Messi, do Barcelona, e Cristiano Ronaldo, do Real Madrid: as duas maiores estrelas do futebol mundial na Espanha (AP Photo/Andres Kudacki)

Barça e Real faturam muito mais da TV que rivais, mas modelo começa a ser revisto

Quando alguém quer usar um mau exemplo de distribuição de direitos de TV, se usa o modelo espanhol. Por lá, a negociação dos direitos de TV é individual, o que torna a disparidade gigantesca entre Barcelona e Real Madrid e os demais. De fato, entre as ligas importantes do mundo, a espanhola é a que tem a divisão de TV mais desigual. Os dois principais times do país, Real Madrid e Barcelona, chegam a receber mais de sete vezes o valor que alguns clubes. Uma situação que leva muitas vezes a ouvirmos sobre a “espanholização” de muitas ligas. A questão é tão séria que está em processo de ser revisto.

Levando em conta a divisão de direitos de TV da última temporada completa, 2013/14, Real Madrid e Barcelona receberam € 140 milhões cada um. O Valencia está em um segundo escalação na distribuição e recebeu € 48 milhões. O Atlético de Madrid vem em seguida, com € 42 milhões, depois um grupo de três times com € 32 milhões e vai diminuindo até o último grupo, que recebe € 18 milhões. Veja o gráfico com quanto cada time recebeu pelos direitos do Campeonato Espanhol em 2013/14:

Direitos de TV 201314 | Create Infographics
A vantagem: gigantes são gigantes também na Europa

Um dos argumentos que Real Madrid e Barcelona usaram por anos para manter a divisão absolutamente desigual dos direitos de TV foi simples: precisam desse dinheiro para serem competitivos nas competições europeias. Essa grana monstruosa na conta dos dois permite que ambos gastem absurdamente em contratações e mantenham o seu alto padrão de craques e salários.

É verdade que Barcelona e Real Madrid se fortaleceram. Desde a temporada 2004/05, o Barcelona chegou ao menos até a semifinal em sete das 10 edições da Liga dos Campeões, sendo que ganhou o título três vezes. O Real Madrid foi semifinalista nas últimas quatro edições e foi campeão na última. Tornaram-se dois dos mais fortes times do mundo. A Espanha tornou-se o país líder do coeficiente da Uefa, com uma distância grande para os demais países. Atualmente, o país tem pontuação de 82.142, contra 68.962 da Inglaterra, segunda colocada.

A desvantagem: a competição interna minguou

Os espanhóis passaram a ser muito fortes no continente, a ponto até do Sevilla ser bicampeão da Copa da Uefa e o Atlético e Madrid fazer o mesmo já no formato Liga Europa. Só que internamente, não havia competição. Os dois gigantes começaram a brigar pelo título apenas entre si. Porque a força dos dois gigantes tornou-se tão desproporcional para ser mais forte que os outros europeus que virou um colosso grande demais até para os bons times espanhóis que antes disputavam a taça.

Em 2003/04, o Valencia do técnico Rafa Benítez levantou a taça do espanhol. Nas 10 edições seguintes, só Barcelona e Real Madrid levaram o título. Os catalães levantaram a taça seis vezes, o Real Madrid outras três. Só em 2013/14 que a hegemonia foi quebrada com a conquista do Atlético de Madrid. Em todas essas edições, só uma vez Barcelona e Real Madrid não ocuparam as duas primeiras posições: em 2007/08, quando o Villarreal foi o vice-campeão, atrás do Real Madrid.

A falta de competitividade gera crise e os clubes do país começaram a ter cada vez mais dificuldades financeiras. Não só pelo acordo de TV, sejamos justos, porque as administrações foram péssimas. Mas em um campeonato com contratações na casa de dezenas de milhões de euros no lado dos gigantes, os menores sabiam que precisavam fazer receita com a venda de jogadores para sobreviver. Afinal, com a liga sem competitividade, acordos comerciais tornam-se menores e o faturamento com outras frentes também vai diminuindo. E esse tem sido um problema que cria discussões que tomam o país.

O futuro: venda coletiva?

A questão dos direitos de TV tornou-se uma questão de governo na Espanha. Tudo porque lá, como também acontece no Brasil, o governo é um dos maiores credores dos clubes. Os clubes espanhóis têm dívidas estimadas em € 4 bilhões e o governo tem planos para que esse montante caia para € 3 bilhões até 2016. Uma das formas é fazer com que os direitos de TV sejam negociados coletivamente e estabelecer um controle. O time que recebe o maior valor não poderá receber uma quantia superior a quatro vezes o valor que o time que recebe menos. Atualmente, essa diferença, como se viu no gráfico no topo da matéria, já superou sete vezes.

O presidente do Barcelona, Josep Maria Bortomeu, é um dos que defende a venda coletiva de direitos de TV. É um movimento inevitável, que teria duas temporadas de ajustes até que um novo contrato, em 2016/17, seja feito coletivamente, já ajustado. Se pode parecer ruim para Barcelona e Real Madrid, na verdade não é tão ruim assim: os rendimentos dos dois clubes seriam mantidos (€ 140 milhões), mas o dos demais seria aumentado com os novos contratos, até que a diferença seja diminuída.

“A venda individual de direitos de TV nos ajuda a trazer muitos dos melhores jogadores do mundo quando possível. Mas nós sabemos o problema: a Premier League é muito competitiva. Você nunca sabe quem vai vencer. Na Espanha, entre 2004 e 2014, só Barcelona e Real Madrid, principalmente o Barcelona”, explicou o presidente do clube catalão. “Nós estamos liderando a tentativa de achar um consenso. Tem sido o nosso objetivo por um longo tempo convencer todos os clubes na liga a vender os direitos como uma competição. Nem todos eles tem sido amistosos. Nós iremos ganhar o mesmo, mas as receitas vão aumentar para os outros clubes”, disse ainda Bartolomeu.

Ter uma divisão de TV mais equilibrada torna a liga mais forte, o que rende contratos comerciais mais fortes e uma atratividade internacional ainda maior. Os supertimes criados com a disparidade econômica também chamam a atenção, mas enfraquecem a liga como um todo e, a longo prazo, tornou o campeonato espanhol menos atraente e valioso que a Premier League e vem perdendo espaço para a Bundesliga.

Se a curto prazo essa não é uma ameaça, a médio e longo prazo isso pode significar que mesmo recebendo muito mais que os outros times espanhóis, Barcelona e Real Madrid não conseguirão mais ter seus supertimes. E os times menores, a essa altura, já estarão muito mais enfraquecidos. Como as dívidas são altas e o governo, como o maior deles, não quer ver uma quebradeira geral e um calote que o afetaria diretamente, resolveu intervir. É bem possível que o processo que levou Real Madrid e Barcelona a receberem muito mais que os rivais seja mudado para uma fórmula mais equilibrada. Pensando na saúde financeira e até técnica da liga a longo prazo.

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