nem todos os torcedores percebam isso.