Nelson Piquet e Ayrton Senna comemoram a dobradinha no GP do Brasil de 1986

Como o automobilismo ocupou o vazio deixado pela má fase do futebol brasileiro

Uma potência mundial. Mais títulos que qualquer país, os melhores do mundo em atividade, figuras de destaque em campeonatos de vários países da Europa. A imprensa acompanha o movimento, e reserva as principais páginas do caderno de esportes de segunda. Esse é o esporte brasileiro. Esse é o futeb… Nada disso! Esse é o automobilismo na década de 1980.

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Por uma incrível coincidência, a época de ouro do automobilismo brasileiro coincidiu com um dos piores momentos do futebol nacional. A Seleção ficou 24 anos sem títulos, entre 21 de junho de 1970 e 17 de julho de 1994. Nesse período, o Brasil não foi um sucesso entre os clubes também: foram apenas cinco títulos de Libertadores, e campeonatos nacionais que exigiam um cientista da Nasa para explicar o regulamento.

Enquanto isso, as vitórias vinham nas pistas. O momento mais glorioso na Fórmula 1 começou na primeira vitória de Emerson Fittipaldi, em 4 de outubro de 1970, e terminou com a morte de Ayrton Senna, em 1º de maio de 1994. Foram oito títulos mundiais, cinco vices, um título da Indy, seis vitórias no GP de Mônaco e duas vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis. Tudo comandado por três craques que foram os melhores do mundo em determinado momento.

O sucesso do automobilismo durou mais de duas décadas, com três grandes pilotos se sucedendo. Somando isso a um público que gosta mais de ver seus conterrâneos vencerem do que de esporte em si, o automobilismo ganhou um público próprio. Mas os problemas nos gramados ajudaram a inflar esse impacto. “Ajudou. Foram dois movimentos simultâneos em sentido oposto. O futebol decaía e o automobilismo crescia. Com isso, o automobilismo reinou sozinho”, comenta Fábio Seixas, comentarista do SporTV.

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Claro que o futebol seguia como o esporte preferido dos brasileiros, o mais popular. Mas as corridas já concorriam em diversas áreas. A audiência na TV era muito mais significativa. No GP do Brasil de 1988, a Globo teve picos de 40 pontos no Ibope. Nas demais provas, o público girava em torno de 25%. O retorno era tamanho que toda a mídia investia. Jornais e rádios de médio porte tinham repórteres acompanhando a temporada in loco. Em 1989, a Editora Abril investiu na Grid, que deixou de ser uma série de revistas-pôsteres sobre cada prova da F-1 para se transformar em uma revista quinzenal de automobilismo (detalhe: no ano anterior, a Abril havia reduzido o investimento na Placar, reduzindo a qualidade do papel e apostando em uma linha editorial de apelo mais popular).

Claro que a grande estrela da cobertura era a F-1, mas o automobilismo como um todo estava forte. Veículos chegaram a ter um repórter para acompanhar a temporada da Indy nos Estados Unidos. O noticiário sobre as categorias de acesso também marcava presença, pois o público olhava cada vitória de brasileiro eum uma Fórmula 3 ou Fórmula Ford como o torcedor de futebol segue os brasileiros que fazem sucesso pelas diferentes ligas europeias.

Flávio Gomes, atualmente comentarista da Fox Sports e diretor do site Grande Prêmio, era editor de esportes da Folha de São Paulo no final da década de 1980. E o futebol era um assunto secundário na comparação com a F-1. “A Folha gostava de ser metida a diferente, mas a corrida do fim de semana era sempre a prioridade para a capa, mesmo se tivéssemos um Corinthians x Palmeiras”, conta. “No jornal, não havia dúvidas que a corrida era o assunto que chamava mais atenção. Isso só mudava na época da Copa do Mundo.”

O automobilismo acabou entrando no dia a dia, em um território que era exclusivo do futebol. Termos como “país do automobilismo” passaram a ser constantes em textos que exaltavam o sucesso nas pistas, muitas vezes usados como forma de desmistificar o decadente “país do futebol”. Na edição de 31 de outubro de 1988, dia seguinte ao primeiro título mundial de Ayrton Senna, Gomes editava o caderno de esportes e sacou um “pátria sobre rodas” para falar do histórico brasileiro na F-1.

Página do caderno de esportes da Folha de São Paulo de 31 de outubro de 1988 (Reprodução)

Página do caderno de esportes da Folha de São Paulo de 31 de outubro de 1988 (Reprodução)

A cultura popular também absorveu isso. Um bom exemplo é a seção “País da F-1″ que Fábio Seixas mantém de forma bissexta em seu blog, mostrando referências da categoria em nomes de oficinas mecânicas, lanchonetes, ruas, produtos diversos e até barcos (veja alguns exemplos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Com a morte de Senna, isso acabou. O automobilismo não manteve seu embalo e vive um de seus piores momentos no País. Enquanto isso, o futebol voltou a crescer. O Brasil foi a grande força mundial na segunda metade dos anos 90 e na primeira metade da década de 2000. As competições domésticas se tornaram mais organizadas e os clubes passaram a dominar a América do Sul. E nem o sucesso de Guga no tênis e de César Cielo na natação colocam em dúvida a condição de esporte mais popular entre os brasileiros.