Que se discuta personalidade, não se questiona a qualidade de Dimitri Payet. Sua conturbada saída do West Ham não foi por questões técnicas, e sim por outros entraves – sobretudo, sua culpa ao tentar forçar uma transferência. Na temporada passada, ele retornou ao Olympique de Marseille, onde já tinha vivido grandes momentos em sua primeira passagem. E nesta quinta, no Estádio Vélodrome,  o meia transformou todos os sonhos da torcida em realidade. O camisa 10 protagonizou uma atuação espetacular em uma partida de altíssimo nível. Marcou dois golaços (um deles anulado por pura besteira de Kostas Mitroglou), deu assistência, infernizou a defesa do RB Leipzig. Sobretudo, garantiu a classificação dos marselheses às semifinais da Liga Europa, graças à vitória por 5 a 2. Pela primeira vez desde 2003/04, o clube volta a se colocar entre os quatro melhores de um torneio continental.

Era de se esperar que o jogo entre Olympique e RB Leipzig fosse bastante aberto. As características dos times permitiam isso, em estilos leves e ofensivos. E o placar do jogo de ida, na Alemanha, mantinha o cenário bastante indefinido. Os Touros Vermelhos venceram por 1 a 0, em partida na qual os desfalques atrapalharam os celestes. Entretanto, com a volta de jogadores importantes, os marselheses vinham mais fortes. Demonstraram essa qualidade em um primeiro tempo eletrizante.

O Leipzig, afinal, até pareceu frustrar a multidão no Vélodrome logo aos dois minutos. Após boa trama coletiva, Jean-Kevin Augustin passou para Bruma abrir o placar. Naquele momento, o Olympique precisaria de três gols para alcançar a classificação. E a resposta veio rápido. Aos 6, já saiu o empate. A partir de um escanteio cobrado por Payet, desviado na primeira trave, Stefan Ilsanker mandou contra o próprio patrimônio. Já aos nove, a virada nasceu em um contra-ataque de manual. Após escanteio para o Leipzig, os marselheses saíram em disparada. Payet armou a jogada e Morgan Sanson finalizou duas vezes, para dois milagres do goleiro Peter Gulácsi. Contudo, a defesa alemã bobeou com o rebote e Bouna Sarr resolveu.

O gol da classificação do Olympique poderia ter saído já aos 16, em uma pintura de Payet. O camisa 10 recebeu no lado direito, ajeitou a bola e disparou um chutaço na gaveta. Porém, o lance acabou anulado. Logo após dar a assistência ao meia, Mitroglou puxou Ilsanker e o assistente assinalou corretamente a falta. Um pecado. O RB Leipzig tentou sair um pouco mais depois disso, com a movimentação de sua linha de frente. Ainda assim, os marselheses seguiam melhores na noite e chegariam ao terceiro gol (de fato) aos 38. Falta cobrada por Payet na intermediária, que Florian Thauvin desviou para dentro. Era um primeiro tempo fantástico. Pelo equilíbrio e pela intensidade dos times, para não deixava nada a desejar em relação aos jogaços da Champions na semana.

Já na volta para o segundo tempo, o Olympique ficou a um triz de matar o confronto. Não conseguiu porque Mitroglou estava em uma noite tenebrosa. Na primeira chance, de frente para o gol, chutou em cima de Gulácsi. O goleiro fez a defesa e também barrou Jordan Amavi no rebote. Pouco depois, o grego saiu no mano a mano com o arqueiro, mas tentou bater no canto e mandou para fora. A oportunidade que o RB Leipzig queria para respirar. E o segundo gol dos visitantes saiu aos 10 minutos. Boa jogada de Naby Keïta, que enfrentou quatro na marcação e encontrou um espaço para tocar de letra. Augustin chutou prensado e recolocou os Touros Vermelhos na partida, em tento que lhes dava de novo a vantagem no placar agregado.

O problema do Leipzig? Um tal de Payet. O jogo definitivamente era do camisa 10. E ele decidiu de maneira brilhante aos 15 minutos, anotando o quarto gol de sua equipe. Recebeu na entrada da área, pedalou sobre a marcação, fintou e criou espaço dentro da área. Então, deu um chute maravilhoso com a parte de fora do pé, mandando no ângulo de Gulácsi, sem qualquer chance de defesa. Desta vez nem Mitroglou – que se envolveu em outro entrevero na área – não conseguiu atrapalhar. Noite de gala para o capitão, que fez as arquibancadas do Vélodrome entrarem em erupção.

A partir de então, a responsabilidade passava ao RB Leipzig, necessitando de um gol. O Olympique se conteve um pouco mais na defesa, com grande participação de Luiz Gustavo na linha de zaga. Mas, nos instantes finais, o único intuito era brecar a blitz dos alemães. Emil Forsberg e Yussuf Poulsen entraram durante a etapa complementar, para reforçar o setor ofensivo, embora Timo Werner tenha sido deixado no banco. Os Touros Vermelhos até poderiam ter marcado, em uma boa chegada de Augustin, assim como em arremate de Poulsen que o goleiro Yohann Pelé salvou. No entanto, aos 48, coube o quinto gol dos marselheses. A partir de uma cobrança de escanteio, na qual Gulácsi subiu desesperado à área adversária, os anfitriões armaram o contragolpe e Hiroki Sakai arriscou da intermediária, com a meta vazia.

A classificação é um enorme sinal de força do Olympique de Marseille. Dentro de um projeto de investimento e de recuperação do clube, a conquista da Ligue 1 ainda aparece como objetivo futuro. Contudo, os marselheses brigam para ir à próxima Liga dos Campeões e agora avançam em uma campanha já histórica na Liga Europa. Há um relativo equilíbrio nas semifinais, embora Atlético de Madrid e Arsenal estejam um passo à frente por seus elencos mais caros. De qualquer forma, os franceses podem continuar ambicionando. Possuem um estádio fantástico, poderio ofensivo e qualidade individual. Se conseguirem se segurar na defesa, dá para brigar por mais. E pelo caráter demonstrado contra um adversário duro como o Leipzig, não há quem amedronte os celestes.