Baggio: “O pênalti da final da Copa do Mundo de 1994 ainda me assombra”

Um dos grandes ícones do futebol italiano, Roberto Baggio teve momentos de glória na carreira, mas um lance ainda o persegue, depois de tanto tempo. Ele foi quem cobrou o último pênalti na decisão da Copa do Mundo de 1994, o que deu o título ao Brasil. Um momento que o deixou injustamente marcado no Brasil. Embora tenha sido um craque, com grandes atuações tanto na Copa de 1990 quanto na de 1994 e ainda um brilho na Copa de 1998, o lance de 1994 pesa sobre os seus ombros. O atacante tinha sido eleito o melhor do mundo em 1993 e sentia uma grande responsabilidade, mas que vinha sendo cumprida até ali.

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A primeira fase da Itália naquela Copa do Mundo de 1994 foi muito ruim. O time ficou sediado em Nova York, onde se acreditava que haveria muito público. O problema é que os adversários foram a Irlanda – que tem uma forte colônia de descendentes nos Estados Unidos -, a Noruega e o México – outro país com alto número de imigrantes. Perdeu para a Irlanda, venceu a Noruega e empatou com o México. Classificou-se em terceiro lugar, atrás justamente de México e Irlanda, embora todos tenham terminado com os mesmos quatro pontos na tabela.

A história começaria a mudar nas oitavas de final. Contra a Nigéria, saiu perdendo e foi só no final do jogo que Roberto Baggio empatou. Na prorrogação, ele mesmo levou a Itália à vitória com outro gol. O craque que se esperava finalmente jogava o futebol esperado. Nas quartas de final, veio o confronto duríssimo com a Espanha. Nova vitória dramática por 2 a 1, novamente com gol de Baggio aos 43 minutos do segundo tempo. Na semifinal, Baggio brilhou de novo e marcou duas vezes na vitória por 2 a 1 sobre a Bulgária.

Veio então a final da Copa. O empate por 0 a 0 com o Brasil, no escaldante sol de Los Angeles, durou os 90 minutos do tempo normal e mais os 30 da prorrogação. Na decisão nos pênaltis, o Brasil vencia por 3 a 2 quando Baggio se dirigiu para fazer a quinta cobrança e precisava fazer o gol para manter a Itália viva. Perdeu e o Brasil comemorou o título.

“Imagine esta cena incrível. Meu sonho se torna realidade. Eu estou na Copa do Mundo, cada jogo a Itália vai um pouco mais longe. Desde as oitavas de final, eu não paro de marcar gols”, contou o ex-jogador ao jornal Corriere dello Sport. “Cada vez que eu comemoro um gol, eu penso no que está acontecendo nas casas de todos os italianos assistindo. Então nós vamos para os pênaltis na final e eu erro”, conta.

“Eu me senti morrendo por dentro. Então eu também pensava na reação que teriam meus compatriotas. Foi difícil e até hoje eu não aceito que isso aconteceu”, revelou o então atacante da Juventus. “Eu era a pessoa que daria o final feliz do meu sonho para as arquibancadas, o sonho que naquele momento todos os italianos compartilhavam. Isso ainda me assombra”, disse ainda o jogador.

Baggio já tinha brilhado com a camisa da Fiorentina antes de trocar Florença por Turim e fazer história na Juventus. Pela Velha Senhora, conquistou a Copa da Uefa, a Serie A e a Copa da Itália. Depois, ainda seria campeão pelo Milan na temporada 1995/96. Mas foi pela Juventus que brilhou mais. Em 200 jogos, marcou 115 gols e foi ídolo da torcida nos cinco anos de clube.

Depois de deixar a Internazionale, que defendeu de 1998 a 2000, ele jogou pelo Brescia por quatro temporadas, até se aposentar em 2004. Um dos motivos que o levaram à aposentadoria foi a intensa dor nos joelhos. Baggio passou por muitos problemas de lesão. Em 1985, aos 18 anos, passou pela sua primeira lesão séria ao romper os ligamentos do joelho. Ele fez seis operações nos joelhos no total, quatro no direito e dois no esquerdo.

“Quando eu pendurei as chuteiras pela última vez, foi como ser liberado”, disse o jogador. “A dor física era realmente uma tortura e me acompanhou por toda minha vida como jogador. Nos últimos anos, se tornou maior do que eu poderia aguentar”, explicou o melhor do mundo em 1993.

“Quando eu estava jogando pelo Brescia, eu tinha dificuldades para andar por dois dias depois de cada partida. Quando eu chegava em casa, eu não conseguia sair do carro. Eu tinha que colocar um pé no chão e ir mancando até a porta. No domingo seguinte, eu jogava de novo. Cheio de analgésicos, mas eu jogava”, disse.

“A cirurgia na França foi a pior. Eles tiveram que fazer um buraco na minha tíbia para ancorar o tendão, que estava dilacerado. Eu não podia tomar anti-inflamatórios porque eu era alérgico”, contou. “Eles me deram 220 pontos internos. Eu estava em agonia. Eu até disse para a minha mãe: ‘Se você me ama, me mate’. Foi o desespero de alguém que estava sofrendo e vendo o sonho de uma vida indo para longe, depois de tocá-lo com os dedos”, afirmou ainda o ex-jogador. “Nas duas semanas depois da operação, eu perdi 12 quilos. Eu não estava comendo e eu apenas chorava o tempo todo, por dor física e emocional”.

Aos 37 anos, Baggio se aposentou em 2004 jogando pelo Brescia. Mas sua nome ficou marcado na história do futebol italiano. Foi um grande jogador da Azzurra e marcou época como o melhor da sua geração no país. O pênalti de 1994 foi um episódio triste na sua carreira, mas certamente ele teve mais alegrias.

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