Não importa quanto tempo passe: Roberto Baggio continua como um dos jogadores mais aclamados do futebol italiano. A magia que o camisa 10 distribuía era suficiente por si, e acabou complementada por uma carreira brilhante – apesar também dos percalços. Fato é que muitos torcedores se identificavam com o fantasista, um homem de altos e baixos, que se esforçava para encantar a todos. Um deles que fazia maravilhas em campo. Assim, quando completou 50 anos de idade em fevereiro, tantos e tantos fizeram questão de exaltar o velho craque.

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Do alto de sua experiência, Baggio demonstra uma consciência única sobre o futebol e os seus fenômenos. Deixou isso bem claro em longa entrevista ao jornal Corriere della Sera. Com um ar até mesmo filosófico, falou sobre o passado e a sua carreira. Não se desvencilhou nem mesmo dos assuntos mais espinhosos. E ressaltou por que continua tão respeitado: seu caráter é tão grande quanto foi seu talento.

Abaixo, selecionamos alguns dos principais trechos:

baggio

O sentimento que fica sobre a Copa de 1994

“Às vezes aquele pênalti volta à minha mente. O gosto amargo continua, não diminui. Nunca passará, eu acho. Ainda assim, gosto de voltar àqueles anos. Recuperar aquela alegria. São lembranças íntimas, profundas e belíssimas – à parte da final. A campanha teve um significado denso: pelo cansaço, pela dificuldade e pelo caráter que conduziu o time. Reviver aquele momento é ótimo. Não imaginava que as pessoas hoje vestissem aquela mesma camisa que vestíamos em 1994. Isso significa que eu deixei algo de belo e profundo, embora fosse na Copa de 1990 que eu senti que poderia fazer qualquer coisa”.

Talento unido ao trabalho

“Eu penso que o talento precisa de determinação, coragem e sacrifício. O meu era fruto de milhões de horas jogando futebol na rua. Foi onde aprendi tudo”.

As transformações do futebol nos anos 1990

“Não foi fácil lidar com as mudanças que o futebol sofreu na minha época. Vínhamos de um futebol no qual todos precisavam criar. Você não tinha a cultura de hoje. O que você sabia, sabia da experiência e ninguém tinha te ensinado. Mais do que tudo, surgiu o anti-futebol. E a minha posição não se encaixava no novo estilo. Zola precisou ir à Inglaterra para encontrar espaço”.

Como seria se jogasse no futebol atual

“A diferença é que na minha época, as regras não eram as mesmas de hoje. Atualmente, os atacantes são bem mais protegidos. Antes, era uma caça ao homem. Penso que poderia jogar mais alguns anos, se atuasse no futebol de hoje em dia. E não apenas eu. Na minha época, primeiro você esperava a pancada e só depois pensava como dominar a bola. Hoje, você corre o risco de ser expulso na primeira falta. Antes, isso não acontecia. Você nem sabia quem tinha te acertado, precisava perguntar ao árbitro o número da placa do caminhão”.

O carinho desfrutado ao longo da carreira

“Eu tenho prazer em pensar no carinho que as pessoas me tratavam por todo o país. Creio que isso acontecia porque, conscientemente ou não, eu sempre tentei divertir as pessoas. Talvez eles sentissem isso, gostavam do meu modo simples de jogar. E então, essa simplicidade também era um modo de ser, de me comportar. Eu não sentia diferença de todos aqueles que vinham me ver. Talvez essa fosse a minha força”.

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A relação com Florença

“Eu sempre tive e terei um grande sentimento de gratidão com Florença, pelos dois anos em que fiquei parado depois de meu primeiro infortúnio no joelho. Não jogava e as pessoas continuavam próximas a mim, demonstravam seu afeto, me estimulavam a seguir em frente. me diziam que estavam me esperando. São coisas que eu não me esquecerei”.

Os maiores com quem jogou

“Paolo Maldini foi o defensor mais difícil com quem joguei. Quando você o encontrava, já sabia antes que não passaria por ele. Era grande. Era bom de cabeça, de direita, de esquerda. É preciso combinar 15 jogadores para fazer um como ele. Já aquele com quem mais gostava de trocar a camisa era Marco van Basten. Seria um prazer ter jogado com ele”.

A ascensão do amigo Guardiola como técnico

“Antes de tudo, os meio-campistas são os jogadores que conhecem melhor as duas fases do jogo, a ofensiva e a defensiva. Então, eles são os mais preparados para serem técnicos. Quem joga no meio tem mais consciência. E, depois, Pep já era um tático quando jogava. Vinha de uma escola de grandes treinadores, a sua inteligência o beneficiou”.

O gosto pelo futebol sul-americano

“Eu não sei quem pode ser meu herdeiro. Eu vejo bastante o futebol sul-americano e, como torcedor do Boca Juniors, gosto muito do Centurión. Mas ele deve melhorar fora de campo”.

O fim da carreira e os 50 anos

“Eu estava muito preparado para encerrar a carreira. Não sentiria mais as dores que me perseguiam. O tempo passa rápido. Esses últimos 15 anos voaram. Por um lado eu sou feliz, porque não tenho arrependimentos. Fiz tudo o que queria fazer. Mas o tempo corre depressa”.