Calcada numa geração com nomes de grande talento em todos os setores, e que se destacariam inclusive em gigantes europeus, a seleção da Áustria fez papel muito bom nas Copas de 1978 e 1982, chegando à segunda fase e terminando entre as oito melhores em ambas. Nestes torneios, além de reviver a boa tradição do futebol do país, um dos mais fortes da Europa nas décadas de 1930 e 1950, adicionando uma boa dose de força e competitividade ao seu velho estilo refinado, também disputou jogos marcantes (por bons e maus motivos) contra a vizinha Alemanha Ocidental. O último período de destaque da seleção centro-europeia é o tema desta semana em Azarões Eternos.

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Uma tradição de futebol refinado

O futebol austríaco já havia vivido então dois períodos de força incontestável dentro da Europa, mostrando ao mundo duas fabulosas gerações. Na década de 1930, houve o célebre Wunderteam, a seleção dirigida pelo brilhante estrategista Hugo Meisl, que reunia um punhado generoso de jogadores extremamente técnicos e carismáticos, tendo talentos como os atacantes Josef Bican e Matthias Sindelar, o “Homem de Papel” (mais tarde, surgiria ainda o extraordinário goleador Franz “Bimbo” Binder). Como uma pequena amostra do poder de fogo daquele time, basta dizer que em maio e setembro de 1931, bateram duas vezes a Alemanha por 6 a 0 em Berlim e 5 a 0 em Viena.

No ano seguinte, aquela equipe conquistou a Copa Internacional Europeia (espécie de precursora da Eurocopa, mas disputada em formato de liga, em jogos de ida e volta). Dois anos depois, chegaria à Copa do Mundo da Itália como favorita, despachando franceses e húngaros nas duas primeiras partidas, antes de cair nas semifinais diante da anfitriã num jogo marcado por uma arbitragem bastante controversa do sueco Ivan Eklind (inclusive no lance do único gol do jogo, de Guaita, em que o goleiro Platzer foi empurrado para dentro da meta).

Os clubes austríacos também davam constantes mostras de seu poderio na Copa Mitropa, torneio que reunia clubes centro-europeus e era disputado anualmente em jogos eliminatórios em ida e volta, duas décadas antes da criação da Copa dos Campeões. Entre 1930 e 1936, os times do país levantaram quatro das sete edições do torneio no período.

A Áustria de 1954

No período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial (durante a qual a Áustria foi anexada ao território alemão pelo regime nazista), houve também uma excelente segunda geração, que brilhou na Copa do Mundo de 1954. Depois de surrar Portugal por 9 a 1 nas Eliminatórias, em setembro do ano anterior, o time estreou no torneio realizado na vizinha suíça batendo a Escócia e em seguida goleando a Tchecoslováquia por 5 a 0. Nas quartas de final, despacharam os donos da casa numa épica e um tanto esdrúxula vitória por 7 a 5, na partida com o maior número de gols da história dos Mundiais.

Nas semifinais, entretanto, toparam com uma ascendente Alemanha, que foi para o intervalo em vantagem de 1 a 0. Na volta, os alemães ampliaram, mas logo a Áustria descontou e ensaiou uma reação. Ficou por ali. A seleção dirigida por Sepp Herberger, de estilo de jogo mais pesado que os classudos austríacos, desandou a marcar na etapa final, goleando por 6 a 1, um resultado que surpreendeu até aos próprios vencedores. Na decisão do terceiro lugar, ainda houve um consolo, ao derrotarem nada menos que os uruguaios, campeões da Copa anterior, por 3 a 1, resultado que manteve o prestígio de suas estrelas.

A mais brilhante delas era Ernst Ocwirk, centromédio (o atual volante) de grande estatura, mas ainda assim incrivelmente técnico e ofensivo. Naqueles meados de anos 50, era considerado como o melhor de sua posição no mundo, e mais tarde seguiria para a Sampdoria italiana. Além dele, destacavam-se o goleador Erich Probst, vice-artilheiro daquela Copa, e uma retaguarda firme comandada por Gerhard Hanappi e Ernst Happel. Se nos anos 1950 ainda havia talento e uma seleção respeitável, a década seguinte representou o ponto mais baixo do futebol do país até então.

Longo hiato de 20 anos

Depois de desistir de disputar a fase de classificação para a Copa de 1962, alegando falta de dinheiro, os austríacos passaram por um vexame ainda maior no torneio seguinte, terminando na lanterna com apenas um ponto ganho num grupo com Hungria e Alemanha Oriental. Pela primeira vez na história, a seleção ficou fora de Mundial ao cair nas Eliminatórias. Também na recém-criada Copa Europeia de Nações (ou Eurocopa), a Áustria colecionou fiascos: na primeira edição, depois de superar a Noruega, caiu com duas derrotas elásticas diante da França. Já na seguinte, foi desclassificada pela então inexpressiva Irlanda.

Curiosamente, num primeiro momento, os bons resultados nos amistosos ainda redimem a equipe, mas uma goleada de 6 a 0 diante da Tchecoslováquia sofrida em casa às vésperas da Copa do Mundo de 1962 arrasa definitivamente o moral da seleção. Um lento processo de reconstrução começaria em 1968, sob o comando do técnico Leopold Stastny, nascido na atual Eslováquia e que vinha fazendo um bom trabalho dirigindo o Wacker Innsbruck.

O ponto alto desse período foi a campanha nas Eliminatórias para a Copa de 1974. O Grupo 1, que também contava com Suécia, Hungria e Malta, terminou num incrível tríplice empate em pontos entre austríacos, suecos e húngaros. Pelo saldo de gols, os magiares foram descartados, sobrando as duas outras seleções para decidir a vaga no Mundial da Alemanha Ocidental num jogo extra, realizado em Gelsenkirchen, em novembro de 1973. Com o campo coberto de neve, os escandinavos abriram o placar com Sandberg e ampliaram num pênalti para lá de contestável convertido por Bo Larsson. Hattenberger descontou ainda na primeira etapa, mas a reação austríaca parou por aí.


O fracasso em mais uma fase de classificação, desta vez para a Eurocopa de 1976, culminou na saída de Stastny em setembro de 1975, após sete anos no cargo, sucedido rapidamente pelo iugoslavo Branko Elsner como interino até o fim do ano. No início de 1976, Helmut Senekowitsch era anunciado como novo treinador. Antigo atacante de experiência internacional, disputou a Copa de 1958 pela Áustria e chegou a atuar por alguns anos no futebol espanhol, defendendo o Betis. No fim da carreira dentro das quatro linhas, de volta ao país, fora comandado de Stastny no Wacker Innsbruck.

No mesmo ano em que pendurou as chuteiras, iniciou a carreira de técnico no Grazer AK. Em seguida, passou ao Vöest Linz, o qual levou ao único título austríaco de sua história, em 1974. Quando chegou à seleção, vinha de uma temporada no comando do Admira/Wacker. Considerado um técnico bom de papo, desprezava estrelismos. Em troca, recebia a confiança e a compreensão do elenco, ajudando a formar uma equipe coesa. Era com isso que contava para tentar reposicionar a seleção no cenário internacional.

O momento do futebol austríaco

Pouco depois do título histórico do Vöest, o futebol austríaco experimentaria uma pequena revolução, com a criação da Bundesliga local, um torneio mais enxuto que a antiga Nationalliga (que agora passaria a representar a segunda divisão). Na primeira temporada da nova competição, em 1974/75, o número de clubes na elite foi reduzido de 18 para apenas dez, que se enfrentavam em quatro turnos. A ideia era fortalecer a competitividade e impulsionar o profissionalismo. Naquele período, outra mudança sensível era o fato de o futebol austríaco deixar de ser apenas importador para se tornar também exportador.

Se nos dez anos anteriores os atletas do país atuando no exterior se resumiam a casos pontuais (como o meia Franz Hasil, vencedor da Copa dos Campeões de 1970 com o Feyenoord), agora o contingente havia aumentado. No próprio clube holandês, jogava o ponta Willy Kreuz. Na vizinha Alemanha Ocidental, atuava a dupla de volantes Josef Hickersberger e Roland Hattenberger – o primeiro no Kickers Offenbach e depois no Fortuna Düsseldorf, e o segundo no Fortuna Köln e em seguida no Stuttgart. O líbero Eddy Krieger defendia o Club Brugge belga. E o meia Kurt Jara jogava no Valencia.

Na época, o país também contava com pelo menos dois treinadores de ponta fazendo carreira no futebol europeu. Ernst Happel, que defendera a seleção como jogador nas Copas de 1954 e 1958, havia se tornado um treinador conceituado ao levar o Feyenoord ao título europeu em 1970. Depois de uma passagem pelo Sevilla, começaria outra pequena revolução no Club Brugge, ao qual levaria a outra decisão da Copa dos Campeões (derrotado pelo Liverpool em Wembley, em 1978). Nas Eliminatórias e na Copa do Mundo da Argentina, seria o encarregado de dirigir a seleção da Holanda.

Outro respeitável estrategista era Max Merkel. De carreira menos notável na seleção como jogador (fez só um jogo), destacou-se mesmo como o mentor de títulos surpreendentes. Após um início na seleção holandesa, no Rapid Viena e no Borussia Dortmund, aportou no 1860 Munique, levando o clube à conquista de seu único título alemão em 1966. Dois anos depois, já repetia o milagre em outro clube, o Nürnberg, vencendo sua única Bundesliga (após oito títulos no formato anterior) em 1968. Mudando-se para a Espanha, também passou pelo Sevilla, antes de levar o Atlético de Madrid ao título da liga em 1973.

Entre os clubes, quem melhor se aproveitaria desse novo momento para obter bons resultados no âmbito continental seria o Austria Viena. Na Recopa europeia em 1977-78, o clube eliminaria Cardiff e Lokomotiva Kosice nas primeiras fases, superando em seguida o Hajduk Split e o Dínamo Moscou, ambos nos pênaltis, para chegar à decisão contra o Anderlecht, equipe então em alta na Europa – e especialmente naquele torneio. A derrota por 4 a 0 no Parque dos Príncipes parisiense não desanimou: no ano seguinte, ainda que um tanto aos trancos e barrancos, o Austria Viena também chegaria à semifinal da Copa dos Campeões (repetindo o feito do Rapid Viena de 1961), caindo diante dos suecos do Malmö.

As eliminatórias de 1978

Incluída no Grupo 3 europeu da fase classificatória para o Mundial da Argentina, a Áustria tinha como maior adversária a Alemanha Oriental, favorita à vaga depois do bom desempenho na Copa anterior. As zebras da chave eram Turquia e Malta. Porém, os alemães do leste tropeçaram logo na estreia, empatando em casa com os turcos em 1 a 1. Os austríacos bateram Malta por 1 a 0 fora de casa e sonoros 9 a 0 em casa (com seis gols do centroavante Hans Krankl) – placares mimetizados pelos alemães. E, entre um jogo e outro, fizeram o que os rivais não conseguiram: superaram a Turquia em Viena por 1 a 0.

O equilíbrio também foi a marca dos dois confrontos diretos, terminados com empate em 1 a 1 – ainda que em ambos os austríacos tenham saído na frente. Assim, no dia 30 de outubro de 1977, em Izmir, bastava ao time de Senekowitsch uma vitória simples sobre a Turquia para carimbar o passaporte para o Mundial. Um gol de Herbert Prohaska após um contragolpe rápido na etapa final decretou o 1 a 0 e pôs fim à ausência de 20 anos da seleção no torneio. Curiosamente, foi também a única vez em que os austríacos se classificaram para uma Copa disputada fora do continente europeu.

A Áustria de 1978

A seleção que trazia a Áustria de volta a uma Copa se distanciava do futebol técnico e refinado, tradicional do país até a década de 1950. Agora, privilegiava-se a tenacidade, o jogo coletivo e o trabalho duro. Mas ainda havia espaço para o talento. Os maiores expoentes dessa qualidade eram dois jovens de 22 anos (na época da classificação), lançados ainda por Leopold Stastny, em seu período final à frente da seleção: o zagueiro Bruno Pezzey, de estilo elegante e gosto por sair jogando, e o meia Herbert Prohaska, armador recuado, de grande visão de jogo e ótimos passes.

Os destaques, porém, não se resumiam a esses dois: havia um goleiro seguro em Friedrich Koncilia, dois laterais bons de apoio em Robert Sara (o capitão do time) e Gerhard Breitenberger, um líbero experiente em Eddy Krieger, um marcador incansável no volante Roland Hattenberger, dois meias dinâmicos em Josef Hickersberger e (principalmente) Josef Stering, um armador versátil em Kurt Jara, um ponta habilidoso em Willy Kreuz, um atacante incisivo em Walter Schachner (descoberto no pequeno Alpine Donawitz, da segunda divisão) e, especialmente, um goleador implacável em Hans Krankl.

Centroavante do Rapid Viena, carismático e com apurado faro de gols, Krankl vinha se firmando como uma espécie de Gerd Müller austríaco. Com apenas 18 para 19 anos, emprestado ao Wiener AC durante a temporada 1971/72, balançou as redes 27 vezes em 26 partidas pela Nationalliga. Dois anos depois, já de volta aos Hütteldorfer, superou outra vez a média de um gol por jogo – fez 36 em 32 partidas. Mas nada perto do recorde ao qual o país assistiria em 1977/78: fantásticos 41 gols anotados em 36 jogos (ainda hoje a melhor marca em uma temporada), que lhe valeram a Chuteira de Ouro europeia naquele ano.

A campanha na Copa de 1978

Para o Mundial, o time sofreu algumas alterações, mas apenas um desfalque importante: Josef Stering, titular em todos os jogos das Eliminatórias, sofrera grave lesão do joelho em novembro, pouco depois da classificação, durante uma partida do Wacker Innsbruck pelo Campeonato Austríaco. Jogador batalhador, um verdadeiro dínamo do meio-campo, chegou a ser inscrito na lista prévia de 40 jogadores enviada à Fifa, mas infelizmente não se recuperou a tempo de jogar a Copa. Por outro lado, na comissão técnica, os austríacos teriam o reforço do experiente Max Merkel na função de diretor de futebol.

Na primeira fase, os austríacos teriam – a exemplo de 1958 – o Brasil como adversário num grupo muito equilibrado e imprevisível, completado por Espanha e Suécia. Para a estreia contra os espanhóis no dia 3 de junho no estádio José Amalfitani, em Buenos Aires, o técnico Senekowitsch não pôde contar com Krieger (suspenso) e Hattenberger (lesionado), precisando alterar a estrutura tática do time: enquanto Obermayer entrava na zaga, Hickersberger assumia a função de primeiro volante, mantendo Prohaska como armador recuado. Dessa forma, Kreuz, Jara, Schachner e Krankl formariam um quadrado ofensivo, com os dois primeiros atuando pelos lados do meio-campo e o terceiro encostando no centroavante.

Mesmo com as alterações, o time não se desarrumou. Abriu o placar numa escapada de Schachner logo aos nove minutos, sofreu o empate com Dani num chute de virada desviado na defesa aos 21 e ainda viu Sara salvar de cabeça, sobre a linha, uma finalização de Rubén Cano. Na etapa final, depois de desperdiçar várias chances, chegaria enfim à vitória aos 30 minutos, com Krankl demonstrando seu oportunismo e presença de área ao aproveitar um rebote mal afastado de uma bomba de Jara. Com o empate em 1 a 1 entre Brasil e Suécia no outro jogo (graças à polêmica anulação de um gol de Zico após cobrança de escanteio), os austríacos já largavam na liderança.

Embora a atuação da estreia tenha agradado bastante, inclusive à imprensa internacional, Helmut Sekenowitsch resolveu mudar o time para o jogo contra a Suécia. Mesmo sem ter de novo Hattenberger, que voltou a se lesionar num treino, o treinador sacou Schachner do time para reforçar o combate no meio-campo, com a entrada do líbero Eddy Krieger adiantado para a função de volante. Em campo, o bloqueio funcionou para neutralizar a pressão sueca inicial, ajudado pela má pontaria do adversário. E aos 42 minutos, Krankl foi deslocado por Nordqvist na área. O artilheiro bateu bem o pênalti e abriu o placar – que poderia ter se transformado em goleada no segundo tempo, pelas tantas chances perdidas.

Surpreendentemente, a vitória valeu também a classificação antecipada para a segunda fase, já que Brasil e Espanha ficaram no 0 a 0 (e desta vez, os brasileiros escaparam de perder graças a uma bola salva por Amaral em cima da linha). Assim, a Áustria já somava quatro pontos, contra dois do Brasil e um de Suécia e Espanha. E poderia até perder por um gol de diferença para o time de Cláudio Coutinho na última rodada que manteria a primeira posição do grupo. Senekowitsch manteve a mesma equipe titular, que perdeu por 1 a 0, gol de Roberto Dinamite, e quase não suou a camisa.

Na etapa seguinte, um novo quadrangular. Ainda que a cotação dos austríacos tivesse crescido durante a boa primeira fase, poucos acreditavam que a equipe avançaria à final, ou mesmo à decisão do terceiro lugar, tendo pela frente Holanda, Itália e Alemanha Ocidental. Mas também não estava nos prognósticos o que aconteceu na primeira partida, contra os holandeses de Ernst Happel: em baixa, após uma primeira fase decepcionante, a Laranja andou até perdendo o favoritismo do jogo, mas desencantaria justamente contra a equipe do país de seu treinador.

A Áustria, que repetiu a escalação dos dois jogos anteriores, teve atuação desastrosa e foi para o intervalo perdendo já por 3 a 0. Sofreu o quarto gol logo no início da etapa final e a pouco mais de dez minutos do fim, descontou num bonito tento de Obermayer, encobrindo o goleiro Schrijvers. Mas a Laranja ainda ampliaria, fechando em humilhantes 5 a 1. A goleada fez com que Senekowitsch (muito criticado por não ter mexido no time durante a partida) trouxesse de volta Schachner – no lugar de Jara – para o jogo contra a Itália. Também houve uma troca na lateral esquerda, com Strasser no lugar de Breitenberger.

Por ironia, seria exatamente Strasser o responsável pelo gol da vitória italiana por 1 a 0, deixando Paolo Rossi se antecipar a sua tentativa de recuo para Koncilia. Outra vez sem jogar bem, a Áustria via morrerem suas chances de classificação, ainda que já considerasse cumprida sua missão no Mundial. Porém, ainda havia um grand finale: depois de surpreender e decepcionar ao longo do torneio, a equipe se despediria da Argentina com um resultado para a história.

Com remotas chances de avançar à final, os alemães queriam vencer os austríacos para se garantirem pelo menos na disputa do terceiro lugar e tentarem se colocar no pódio pela quarta Copa do Mundo seguida. Pelo retrospecto, parecia tarefa fácil: não perdiam para os vizinhos desde aquelas duas goleadas sofridas em 1931. E saíram na frente no duelo em Córdoba aos 19 minutos, quando Rummenigge veio tabelando com Dieter Müller pela direita até entrar na área e tocar por baixo de Koncilia. Foi o suficiente para irem ao intervalo em vantagem.

Na volta, a Áustria empatou num desvio de Berti Vogts contra a própria rede e passou à frente numa linda jogada de Krankl, recebendo cruzamento da esquerda, girando e chutando sem deixar cair, um golaço. A Alemanha ainda empatou novamente, em cabeçada de Holzenbein, e parecia ter frustrado a grande partida dos austríacos. Mas Krankl tinha outras ideias.

A dois minutos do fim da partida, o centroavante apanhou um passe pelo alto no lado esquerdo do ataque, ganhou na corrida de Rüssmann, deu uma finta seca que deixou Kaltz caído e tocou rasteiro, na saída de Sepp Maier. O gol que levou o narrador Edi Finger da TV austríaca a um êxtase insano (seu grito de “Gol! Gol! Gol! Gol! Estou ficando maluco!” foi eternizado no país) entrou para a história do confronto entre as duas seleções e da própria Copa do Mundo.

Entre a Argentina e a Espanha

O bom desempenho no Mundial também credenciaria os destaques individuais: Krankl seria negociado pelo Rapid com o Barcelona e logo em sua primeira temporada terminaria como artilheiro do Campeonato Espanhol (29 gols em 30 partidas), além de ajudar os azul-grenás a conquistarem o título da Recopa europeia, balançando as redes na final contra o Fortuna Düsseldorf, já na prorrogação. Em junho de 1979, Koncilia e Pezzey (que trocaria o Wacker Innsbruck pelo Eintracht Frankfurt, levantando a Copa da Uefa em 1980) seriam convocados para a Seleção da Fifa que enfrentaria a Argentina no Monumental de Nuñez, no jogo comemorativo do primeiro aniversário do título mundial albiceleste.

Em seguida viriam as Eliminatórias para a Eurocopa de 1980. Num grupo bastante equilibrado, os austríacos não se classificariam (a única vaga ficaria com os belgas), mas cumpririam ótima campanha – sua melhor nessa fase até a do torneio de 2016. A equipe, agora treinada por Karl Stotz, bateria fácil a Noruega (4 a 0 em Viena e 2 a 0 em Oslo), venceria a Escócia em casa (3 a 2) e empataria em Glasgow (1 a 1), também ficaria na igualdade nos dois jogos contra a Bélgica (1 a 1 em Bruxelas e 0 a 0 em Viena) e perderia apenas para Portugal em casa (1 a 2), compensando com uma vitória em Lisboa pelo mesmo placar.

Com Obermayer se firmando na zaga e Hattenberger de volta ao time, a Áustria também apresentou boas novidades durante aqueles jogos, como o lateral-esquerdo Dieter Mirnegg, o meia Ernst Baumeister, o atacante Felix Gasselich e o curinga Heribert Weber, capaz de atuar como volante, meia ou zagueiro. No fim de 1979, também retornava à seleção o atacante Kurt Welzl, fora das convocações havia três anos. Mesmo ficando de fora da Euro, os austríacos percebiam que seu bom momento ainda não tinha acabado.

Sorteada no Grupo 1 das Eliminatórias para a Copa de 1982, a Áustria teria grandes chances de voltar ao Mundial: na chave, ponteada pela Alemanha Ocidental, a equipe era a mais cotada para conquistar a segunda vaga, à frente da Bulgária, enquanto Finlândia e Albânia apenas fariam figuração. E de fato, foi exatamente isso que aconteceu: o time de Karl Stotz venceu todos os jogos contra as duas seleções mais fracas, perdeu os dois contra os alemães-ocidentais (que se classificaram com 100% de aproveitamento) e superaram os búlgaros com uma vitória de 2 a 0 em Viena e um 0 a 0 em Sófia.

No processo, novos nomes surgiram. O goleiro Herbert Feurer, do Rapid Viena, passou a se revezar com Koncilia. Já para o lugar de Robert Sara, que se aposentou após longa carreira na seleção, despontaram dois laterais direitos: Hans Dihanich e Bernd Krauss (que nascera em Dortmund e se naturalizara austríaco após conquistar a titularidade no Rapid). Enquanto isso, no ataque, surgiam novos nomes como Gernot Jurtin, do Sturm Graz, e Christian Keglevits, outro do Rapid.

Outra mostra de que os jogadores do país seguiam em alta era o contínuo êxodo para ligas mais atraentes da Europa. Na temporada 1980/81, a da reabertura dos portos na Serie A italiana, o meia Herbert Prohaska, condutor do jogo da seleção, foi o escolhido para ocupar a vaga de estrangeiro na Inter de Milão, detentora do scudetto. No ano seguinte, seria a vez de Walter Schachner e Dieter Mirnegg migrarem para o Calcio, assinando com Cesena e Como, respectivamente. Já considerado o melhor líbero da Europa, Bruno Pezzey seria fortemente cogitado para fazer o mesmo, mas o Eintracht Frankfurt o seguraria de todas as formas. Campeão holandês e vice da Copa da Uefa com o AZ, Kurt Welzl seria contratado pelo Valencia.

O tranquilo caminho nas Eliminatórias, entretanto, não convenceu a todo mundo. Descontente com uma suposta apatia de jogadores e torcida em relação à seleção, o presidente da Federação Austríaca, Karl Sekanina, entrou em atrito com Karl Stotz e acabou demitindo-o no fim de 1981, enquanto tentava um acordo com o Hamburgo pela liberação de Ernst Happel para comandar a Áustria na Copa. Enquanto isso, entregou a direção da equipe a Georg Schmidt, auxiliar técnico da seleção desde os tempos de Leopold Stastny e agora assistido por Felix Latzke, treinador do Admira/Wacker.

O desempenho na Espanha

No Mundial espanhol, os austríacos ficaram num grupo a princípio considerado fácil. Tinham de novo pela frente, é verdade, a Alemanha Ocidental, que já espantara o trauma do “Milagre de Córdoba” com as duas vitórias no confronto direto pelas Eliminatórias. Aliás, a presença dos vizinhos no grupo impediu a vinda de Ernst Happel, já que a federação alemã se negou a liberar o treinador, sob o pretexto de ele conhecer muito bem os jogadores do país. As duas outras equipes do grupo, Chile e Argélia, em tese não eram candidatas a surpreender. De fato, no que concerne à Áustria, não houve surpresas da parte deles, como veremos.

A estreia na Copa aconteceu no dia 17 de junho, em Oviedo, contra os chilenos. Apesar da troca de técnicos, o time titular para o torneio teve poucas alterações em relação ao das Eliminatórias. Koncilia foi mantido no gol, Krauss venceu a concorrência de Dihanich na lateral-direita, Obermayer recuperou a vaga no miolo de zaga, tendo Pezzey como líbero que saía para o jogo. Mirnegg, em baixa no Como, acabou sequer convocado, abrindo uma chance para o novato Josef Degeorgi no lado esquerdo da defesa. No meio, Hattenberger continuava como volante fixo à frente da zaga, auxiliado na contenção por Weber. Prohaska e Hintermayer eram os armadores, com Schachner e Krankl na frente.

Os austríacos abriram o placar logo aos 21 minutos, num cruzamento de Krauss para a cabeçada de Schachner. Tiveram sorte pouco depois, quando Carlos Caszely chutou para fora o pênalti que ele próprio havia sofrido. Mas chegaram a uma vitória justa por terem criado as melhores chances e raramente corrido perigo. A surpresa daquela primeira rodada aconteceu mesmo no outro jogo, disputado no dia anterior, em que a Argélia bateu a Alemanha por 2 a 1 em Gijón. Embalados, os argelinos seriam o próximo adversário dos austríacos.

O calor daquela tarde de 23 de junho no Estádio Carlos Tartiere parecia favorecer os argelinos, que dominaram o primeiro tempo. Mas, na volta do intervalo, os austríacos se reorganizaram e marcaram duas vezes antes da metade da etapa final: Schachner, em lance de oportunismo, e Krankl, num belo chute de fora da área, deram a vitória aos europeus, que assumiram a liderança isolada do grupo (quatro pontos, contra dois de alemães e argelinos e zero dos chilenos) e ficaram bem perto da classificação.

Apesar da enorme polêmica envolvendo a última rodada da segunda fase na Copa de 1978, quando os argentinos entraram para enfrentar os peruanos já sabendo do resultado de Brasil x Polônia, disputado horas antes, a Fifa não alterou a tabela da Copa de 1982 no sentido de marcar como simultâneos os dois jogos da última rodada da primeira fase. Pior: as partidas eram disputadas em dias diferentes, com os cabeças de chave atuando no dia seguinte. A displicência da Fifa causaria outro escândalo no Mundial da Espanha, envolvendo exatamente os austríacos.

Na quinta-feira, 24 de junho, a Argélia chegou a abrir 3 a 0 contra o Chile no primeiro tempo, mas baixou o ritmo na etapa final e permitiu que a Roja descontasse para 3 a 2. Com o resultado, chegou aos mesmos quatro pontos dos austríacos, mas em inferioridade no saldo (zero contra três). No dia seguinte, a Áustria – que avançaria mesmo com uma derrota por dois gols de diferença – enfrentaria a Alemanha Ocidental – que tinha a obrigação de vencer por qualquer placar.

O confronto, que ficaria conhecido como a “Vergonha de Gijón”, teria apenas cerca de 15 minutos de jogo disputado, no sentido de empenho. Os alemães abriram o placar com o tanque Horst Hrubesch aos 11 minutos e pouco depois passaram a tocar a bola de modo desinteressado, no que foram acompanhados pelos austríacos – exceto por Schachner, que continuou correndo e lutando, além de levar um cartão amarelo por reclamação. O resultado de 1 a 0 garantia ambas as equipes (com os alemães em primeiro pelo saldo de gols) e eliminava os argelinos. Nas arquibancadas, o público – que incluía espanhóis, mas também muitos argelinos – vaiava os dois times e protestava com gritos de “fora” e “Argélia”.

Na segunda fase, a Áustria teria pela frente França e Irlanda do Norte no triangular sediado no Estádio Vicente Calderón. O jogo contra os franceses abriria a etapa, e Georg Schmidt se mostrava confiante num bom resultado, até numa vitória, já que os Bleus vinham de campanha bastante irregular na primeira fase, terminando atrás da Inglaterra no Grupo 4 e tendo vencido apenas o Kuwait. Entretanto, aquele jogo marcaria a grande arrancada da seleção de Michel Hidalgo, que, mesmo desfalcada de Platini, venceria por 1 a 0, gol de falta do meia Bernard Genghini, e perderia várias chances de ampliar o placar.

Decepcionado, Schmidt já falava em deixar o cargo após a Copa. Para o jogo contra a Irlanda do Norte, o segundo do triangular, sacou nada menos que cinco jogadores – entre eles o cão de guarda Hattenberger e o goleador Krankl – apostando numa escalação mais ofensiva, necessária pela obrigatoriedade de vencer para manter viva a remota chance de seguir no Mundial. Sob um calor de 40 graus do verão madrilenho, no entanto, os austríacos foram para o intervalo em desvantagem graças a um gol de Billy Hamilton. Na etapa final, Pezzey empatou com um lindo gol de calcanhar e Hintermaier virou com uma bomba de falta. Mas Hamilton empatou novamente de cabeça, decretando a eliminação da Áustria.

Depois de 1982: sobrevida e decadência definitiva

A eliminação dos austríacos dos três grandes torneios que vieram a seguir (as Eurocopas de 1984 e 1988 e a Copa do Mundo de 1986) pode indicar uma decadência técnica ou o fim de uma grande geração, mas não foi exatamente esse o caso. Prohaska, por exemplo, trocou a Inter por uma Roma que entraria para história do Calcio ao vencer o scudetto na temporada seguinte ao Mundial, em 1983. O armador formava um quarteto rotatório de meio-campo com Falcão, Ancelotti e Di Bartolomei. Schachner, por sua vez, faria longa carreira também no futebol italiano, transferindo-se do Cesena para o Torino (com o qual foi vice-campeão da Serie A em 1985 ao lado de Junior) e depois para o Avellino, onde ficaria até 1988.

Os clubes do país também cumpriram campanhas interessantes nas copas europeias: o Austria Viena chegou às semifinais da Recopa em 1983 (deixando o Barcelona de Maradona pelo caminho) e o Rapid foi finalista do mesmo torneio dois anos depois, perdendo para o Everton. Além deles, o Tirol Innsbruck (novo nome do Wacker) atingiu as semifinais da Copa da Uefa em 1987. A própria seleção não esteve tão longe de ir ao Mundial de 1986: chegou a vencer a Holanda em Viena e empatar em Roterdã, mas acabou fora da repescagem ao perder os dois confrontos para a rival Hungria e ainda ao ver os magiares “não se importarem” de perder para a Laranja em Budapeste na última rodada.

A próxima participação em uma Copa do Mundo se daria mesmo em 1990, na Itália, com uma equipe renovada, mas tida como perigosa. Baseava-se num tridente ofensivo bastante cobiçado no continente, formado pelo centroavante Anton “Toni” Polster (que depois de passar pelo Torino, estabelecera-se como o goleador do Sevilla), pelo veloz Gerhard Rodax (que se transferiria para o Atlético de Madrid após o Mundial) e por Andreas Ogris. A campanha no Mundial, entretanto, foi frustrante: favoritos a segunda vaga no Grupo A, da anfitriã, venceram apenas os Estados Unidos, caindo fora ainda na primeira fase.

A decepção seria logo acompanhada por um vexame histórico: a derrota para a estreante e semiamadora seleção das Ilhas Faroe por 1 a 0 na abertura das Eliminatórias para a Eurocopa de 1992, numa partida disputada em Landskrona, na Suécia. Depois disso, os austríacos disputariam apenas mais uma Copa do Mundo, a da França em 1998 (novamente eliminada na primeira fase, após dois empates e uma derrota), distanciando-se cada vez mais dos momentos de glória vividos pelo país.

Houve uma tentativa de ressurreição com a classificação impressionante para a Eurocopa de 2016, outra vez em solo francês, com nove vitórias e um empate nos dez jogos das Eliminatórias. Mas na fase final, depois de estrear perdendo para a Hungria e segurar um empate sem gols com Portugal, o time voltou a decepcionar na última rodada, com derrota para a surpreendente Islândia. Mostra de que há ainda um longo caminho a percorrer para a Áustria voltar a um lugar de destaque no futebol europeu e mundial.