Agora, sim, a intertemporada está a pleno vapor na Holanda. Nem tanto nas contratações: estas se resumem a um empréstimo aqui (como o que o Ajax fez ao Willem II, cedendo o novato zagueiro Damil Dankerlui), uma contratação pontual ali (como a do VVV-Venlo, repatriando o veterano Romeo Castelen), e pronto. Até houve boatos, como os de que Hirving Lozano já deixaria o PSV imediatamente, mas não foram muito adiante. É na bola rolando e nos treinamentos que os clubes têm se movimentado. Na terça passada, o Feyenoord chegou ao balneário espanhol de Marbella já comemorando os retornos de Eric Botteghin e Jan-Arie van der Heijden, que poderão recuperar algum entrosamento antes do mais importante: o Klassieker contra o Ajax, em Amsterdã, no dia 21, já na 19ª rodada que reabrirá o Campeonato Holandês.

Falando no lado dos Ajacieden, também já estão em treinamentos na cidade portuguesa de Lagos, na região do Algarve – já incluindo o reforço Nicolás Tagliafico. Mas o técnico novo é o mais procurado, e Erik ten Hag parece saber que as exigências para ele são imediatas: “Temos de nos tornar um time muito rapidamente”. Como se não bastasse, o Ajax ainda teve mais turbulências fora de campo, após o jornal NRC divulgar que um relatório de 2014, feito pela federação holandesa e conhecido pelo clube, já informava que Abdelhak Nouri tinha problemas cardíacos “mínimos”. E ainda foram questionados os procedimentos com “Appie” após a parada cardiorrespiratória que perturbou sua vida para sempre (por exemplo, a suspeita de demora no uso do desfibrilador). A família diz que não havia sido informada, e já contratou um advogado; a federação alega que informou o fato diretamente a Nouri, maior de idade que já era; e o clube segue sem pronunciamentos.

Já o PSV vivia uma intertemporada tranquila: antes do começo dos trabalhos na Flórida, o grupo de 26 jogadores teve até o luxo de ver um jogo da NBA (Orlando Magic x Cleveland Cavaliers). Mas, como disse Marco van Ginkel à revista “Voetbal International”, “esta não é uma viagem de férias”. E os Boeren viram na estreia contra o Corinthians, pela Florida Cup, no que precisam melhorar: finalização. No primeiro tempo, criaram chances, mas caíram na notável consciência tática que faz o Corinthians manter um nível técnico regular, mesmo ainda voltando às atividades. No segundo, com algumas alterações, a pressão foi maior (fazendo o goleiro Caíque se destacar), mas o gol de empate só veio nos acréscimos, com Sam Lammers – que perderia a cobrança, fazendo o time do Parque São Jorge ficar com o ponto extra após a disputa de pênaltis.

Enfim, enquanto seguem os treinos e os amistosos, melhor terminarmos a análise de intertemporada da Eredivisie.

PSV

Posição: 1º lugar, com 46 pontos
Técnico: Phillip Cocu
Time-base: Zoet; Arias, Isimat-Mirin, Schwaab e Brenet; Van Ginkel, Hendrix e Pereiro; Bergwijn (Luuk de Jong), Locadia e Lozano
Artilheiro: Hirving Lozano (atacante), com 11 gols
Destaque: Hirving Lozano (atacante)
Objetivo do início: Título
Avaliação: Os tropeços do final do turno – derrota para o Ajax, empate para o Groningen – deixaram bem claro que os Boeren não enchem os olhos. Contudo, até agora, a eficiência foi inegável. Se for mantida no returno, o título é o mais provável

Assim como se viu no Ajax, o PSV já começou esta temporada com um tremendo vexame, eliminado que foi pelo Osijek-CRO ainda na terceira fase preliminar da Liga Europa. Mas foi exatamente neste ponto baixo que o time de Eindhoven tomou um caminho diferente em relação ao de Amsterdã. Enquanto os Ajacieden se abateram na crise, os Boeren continuaram trabalhando. Phillip Cocu fez certas mudanças no time – considerado “bode expiatório” do vexame na Liga Europa, Luuk de Jong foi para o banco -, a janela de transferências impôs outras alterações (as saídas de Davy Pröpper e Andrés Guardado, por exemplo), e assim os Eindhovenaren começaram a trabalhar.

E lentamente, o trabalho foi resultando numa equipe eficiente. Falta a ela o brilho visto em certos momentos do bicampeonato em 2015 e 2016. Mas seus protagonistas foram aparecendo aos poucos. Na defesa, se o miolo de zaga formado por Nicolas Isimat-Mirin e Daniel Schwaab é tão somente discreto, Jeroen Zoet vive a melhor fase de sua carreira no gol: seguro e imponente, o camisa 1 parece querer provar que merece a transferência desejada desde o fim da temporada passada. No meio-campo, Jorrit Hendrix enfim se vê livre das lesões para ser o que a torcida quer (ídolo vindo da base, sucessor de Guardado pela segurança na marcação), enquanto Marco van Ginkel outra vez leva à pergunta: protagonista nos três empréstimos ao PSV – agora, capitão e vice-goleador do time na temporada -, o que falta para que o clube faça proposta ao Chelsea para levá-lo em definitivo?

Mas é no ataque que se vê como o trabalho paciente e discreto de recuperação deu certo. Contratação muito aguardada, Hirving Lozano têm justificado centavo por centavo gasto nele: artilheiro e melhor jogador do campeonato, insinuante pela esquerda, o mexicano já é considerado perda certa após a Copa do Mundo que – salvo lesão… – certamente disputará. Jogando como queria (no meio da área, aproveitando a força física), Jürgen Locadia vivia a melhor fase da carreira, marcando muitos gols… até lesão muscular que o tirou da reta final do turno. Sorte de Luuk de Jong: após o período no banco, voltou a ter importância para o time. Certo, nada disso faz um time brilhante. Quando não tem espaço para contra-atacar, o PSV sofre muito – e também tem lapsos imperdoáveis, como mostraram os tropeços contra Ajax e Groningen, nas 15ª e 16ª rodadas. Ainda assim, serviu para uma campanha quase irretocável, que o deixa com cinco pontos de vantagem. Se a eficiência continuar no returno, o título é o resultado provável. Poderá não ser inesquecível, mas será merecido, pelo que se viu até agora.

Ajax

Posição: 2º lugar, com 41 pontos
Técnico: Marcel Keizer (até a 17ª rodada), Michael Reiziger (interino, na 18ª rodada) e Erik ten Hag (a partir da 19ª rodada)
Time-base: Onana; Veltman, De Ligt, Wöber e Viergever (Frenkie de Jong); Schöne, Ziyech e Van de Beek; David Neres, Huntelaar (Dolberg) e Younes (Kluivert)
Artilheiro: Lasse Schöne (meio-campo) e David Neres (atacante), ambos com 8 gols
Destaque: David Neres (atacante)
Objetivo do início: Título
Avaliação: Numa temporada inesperadamente irregular, o Ajax deu voltas e voltas, mas começa 2018 como terminou 2017: sem dar certeza alguma à sua torcida. Só o decorrer do returno indicará como será o final de um ano turbulento

A bem da verdade, a saída de Peter Bosz – repentina, mas justificável – já indicava que o período 2017/18 estaria longe de ser tranquilo para o Ajax. O drama que vitimou definitivamente Abdelhak Nouri, ainda num amistoso de intertemporada, aumentou o impacto antes mesmo dos jogos oficiais começarem. E quando isso ocorreu, a situação dos Godenzonen continuou periclitante: eliminação já nas fases preliminares da Liga dos Campeões (para o Nice-FRA) e da Liga Europa (para o Rosenborg-NOR). Como se não bastasse, a campanha no Campeonato Holandês já começou com derrota: 2 a 1 para o Heracles Almelo, que derrotava o Ajax pela primeira vez desde… 1965! Reviravolta impressionante num time que conseguira evocar levemente o que o Ajax um dia foi e representou, com o vice-campeonato na Liga Europa passada.

Todavia, olhando para o campo, eram vários os motivos que justificavam a crise. Uma equipe lenta como sempre, apostando na posse de bola. A falta de definição de Marcel Keizer sobre o estilo de jogo a ser adotado – e até sobre os jogadores a serem escalados (por exemplo: até agora, com a temporada na metade, não se sabe o atacante titular no meio da área). Resultado: mesmo na frente da tabela, como de costume, o Ajax foi vulnerável como havia tempos não era. Basta dizer que sofreu duas derrotas em casa, para Utrecht e Vitesse, o que não acontecia desde 2014/15. Aos trancos e barrancos, porém, um caminho foi encontrado. Maximilian Wöber entrou bem na zaga; Frenkie de Jong aproveitou a chance merecida, firmando-se entre a defesa e o meio-campo; Lasse Schöne e Hakim Ziyech seguem como ótimos meio-campistas; e David Neres, ambientado e acostumado, cresceu notavelmente de produção para se tornar um dos melhores da temporada na Holanda. Resultado: sete jogos de invencibilidade promissora.

Todavia, essa reação nascente desmoronou com a queda para o Twente, nas oitavas de final da Copa da Holanda. A diretoria – leia-se Edwin van der Sar e Marc Overmars – se cansou, demitiu Marcel Keizer, esqueceu a ideia de “manter o estilo” e também dispensou o conselheiro técnico Dennis Bergkamp… e trouxe o “plano A”: Erik ten Hag, incensado por fazer o Utrecht ir além do 4-3-3 habitual. No entanto, embora também justificável, a demissão faz quase o Ajax voltar à estaca zero. Conseguirá manter a boa sequência do fim de 2017? Evoluirá para conseguir o título? Ou novamente tropeçará? Respostas, somente com o decorrer do returno.

AZ

Posição: 3º lugar, com 38 pontos
Técnico: John van den Brom
Time-base: Bizot; Svensson, Hatzidiakos, Wuytens e Ouwejan; Midtsjo, Til e Koopmeiners; Alireza Jahanbakhsh, Weghorst e Mats Seuntjens (Van Overeem)
Artilheiro: Wout Weghorst (atacante), com 8 gols
Destaques: Wout Weghorst (atacante), Alireza Jahanbakhsh (atacante) e Guus Til (meio-campista)
Objetivo do início: vaga nos play-offs pela Liga Europa
Avaliação: O AZ foi além: com regularidade e ofensividade, alcançou a terceira posição. Se não fosse tão tímido contra os três grandes, o título holandês seria uma possibilidade

Já faz tempo que o AZ se estabilizou como o primeiro clube abaixo do triunvirato tradicional no futebol holandês. Mesmo quando começa pessimamente uma temporada (caso de 2015/16), recupera-se brilhantemente. Mesmo quando é superado na posição de “melhor do resto” – como na temporada passada, quando o Utrecht é que ficou no quarto lugar -, mantém um nível médio que mantém a torcida extremamente tranquila. Além do mais, costumeiramente acerta nas transferências e na promoção gradual dos vindos das categorias de base. De certa forma, tudo isso é simbolizado na campanha atual. Ainda respaldado, John van den Brom comanda uma equipe jovem, veloz, ofensiva (só fez menos gols do que os três grandes).

Na zaga, a dupla formada por Pantelis Hatzidiakos e Stijn Wuytens elimina qualquer impacto da ausência do veterano e lesionado Ron Vlaar. No meio-campo, se Marko Vejinovic rompeu ligamentos do tornozelo, o caminho ficou aberto para a promissora dupla de volantes revelada em Guus Til e Teun Koopmeiners, ambos da base. No ataque, a mesma coisa: a promessa Calvin Stengs viu o ligamento cruzado anterior se romper já na primeira rodada, mas há a velocidade de Alireza Jahanbakhsh, pelo lado direito, e a eficiência de Wout Weghorst na finalização. É o suficiente para fazer a terceira melhor campanha. Se não fosse o velho problema da timidez contra os grandes (perdeu para todos – pior, levou a virada contra o Ajax, rival na disputa pela segunda posição), pensar em título seria muito plausível. Já que não é, ser o time de melhor futebol na Holanda é um bom prêmio de consolação.

Zwolle

Posição: 4º lugar, com 33 pontos
Técnico: John van’t Schip
Time-base: Boer; Ehizibue, Marcellis, Sandler (Freire) e Van Polen; Bakker (Dekker), Saymak e Ryan Thomas; Namli, Ondaan (Nijland) e Mokhtar
Artilheiro: Mustafa Saymak (meio-campo/atacante), com 7 gols
Destaques: Mustafa Saymak (meio-campo/atacante), Younes Namli (atacante) e Youness Mokhtar (atacante)
Objetivo do início: escapar do rebaixamento
Avaliação: se o AZ impressiona, o Zwolle é ainda mais incrível: corrigiu a estagnação da temporada passada, mostra valor técnico e faz campanha admirável

Como já foi escrito aqui, o Zwolle terminou a temporada passada com a firme impressão de que precisava mudar, caso quisesse manter a regularidade do projeto que visa tornar o clube firme na primeira divisão holandesa. Dito e feito: após o sufoco e a salvação da repescagem apenas na rodada final, o técnico Ron Jans deixou o clube, outros jogadores saíram… e caberia aos remanescentes (Mustafa Saymak, Youness Mokhtar, Ryan Thomas) e às novidades (Younes Namli, Terell Ondaan, o retornado goleiro Diederik Boer) ditarem até onde os Zwollenaren poderiam ir. Pelo menos nesse turno, para uma agremiação ainda pequena, eles foram longe, muito longe. Tão longe que, durante certo tempo, foram considerados candidatos a “Leicester holandês” – e até hoje protagonizam o grande conto de fadas da temporada holandesa.

Para que se tenha uma ideia, nos jogos contra os grandes, apenas o 3 a 0 do Ajax (4ª rodada) foi inquestionável: os “Dedos Azuis” seguraram o 0 a 0 contra o Feyenoord, e só caíram para o PSV (1 a 0) no minuto final de uma partida em que foram superiores. Tanto em casa quanto fora, a regularidade é notável. Mesmo no típico 4-3-3 holandês, sob o técnico John van’t Schip, nota-se uma tremenda velocidade no ataque, graças ao trio Namli-Saymak-Mokhtar – e até a tentativas de Van’t Schip que deram certo, como improvisar o ponta Ehizibue na lateral direita. Já está claro que as mudanças só trouxeram benefícios: após um ano de pausa, não só o Zwolle voltou a ser uma das ótimas surpresas na Eredivisie, como está na melhor posição de sua história no campeonato. Quem sabe haja chance até de participar das fases preliminares da Liga Europa, como em 2014/15?

Feyenoord

Posição: 5º lugar, com 32 pontos
Técnico: Giovanni van Bronckhorst
Time-base: Brad Jones; Diks (Amrabat), Tapia, St. Juste (Van Beek) e Haps (Nelom); El Ahmadi, Toornstra e Vilhena; Berghuis, Jorgensen e Larsson (Boëtius)
Artilheiro: Steven Berghuis (atacante), com 11 gols
Destaque: Steven Berghuis (atacante)
Objetivo do início: título
Avaliação: Desfalques sucessivos na defesa, uma sequência de maus resultados, a ressaca após o título de 2016/17… talvez o bicampeonato seja pedir demais. Porém, recuperação no final do turno indica que a reação ainda é possível

Quando a temporada começou, o cenário era muito promissor para o Feyenoord. Do time que levara a torcida à forra com o fim do jejum, só não estavam mais Karsdorp, Kongolo, Elia e Kuyt. Era plenamente possível pensar na repetição do bicampeonato, já que vários destaques seguiriam em Roterdã. Na Liga dos Campeões, embora houvesse o sonho de uma atuação digna, ele acabou já na primeira rodada, com o impactante 4 a 0 do Manchester City em pleno De Kuip. Ainda assim, o início da campanha na Eredivisie tivera quatro vitórias em quatro jogos. Todavia, o quinto representou o ponto final da invencibilidade, com a derrota para o PSV. Começava ali uma espiral de notícias ruins, que diminuiu demais as expectativas do Stadionclub – sem contar a “ressaca” do esforço da temporada passada, vista em várias atuações lentas, e a incomum frequência de tropeços em casa (duas derrotas e três empates).

Mas foram as contusões o maior fator de distúrbio. Primeiro, uma lesão muscular tirou de combate Nicolai Jorgensen. Elas também dilapidaram a defesa: titulares absolutos no miolo de zaga, Eric Botteghin e Jan-Arie van der Heijden foram abatidos por sérios problemas, forçando o técnico a improvisar (ora Renato Tapia e Jerry St. Juste, ora Tapia e Sven van Beek). Nas laterais, mais problemas físicos (na esquerda, com Ridgeciano Haps) e atuações decepcionantes (caso de Kevin Diks) levavam a mais experiências: a volta de Miquel Nelom na esquerda e a promoção do jovem Tyrell Malacia, o improviso com Sofyan Amrabat na direita. Se servia de consolo, o meio-campo seguiu seguro: Karim El Ahmadi, Jens Toornstra e Tonny Vilhena tranquilizam a torcida.

No ataque, Steven Berghuis justificou o dinheiro pago em sua contratação definitiva: cresceu de produção, virando até candidato a novo titular na ponta-direita da seleção holandesa. Outra contratação, Sam Larsson, também se mostrou certeira. E até outro novato, Dylan Vente, tem agradado nas atuações, quando Jorgensen é impedido pelas lesões. Assim, se atingiu ponto baixo ao levar 4 a 1 em casa do arquirrival Ajax, e se já está a 14 pontos do líder PSV, o Feyenoord terminou o 1º turno com três vitórias seguidas. E já começará 2018 tendo o clássico contra o Ajax para provar que está vivo na temporada. O bi já é apenas um sonho, mas sonhar não custa nada.

Utrecht

Posição: 6º lugar, com 28 pontos
Técnico: Erik ten Hag (até a 18ª rodada) e Jean-Paul de Jong (a partir da 19ª rodada)
Time-base: Jensen; Van der Maarel, Leeuwin, Willem Janssen e Emanuelson; Klaiber, Van de Streek, Strieder, Labyad e Ayoub; Kerk e Labyad (Dessers)
Artilheiro: Zakaria Labyad (meio-campo/atacante), com 6 gols
Destaque: Zakaria Labyad (atacante)
Objetivo do início: vaga direta na Liga Europa/vaga nos play-offs pela Liga Europa
Avaliação: Falta alguma coisa em relação ao time perfeitamente entrosado e ofensivo de 2016/17, mas os Utregs estão bem. Só que a saída de Erik ten Hag deixa uma grande dúvida sobre como será o destino da equipe no returno

Até agora, o Utrecht segue bem na Eredivisie. Mas falta alguma coisa. Está certo que o time terminou o turno dando a impressão de reagir, após ficar mais no meio da tabela durante boa parte dele. Porém, ainda não se viu os Utregs apresentarem algo próximo do nível técnico altamente elogiável visto na temporada passada. Está certo que era compreensível, dadas as perdas na janela de transferências (Sébastien Haller, Sofyan Amrabat, Nacer Barazite). Mas a equipe poderia fazer melhor. Era um time “só” bom, não um time capaz de desafiar o Trio de Ferro. A bem da verdade, só em uma partida se viu o Utrecht capaz de surpreender: no 2 a 1 contra o Ajax, na 11ª rodada, em Amsterdã.

Ali foram sintetizadas as qualidades da equipe nas temporadas recentes: a flexibilidade tática (Urby Emanuelson simboliza, jogando no meio e na lateral), a ofensividade, a firmeza da defesa (Willem Janssen é o destaque), a fluidez do ataque (por ela respondem Yassin Ayoub e Zakaria Labyad). Por tudo isso, era possível ver a reação delineada nas últimas partidas de 2017. Mas por tudo isso, também, o Ajax julgou que Erik ten Hag era o nome certo para sacudir a equipe irregular – e o tirou do Utrecht. Agora, sob Jean-Paul de Jong, por mais que os jogadores sejam capazes de seguirem jogando bem, fica a dúvida: como o Utrecht se dará sem o técnico que o ajudou a crescer na Eredivisie? O jogo contra o Feyenoord – atrasado da 15ª rodada, em 24 de janeiro – dará uma boa resposta. Até por ser direto na disputa da vaga nos play-offs da Liga Europa.

ADO Den Haag

Posição: 7º lugar, com 26 pontos
Técnico: Alfons “Fons” Groenendijk
Time-base: Zwinkels; Ebuehi, Meissner, Kanon (Beugelsdijk) e Meijers; Immers, El Khayati e Bakker (Gorter); Becker, Johnsen (Falkenburg) e Hooi (Lorenzen)
Artilheiro: Bjorn Johnsen (atacante), com 7 gols
Destaque: Abdenasser El Khayati (meio-campista)
Objetivo do início: escapar do rebaixamento
Avaliação: A situação interna do clube está serena. E com aquisições certeiras, o time de Haia conseguiu uma base que vive momento de ascensão, dando esperança à torcida

Quando a temporada atual começou, tudo que o ADO Den Haag desejava era uma campanha tranquila. Se não fosse possível pensar em surpreender, que pelo menos a ameaça de rebaixamento passasse longe, diferente do que fora em 2016/17. Melhor ainda seria se a United Vansen, empresa chinesa que controla o clube, mantivesse o armistício com o Conselho Deliberativo, após as incendiárias turbulências da Eredivisie passada. Pelo menos em campo, era possível esperar tempos mais pacíficos. Afinal, o time prometia um pouco mais, somando nomes queridos da torcida (Robert Zwinkels, Tom Beugelsdijk, o retornado Lex Immers) a gente experiente em Eredivisie (Erik Falkenburg, Sheraldo Becker).

Demorou um pouco para que a mistura emplacasse: o time auriverde de Haia patinou em posições inferiores, nas primeiras rodadas. A partir da 7ª, porém, as coisas se estabilizaram. Ganhar em Haia passou a ser tarefa dura, como amargaram Ajax (1 a 1, na 5ª rodada) e Feyenoord (2 a 2, na 11ª rodada). O experiente Zwinkels tinha algumas boas atuações no gol, enquanto Nasser El Khayati provava por que merecera a contratação em definitivo junto ao Queens Park Rangers, decidindo alguns jogos. No ataque, resultava em boas coisas o casamento entre a força física de Bjorn Johnsen e a velocidade dos pontas Becker e Elson Hooi. Assim, agora, o ADO Den Haag sonha até com a repescagem por vaga na Liga Europa. A torcida já agradecerá só pela tranquilidade mantida – dentro de campo, já que fora, os balanços financeiros ainda atemorizam um pouco.

Vitesse

Posição: 8º lugar, com 24 pontos
Técnico: Henk Fräser
Time-base: Pasveer; Dabo (Lelieveld), Kashia, Miazga e Faye (Büttner); Bruns, Serero e Foor; Rashica, Matavz e Linssen
Artilheiro: Tim Matavz (atacante), com 9 gols
Destaque: Tim Matavz (atacante)
Objetivo do início: vaga nos play-offs pela Liga Europa
Avaliação: O Vites mostra capacidade técnica para atingir o objetivo inicial. Com uma partida a menos, está firme na disputa – e pode se concentrar somente na Eredivisie

Certo, a temporada poderia estar melhor. Se cair na fase de grupos da Liga Europa era algo previsível – bem, talvez não como último colocado da chave -, difícil foi suportar a vexatória desclassificação na Copa da Holanda, para o amador AVV Swift. Ainda assim, é possível dizer que está tudo bem com o Vitesse. A equipe manteve uma boa participação no Campeonato Holandês, e passou o começo da temporada nas primeiras posições – tendo como destaque maior a categórica vitória sobre o Ajax, em plena Amsterdam Arena (2 a 1, na sexta rodada).

Houve uma ligeira queda, é verdade. Motivada por atuações irregulares, principalmente nas laterais, em que Fankaty Dabo (na direita) e o decepcionante Alexander Büttner (na esquerda) deixavam muitos espaços, obviamente sobrecarregando a – boa – dupla de zaga. Henk Fräser deu um jeito, experimentando outros esquemas, como o 5-3-2 e o 4-2-3-1, além do ocorrido nesta semana (barrar Büttner, por indisciplina). Já serviu para potencializar as boas atuações no meio-campo (Thulani Serero, Navarone Foor). A partir delas, a bola chegou para o ataque, em que Tim Matavz cumpre bem a função para a qual foi contratado: marcar gols. Enfim, o time de Arnhem tem condições de seguir bem.

Heerenveen

Posição: 9º lugar, com 23 pontos
Técnico: Jurgen Streppel
Time-base: Hahn (Hansen); Dumfries, Hoegh, Pierie e Schmidt (Woudenberg); Kobayashi, Thorsby (Van Amersfoort/Vlap) e Schaars; Odegaard, Reza Ghoochannejhad (Veerman) e Vlap
Artilheiros: Morten Thorsby (meio-campista) e Henk Veerman (atacante), ambos com 4 gols
Destaque: Henk Veerman (atacante)
Objetivo do início: vaga nos play-offs pela Liga Europa
Avaliação: O Heerenveen mostra muita regularidade, circundando sempre entre a 8ª e a 10ª posições. Mas faltam mais definições, se quiser subir alguns lugares e cumprir seu objetivo

Sim, o Heerenveen faz uma campanha… boa. Nada que impressione como Zwolle ou AZ fazem, mas é o suficiente para que o time da Frísia faça o que a torcida está acostumada a ver: uma temporada tranquila, sem riscos. Até houve temores na defesa quando o goleiro Warner Hahn se lesionou logo na primeira rodada, mas Martin Hansen (aquele, do gol de calcanhar pelo ADO Den Haag em 2015) foi trazido às pressas e segurou bem a situação até Hahn se recuperar. De mais a mais, Kik Pierie se revelou promissor na zaga, assim como Denzel Dumfries na lateral direita. Até mesmo Martin Odegaard, que já ameaçava decepcionar, cresceu de produção nesta temporada. E Stijn Schaars é sempre seguro. Sem contar que o Heerenveen foi dos únicos times a vencer o PSV – 2 a 0 na 4ª rodada.

Ainda assim, parece faltar algo para que o time da Frísia cumpra as expectativas e seja mais firme na disputa por um lugar entre os quatro da repescagem na Liga Europa. Talvez o ataque, em que apenas Odegaard sai a contento: Reza Ghoochannejhad caiu de produção e tem ficado no banco, enquanto Henk Veerman marca gols, sem virar inquestionável no time. E Jurgen Streppel tem mostrado indecisão entre esquemas, o que faz com que alguns jogadores entrem e saiam do time (exemplos são Michel Vlap e Pelle van Amersfoort). São fatores que precisam de correção, caso o Heerenveen queira subir na tabela para fazer o previsível: outra campanha boa e elogiável. Ainda é possível.