Anfield pulsava. Antes mesmo que os times entrassem em campo, You’ll Never Walk Alone tomava a atmosfera do estádio, ressoando em milhares de vozes que indicavam uma noite inesquecível de Liga dos Campeões. E realmente foi, graças a uma atuação impecável do Liverpool, sobretudo durante o primeiro tempo. Que muitos acreditassem nas chances dos Reds desbancarem o Manchester City, talvez não neste grau de superioridade. O time de Jürgen Klopp protagonizou uma atuação maiúscula, por toda a sua intensidade ao pressionar a posse de bola dos adversários e pela agressividade na conclusão das jogadas. O empenho e a precisão de um Liverpool faminto preponderaram, construindo uma belíssima vantagem por 3 a 0, para aumentar ainda mais o volume daquelas milhares de vozes. Aos Citizens, resta tentar reverter a situação desfavorável na próxima terça-feira, no Estádio Etihad. Missão dificílima, mas não impossível. Para tanto, precisarão rever diversos detalhes.

As atenções na escalação do Liverpool se concentravam, mais uma vez, no tridente formado por Mohamed Salah, Roberto Firmino e Sadio Mané. Além disso, os homens de frente contavam com a velocidade do meio-campo, com Alex Oxlade-Chamberlain e James Milner à frente de Jordan Henderson. Do outro lado, Pep Guardiola continuou improvisando Aymeric Laporte na lateral esquerda do City, o que dava uma mobilidade tática ao time, podendo se adaptar com três zagueiros sem a bola e permitindo as escapadas de Kyle Walker. Mais à frente, a novidade era a entrada de Ilkay Gündogan, caindo pelo lado direito. Fernandinho e Kevin de Bruyne fechavam a cabeça de área, com David Silva mais à frente. Leroy Sané vinha aberto na ponta esquerda e Gabriel Jesus, como homem de referência pelo centro do ataque.

A estratégia de Pep Guardiola até parecia dar certo durante os primeiros minutos. O Manchester City tinha qualidade para trabalhar a posse de bola e amplitude para explorar os lados do campo. As principais jogadas do time aconteciam pela esquerda, onde Trent Alexander-Arnold era sobrecarregado com as combinações entre Leroy Sané e David Silva. A ameaça por ali se tornou constante, embora não tenha gerado grandes chances para os celestes balançarem as redes. Acuado, o Liverpool fechava os espaços e tentava roubar a bola para armar os contra-ataques. No primeiro que conseguiu, abriu o placar.

A partir de um desarme, os Reds saíram em disparada. Salah, em posição duvidosa (e dificílima de ser marcada), arrancou pela ponta direita e enfiou a bola para Firmino. O centroavante se livrou da marcação e bateu para defesa de Ederson, mas, no rebote, Walker falhou ao afastar. Então, o camisa 9 espetou para Salah e o artilheiro não perdoou. Por mais que tenha tocado na bola, Ederson não fez o milagre. O City ainda daria a resposta no minuto seguinte, em boa jogada iniciada por David Silva, mas Leroy Sané preferiu definir sozinho e bateu para fora.

A vantagem condicionou a partida ao Liverpool. Enquanto o Manchester City se desestabilizou, os Reds puderam sair um pouco mais. Não se expunham, mas conseguiam marcar forte no campo de ataque, gerando os erros dos adversários. Assim, construíram a excelente vantagem. Aos 20 minutos, aconteceu o segundo gol. A defesa dos Citizens neutralizou o ataque no primeiro momento, mas Firmino e Milner brigaram pela posse. Na sequência, a bola sobrou para Oxlade-Chamberlain. Com o espaço aberto, o meio-campista soltou a bomba de fora da área e foi extremamente feliz. Acertou o canto de Ederson, sem qualquer chance de defesa.

E diante da marcação sufocante, o terceiro gol do Liverpool não demorou a vir, aos 31. Em mais uma roubada de bola no meio-campo, em falha de Nicolás Otamendi, Salah armou o contra-ataque. Seu chute parou em Kompany, mas o egípcio pegou a sobra e cruzou na medida para Sadio Mané, se projetando no segundo pau. Mesmo entre dois marcadores, o senegalês conseguiu subir com liberdade e cabeceou firme, para ampliar. A bem da verdade, poderia mesmo ter acontecido uma goleada sem precedentes nos 45 minutos iniciais. O Manchester City continuava desencontrado, falhando demais na saída de bola. Andrew Robertson era um incômodo perene pela lateral esquerda e Fernandinho foi capaz de duas intervenções cruciais para evitar o quarto. Já no finalzinho, Van Dijk ainda cabeceou com perigo.

Para o segundo tempo, o Manchester City retomou o controle da partida. Trabalhava a bola com mais paciência, com o Liverpool se contendo no campo de defesa. E os Reds perderam sua principal arma nos contragolpes, com Salah sentindo a virilha, substituído por Alex Oxlade-Chamberlain aos oito minutos. Enquanto isso, os celestes ganharam agressividade com Raheem Sterling no lugar de Gündogan. Os Citizens pressionavam no campo de ataque, tentando encontrar uma brecha. Mas, apesar de um susto ou outro, não conseguiam fazer Karius trabalhar. O time estava mal demais nas conclusões, sem um tiro no alvo sequer durante os 90 minutos. Além disso, as individualidades não faziam a diferença, com Sané tentando um pouco mais. Melhor para a linha defensiva dos anfitriões, muito bem posicionada. Robertson e Alexander-Arnold fecharam a porta nas laterais e, quando acionados, Van Dijk e Lovren não tiveram problemas para manter a segurança.

O Liverpool era um espectador durante a segunda etapa. Não encaixava bons contra-ataques, com Sadio Mané sobrecarregado e Roberto Firmino deixando o campo para a entrada de Dominic Solanke, aos 26. De qualquer maneira, faltavam ideias ao Manchester City, que rodava a bola e não conseguiu criar nem mesmo a partir dos cruzamentos. Quando foram mais perigosos, os celestes descolaram alguns passes esticados. Em um deles, até balançaram as redes, mas o assistente assinalou o impedimento de Sané. Ao final, os Reds lamentaram apenas o cartão amarelo de Henderson, que suspende o capitão para o jogo de volta.

Diante de um coletivo que funcionou tão bem, e de maneiras diferentes ao longo dos 90 minutos, é até difícil apontar o grande destaque individual do Liverpool. Durante o primeiro tempo, além da qualidade de Salah na definição, a movimentação de Firmino acabou sendo decisiva, desmontando a zaga, assim como a energia de Milner e Oxlade-Chamberlain pelo meio. Já no segundo tempo, com Sadio Mané se desdobrando na frente, a segurança do sistema firmeza se sobressaiu – até por todas as críticas sofridas em outros momentos da temporada. Menções honrosas também aos laterais, dois jogadores de pouco renome, mas muito eficientes na noite em Anfield.

Já o Manchester City tenta juntar os cacos. O conjunto pouco funcionou, especialmente pela falta de penetração quando o time possuía o domínio do jogo no segundo tempo. O ataque ficou devendo bastante. E marcar um gol seria essencial em Anfield, até porque será trabalhoso manter a meta invicta em casa se expondo aos contragolpes – especialmente se Mohamed Salah voltar a tempo para o compromisso da próxima terça-feira. Pela maneira como controlou o meio-campo na etapa final, Fernandinho pode ser colocado como o melhor do time, mas ainda é pouco para o que se esperava. Guardiola precisará tirar o coelho da cartola para dobrar Jürgen Klopp. E sabendo que as inovações podem sair pela culatra, como aconteceu nesta quarta.

Ficha técnica

Liverpool 3×0 Manchester City

Local: Anfield, em Liverpool (ING)
Árbitro: Dr. Felix Brych (ALE)
Gols: Mohamed Salah, aos 12’/1T, Alex Oxlade-Chamberlain, aos 20’/1T; Sadio Mané, aos 31’/1T
Cartões amarelos: Jordan Henderson (Liverpool); Gabriel Jesus, Kevin de Bruyne, Raheem Sterling, Nicolás Otamendi (Manchester City)
Cartões vermelhos: Nenhum

Liverpool
Loris Karius, Trent Alexander-Arnold, Dejan Lovre, Virgil van Dijk, Andrew Robertson; Jordan Henderson, James Milner, Alex Oxlade-Chamberlain (Alberto Moreno, aos 40’/2T); Mohamed Salah (Georginio Wijnaldum, aos 8’/2T), Roberto Firmino (Dominic Solanke, aos 26’/2T), Sadio Mané. Técnico: Jürgen Klopp.

Manchester City
Ederson, Kyle Walker, Nicolás Otamendi, Vincent Kompany, Aymeric Laporte; Fernandinho, Kevin de Bruyne; Ilkay Gündogan (Raheem Sterling, aos 13’/2T), David Silva, Leroy Sané; Gabriel Jesus. Técnico: Pep Guardiola.