Você pode até querer discutir o quanto a sorte ajudou Ederson. Os chutes de Romelu Lukaku e Juan Mata, em sequência, bateram no brasileiro – embora não se negue a coragem do camisa 31 e, sobretudo no segundo arremate, sua capacidade em fechar o ângulo do adversário, muito bem posicionado. Independentemente das avaliações, ainda assim, o goleiro termina como herói no Dérbi de Manchester. Foram as suas duas intervenções providenciais que garantiram a vitória do City. Dois milagres que acabam por sublinhar a ótima temporada que o brasileiro vive em seu novo clube, logo se colocando como um dos protagonistas na campanha histórica.

Não há dúvidas que o Manchester City apostava alto em Ederson. O goleiro vinha de um ano excepcional pelo Benfica. Juntava-se a isso o seu estilo de jogo, ideal àquilo que pede Pep Guardiola, e as necessidades vividas no Estádio Etihad. Depois de meses claudicantes na meta celeste, entre a saída de Joe Hart, os vacilos de Claudio Bravo e a falta de confiança em Willy Caballero, era preciso dar uma resposta. Por isso mesmo, o Xeique Mansour não economizou no cheque, ao transformar o jovem de 23 anos (completou 24 em agosto) no segundo arqueiro mais caro da história – abaixo apenas de uma lenda chamada Gianluigi Buffon.

O início de Ederson não foi fácil. O goleiro se saiu mal durante a pré-temporada. Cometeu algumas falhas que passaram a criar questionamentos sobre a validade do investimento, em um jogador que havia se provado tão pouco em primeiro nível. Somando toda a sua trajetória profissional, o brasileiro tinha pouco mais de 100 partidas na elite do Campeonato Português. O primeiro mérito do novato foi justamente não sucumbir à pressão. Confiou em seu trabalho e logo se encaixou às expectativas do City.

Seu moral se elevou com a torcida em pouco tempo. Mais especificamente, na goleada contra o Liverpool, quando se arriscou em uma saída de gol e, mesmo com o rosto todo machucado, voltou rapidamente à equipe. E então, veio sua sequência afirmativa na meta do City. Além de manter a segurança atrás, também dá sua contribuição ofensiva. Distribui seus chutes muito bem nas saídas em velocidade, armando contra-ataques, e não se afoba quando precisa ter o controle da posse de bola ao redor de sua área. De qualquer maneira, de um goleiro cobra-se aquilo que se faz sob as traves. O camisa 31 corresponde.

Ederson não costuma ser muito exigido durante as partidas. Até pelo estilo de jogo propositivo, o Manchester City é o time das cinco grandes ligas europeias que menos sofre chutes de seus adversários. Por isso mesmo, o brasileiro não pode dar margem ao erro. E seu aproveitamento é bom. São 23 defesas em 16 rodadas, metade do que já fez David de Gea nesta Premier League, por exemplo. Mas o arqueiro consegue pegar 67% dos chutes certos contra a sua meta – muitas vezes em chances claras, considerando a forma como o time acaba se expondo aos contra-ataques. Isso sem contar as saídas de gol, bastante precisas, que não entram nestas estatísticas.

Neste domingo, Ederson teve sua partida de maior exigência na Premier League. Foram seis defesas ao todo. Trabalhou uma vez no primeiro tempo e teve suas principais ações no segundo. Um chute rasante de Rashford não encontrou o caminho das redes por uma intervenção atenta do camisa 31. Até que a consagração viesse nos arremates à queima-roupa de Lukaku e Mata. Duas defesas que, enfim, ratificam a aposta milionária feita pela diretoria do Manchester City.

Ederson eleva o seu nível na Inglaterra. E isso respinga diretamente na seleção brasileira. Atualmente, o Brasil conta com goleiros bem menos experimentados do que em outros anos, firmados apenas neste ciclo pós-2014. Todavia, as duas principais opções de Tite chegam ao melhor momento na hora certa. Tanto Ederson quanto Alisson aparecem entre os melhores da Europa neste início de temporada, e oferecem até mesmo estilos diferentes à equipe nacional. Mas, por enquanto, o objetivo está em seus clubes. Em Manchester, Ederson tem a chance marcar seu nome quase que instantaneamente. E agarra a oportunidade.