Do Acre, da Bahia, do Paraná, do Rio Grande do Norte. Diferentes níveis de tradição, diferentes histórias recentes, diferentes torcidas. Mas, em conjunto, projetos que superaram limitações para desfrutar a glória do acesso em uma divisão nacional. A Série D conheceu os seus quatro “campeões” nos últimos dias. Por mais que ainda exista um título em disputa, o acesso é o ápice para Atlético Acreano, Juazeirense, Operário Ferroviário e Globo. Não apenas alcançam à terceira divisão do Brasileirão, como trazem novas perspectivas ao seus futuros, com maiores chances de rendimento financeiro e um calendário bem mais recheado a partir de 2018. A oportunidade de, quem sabe, alçarem voos maiores nas próximas temporadas.

A definição das quartas de final da Série D foi cercada de tensão. Afinal, por mais que alguns times já tivessem encaminhado as suas classificações, ninguém se deu por vencido. Neste sentido, o Operário Ferroviário foi quem menos sofreu, contra o Maranhão. Após a vitória por 3 a 1 no Castelão, o Fantasma manteve o controle dos quadricolores em Ponta Grossa e consumou a festa com o triunfo por 2 a 1. O Atlético Acreano, que também havia batido o São José no Rio Grande do Sul, por 1 a 0, precisou suar um pouco mais no Florestão. O gol de empate dos gaúchos aos 45 do segundo tempo ameaçou o Galo Carijó, mas o 1 a 1, por fim, acabou sendo suficiente. Já o Globo reverteu a derrota por 1 a 0 sofrida para a URT em Minas Gerais. O troco dos potiguares veio em Ceará-Mirim, com a promoção celebrada nos pênaltis. E a Juazeirense, que havia surpreendido o América de Natal com os 3 a 0 na Bahia, precisou superar o caos total na visita à Arena das Dunas, selando o momento histórico graças ao empate por 1 a 1.

Cada epopeia teve os seus tons particulares e as suas grandes histórias. Abaixo, detalhamos um pouco mais de cada uma delas:

Atlético Acreano

atletico acreano

Com 65 anos de história, o Atlético pode ser incluído entre os clubes mais tradicionais do Acre. São oito títulos estaduais. Contudo, o ressurgimento do Galo Carijó é um tanto quanto recente. Vem de um projeto focado nas categorias de base, iniciado em 2009 – e que não significa, entretanto, que os jogadores não superaram as precariedades comuns às divisões inferiores em seu dia a dia. Ainda assim, o empenho começou a gerar frutos no Campeonato Acreano desde 2016, com a conquista da taça após um jejum de 25 anos. O sinal de que os celestes estavam destinados a um futuro mais promissor. O acesso na edição passada da Série D não veio por muito pouco. O Atlético fez grande campanha desde a primeira fase, acumulando goleadas e uma série invicta que durou até as quartas de final. Justamente o momento decisivo, quando sucumbiram para o Moto Club e deixaram a vaga escapar por entre os dedos. O tropeço aumentaria a gana durante o retorno à competição nacional.

Sinal de que os passos seguiam firmes, o Atlético conquistou o bicampeonato acreano em 2017. Já na quarta divisão, a campanha nem era tão boa quanto no último ano. O sofrimento para passar por São Francisco-PA e Gurupi no início dos mata-matas foi maior, até que os celestes se cruzassem como o São José. Pesou bem mais o poder de decisão no momento derradeiro. O Galo Carijó arrancou o triunfo por 1 a 0 dentro do Passo d’Areia, com um gol do capitão Diego. O reencontro no Florestão teve bom público, apesar dos temores de que o pesadelo do ano anterior se repetisse diante de sua torcida. Apesar de alguns momentos de desatenção, os atleticanos cumpriram o seu serviço. O empate por 1 a 1 recolocará o Acre na Série C após cinco anos e também valerá o retorno do Atlético à terceira divisão nacional pela primeira vez desde 1995.

Globo

globo

Pouca história, muita ambição. O Globo tem apenas cinco anos de existência, mas já possui uma trajetória marcante no futebol potiguar. Fundado em 2012 por um empresário local, o Tricolor se tornou um símbolo de Ceará-Mirim, cidade de 73 mil habitantes na Grande Natal. A ascensão no estadual foi galopante, com direito ao título da segundona em seu primeiro ano e já o vice-campeonato durante a estreia na elite. Assim, a Águia aparece como uma força alternativa no Rio Grande do Norte, capaz de incomodar os grandes. E se o apoio local aumentou com a chegada de seu dono à prefeitura do município, eleito em 2016 com quase 56% dos votos, os resultados em campo continuaram refletindo o investimento sobre o Globo. Em 2017, mais uma vez, ele chegou ao vice do Potiguar, deixando o América de Natal pelo caminho. Uma prévia do que ocorreria na Série D.

Em suas três participações anteriores na quarta divisão, o Globo não tinha se saído tão bem. No máximo, caiu nas oitavas de final. A capacidade de ir além, de qualquer forma, já se escancarou desde a primeira fase. Os tricolores passaram na primeira colocação de sua chave, antes de derrubarem Parnahyba e Guarany de Sobral com quatro vitórias. Mas o desafio prometia ser bem maior contra a URT. A viagem a Minas Gerais deu uma mostra disso, com a vitória dos anfitriões por 1 a 0. Já a resposta precisou acontecer no Barrettão, diante de 2,5 mil torcedores e com uma ajudinha do acaso. Ainda durante o primeiro tempo, o goleiro Rafael se lesionou. Entrou o reserva, atendendo à mítica alcunha de Dasaev – batizado exatamente em homenagem ao lendário arqueiro soviético. Pois o herói de 24 anos não apenas fez defesas importantes durante o primeiro tempo, segurando a vitória por 1 a 0, como também brilhou nos pênaltis. Defendeu duas cobranças, selando o triunfo por 3 a 2. Com um novo calendário, não é de se duvidar que a Águia se intrometa mais na vida de ABC e América durante o Campeonato Potiguar.

Juazeirense

juazeirense

Outro time de trajetória um tanto quanto recente e feitos marcantes em seu estado, a Juazeirense foi fundada em 2006. O seu nascimento esteve ligado a disputas políticas, a partir de uma cisão no Juazeiro Social Clube, outra agremiação da cidade baiana. Pois o novo time passou a rivalizar com os vizinhos mais tradicionais e também despontou no estadual. A partir de 2012, o Cancão de Fogo alcançou a elite do Campeonato Baiano. Nem sempre emplacou boas campanhas, mas desempenhou um papel digno em diversas oportunidades. Por três vezes terminou na terceira colocação. Não à toa, já havia descolado a vaga na Série D em outras duas oportunidades, caindo nas oitavas de final para o Moto Club em 2016. A volta por cima viria em 2017. Se o clube não foi tão bem no estadual, sem passar à fase final, deu o troco contra os seus conterrâneos na quarta divisão.

Líder de sua chave na fase de grupos, a Juazeirense bateu outros dois oponentes baianos nos mata-matas. Eliminou Jacobina e Flu de Feira, antes de cruzar o caminho do América de Natal. O favoritismo era todo dos potiguares, pela tradição inegável e pelo desempenho arrasador, donos da melhor campanha até então. O que ruiu logo na visita a Juazeiro, com a vitória do Cancão de Fogo por 3 a 0. Com três gols no segundo tempo, os azarões construíam uma excelente vantagem, mas teriam que aguentar a pressão no Rio Grande do Norte. Uma situação que extrapolou os limites. Além do incômodo causado por torcedores alvirrubros no hotel onde a Juazeirense estava hospedada, o ônibus dos visitantes foi alvejado por objetos. Em campo, ao menos, os baianos abriram o placar e seguraram o empate por 1 a 1 na Arena das Dunas. Já do lado de fora, a frustração pelo América descambou em violência. Vândalos depredaram o estádio e tentaram invadir o campo. O presidente do clube de Juazeiro ainda alegou que as ameaças se seguiram após o jogo. Nada que impedisse os novatos rumo a sua estreia na Série C em 2018, único representante baiano além da dupla Ba-Vi nas três principais divisões nacionais. Do outro lado, o cenário no Dragão é de terra arrasada, com a debandada já iniciada pela diretoria.

Operário Ferroviário

operario

Por fim, a camisa mais pesada a conquistar o acesso fez sua festa nesta segunda. O Operário Ferroviário pode ser colocado entre os times mais tradicionais do interior do Brasil. Segundo clube mais antigo do Paraná em atividade, o Fantasma disputa o estadual desde a década de 1910 e acumulou 14 vice-campeonatos até os anos 1960. A sina se encerrou justamente quando poucos mantinham a esperança, em 2015. Derrotando o Coritiba nos dois jogos da decisão, os alvinegros finalmente colocaram a mão na taça e voltaram a figurar nas divisões nacionais. Presentes no inchado Brasileirão de 1979 e em outras edições das Séries B ou C, o Operário havia morrido na praia na Série D de 2010, caindo nas quartas de final para o Madureira. Infortúnio que se repetiu na mesma fase em 2015, desta vez perdendo o acesso para o Remo.

Parecia que o bom momento do Fantasma tinha ficado para trás. Sem conseguir manter a sua base, o Operário caiu no Paranaense um ano depois do título. Pior, sequer conseguiu voltar à elite estadual neste ano – com a segundona encerrada já durante o início da Série D. E não podia deixar a peteca cair no campeonato nacional, de volta graças à conquista da Taça FPF em 2016. Um prêmio de consolação que acabou sendo providencial aos ponta-grossenses. Apesar dos percalços na preparação, os alvinegros investiram no elenco para buscar a terceirona. Lideraram uma chave dificílima – contra Brusque, XV de Piracicaba e São Paulo-RS – antes de voarem nos mata-matas. Eliminaram a Desportiva com duas vitórias, antes de passarem pelo Espírito Santo nos pênaltis. Já diante do Maranhão, a vitória por 3 a 1 em São Luís deu um enorme alívio. Aumentou as expectativas para o segundo jogo, no Estádio Germano Krüger, lotado por quase nove mil torcedores. E o novo triunfo por 2 a 1 foi o estopim para a loucura que tomou as ruas de Ponta Grossa. O crescimento se firma, com a volta à Série C após 25 anos.