O jogo entre Atlético Paranaense e São Paulo teve uma arbitragem bastante contestada de Anderson Daronco, do Rio Grande do Sul. Indignado com a arbitragem, o Furacão publicou um texto raivoso criticando os erros. O problema não é a reclamação, mas o comportamento de torcedor ao tratar do adversário. Em tempos que tentamos contornar a babaquice do futebol, o machismo, racismo e homofobia, o clube deslizou e usou um termo pejorativo para tratar do adversário: chamou os são-paulinos de “bambi”, em uma provocação que só reforça preconceitos.

 “Ontem, contra o São Paulo, nossos meninos comandaram o jogo durante todo o tempo. Em nenhum momento a garotada do CT do Caju deixou a experiência de Rogério Ceni e demais bambis superar a nossa técnica e a nossa garra”.

O jogo acabou em 2 a 2 e o time paranaense reclama dos dois gols marcados pelo São Paulo. O pênalti marcado para o tricolor paulista, que conseguiu empatar o jogo, foi contestável – uma falta de Deivid em Luís Fabiano. O segundo gol surgiu de uma tentativa de um zagueiro do Furacão de cortar um cruzamento. A bola rebateu no braço de Luís Fabiano e entrou. Além disso, houve ainda um possível pênalti em Osvaldo, quando o jogo estava 1 a 1, não foi marcado a favor do São Paulo. Todos os lances polêmicos, passíveis de discussão, e já dão uma ideia de como a arbitragem foi ruim.

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Não é a primeira vez que um clube – ou um dirigente que representa o clube – se comporta de forma preconceituosa. O próprio presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, foi extremamente preconceituoso ao comentar recentemente sobre como jogador com a cara do São Paulo “tem todos os dentes” e “é bonito”, ao chamar o bairro de Itaquera de “outro mundo” e até ao relacionar o Napoli com a máfia italiana. Uma série de preconceitos destilados sem nenhuma vergonha e, aparentemente, sem nenhum arrependimento. Parece não querer entender que o mundo que ele vive não é mais aquele que ele já viveu um dia, onde dizer esses preconceitos era uma forma de fazer “humor” e agradar os torcedores, ávidos por uma forma de falar mal do rival. Aidar é só mais um, como foi Rosenberg, do Corinthians, falando do São Paulo, e outros tantos espalhados por aí.

Os dirigente e os clubes, por consequência, parecem não entender o quanto esse tipo de comportamento é nocivo em uma sociedade violenta e intolerante como a nossa. Reforçar o comportamento de grupos que manifestam ódio é uma forma de dar força a essas pessoas que se unem para oprimir minorias. É reforçar um comportamento preconceituoso ao minimizar o ódio como piada. Uma piada que, claro, é sempre contra grupos minoritários, contra gays, pobres, negros… Não é por coincidência, não é?

Chamar torcedores adversários de “favelados”, “ladrões” e “sem dentes” por serem uma torcida popular é uma forma de reforçar preconceito social contra pobres, como vemos acontecer no Brasil todo contra as torcidas conhecidas por serem “povão”. Chamar rivais de “bichas”, “bambis”, “viados” e afins também reforça o comportamento repressivo de grupos contra direitos de homossexuais, ou mesmo grupos que são agressivos e violentos contra homossexuais. reforçar esses preconceituos no estádio é uma forma de dizer à sociedade que ali aquele grupo tem menos direitos. Já explicamos aqui por que bicha é xingamento.

Sempre há quem vá dizer “Ah, mas não é bem assim, isso é um exagero”. É o famoso “é só brincadeira”, que ajuda a reforçar o comportamento opressivo, silenciosamente (às vezes nem tanto) e causa constrangimentos e traumas que seguem causando feridas por anos. Alguém que irá dizer que xingar alguém de “bicha” no estádio é só uma forma de brincadeira. Curiosamente, chamar alguém de “macaco”, mesmo no estádio, é entendido como racismo. Porque é. Assim como é homofobia chamar de “viado”, “bambi” e afins. Reforça um machismo e um preconceito dos quais o futebol é repleto, e isso precisa ser combatido, não fortalecido.

Dizer que “sempre foi assim” não ajuda. O mundo já foi muito pior, como já foi muito mais racista, e não se aceita mais. Está na hora de parar de tratarmos o futebol como um mundo à parte, onde xingar os outros é “só uma provocação”, enquanto na rua, no bar, no trabalho é uma ofensa. Enquanto acharmos que o futebol é só uma brincadeira, continuaremos a reforçar imbecilidades como “futebol é para homem” e esse tipo de bobagem.

ATUALIZAÇÃO 30/05/2014, 08h49

O Atlético Paranaense tirou o termo “bambis” da sua nota oficial, o que não exime do erro, mas ao menos é uma forma de admitir que a escolha da palavra era ruim. Tirar uma palavra preconceituosa já é um bom começo. Agora é não repetir.

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