Escravos que trabalham sem segurança e condições ideais, com jornadas desumanas. Muitos acabam morrendo. Parecem relatos de como foi a construção de uma arena do Império Romano ou de um grande templo babilônio. Mas são reportagens sobre as obras no Catar para receber a Copa do Mundo de 2022. Informações estarrecedoras sobre o desrespeito aos direitos humanos no país, motivo de sobra para críticas da opinião pública e até de patrocinadores do torneio, causando constrangimento à Fifa. Mas nada disso respinga em um dos maiores clubes do mundo, e já passou da hora de se cobrar isso.

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O Barcelona tem uma relação bastante íntima com o Catar. O clube recebe € 33,5 milhões anuais para exibir a marca da Qatar Airways, companhia aérea estatal do país, em sua camisa. O acordo foi assinado em 2013, e tomou lugar de outro, de valor parecido, que o clube tinha com a Qatar Foundation, fundação mantida pela família real catariana. Até então, o clube preferia perder dinheiro a aceitar patrocinador na camisa e, depois, só liberou o uniforme para divulgar a Unicef (ainda que o “patrocínio” nobre – o Barça pagava à entidade – fosse apenas uma maneira de acostumar a torcida aos patrocínios efetivos que viriam em seguida).

É uma proximidade estranha. Os blaugranas fazem questão de se posicionar como uma entidade que representa uma causa e que esse envolvimento com a comunidade é parte fundamental de sua existência. Faz todo o sentido, e o clube merece muitos elogios por como tem sido um símbolo da cultura catalã. O que torna difícil entender o envolvimento com um governo cheio de polêmicas.

A questão é polêmica dentro do Barcelona. Conselheiros e torcedores contestam essa ligação, sobretudo pelo potencial de manchar a imagem do clube. Em dezembro de 2014, a imprensa israelense noticiou que o Barcelona estaria disposto a não renovar com a Qatar Airways após o final do contrato, em 2016, por causa das suspeitas de financiamento a grupos terroristas e a notícias sobre o tratamento a operários da construção de estádios da Copa de 2022.

Poderia ser uma esperança de um posicionamento mais firme, mas a notícia não se confirmou com o tempo. Em fevereiro deste ano, o primeiro vice-presidente do clube, Javier Faus, reforçou a relação com o Catar e até cogitou prolongar o patrocínio: “Posso assegurar que há zero, zero, zero problemas com a Qatar Airways, zero com o Catar e que definitivamente esperamos que nossa relação de patrocínio continue muitos mais anos”. A declaração foi dada na mesma época em que surgiram relatos de que os catarianos estariam dispostos a dobrar o valor do patrocínio a partir de 2017 e até comprar os direitos de colocar seu nome no Camp Nou.

Desde então, o clube tem sido muito discreto ao lidar com as polêmicas do Catar, fingindo que não tem nada a ver com o assunto. Enquanto que ativistas pressionam os patrocinadores oficiais da Fifa a divulgarem comunicados constrangidos sobre a situação da Copa do Mundo, o Barcelona se cala. Os dirigentes, contrariando até a posição da torcida, ignoram a história do clube para se deslumbrar com as fortunas oferecidas pelos patrocinadores.
O pior é que se vendem por pouco. Se a Qatar Airways realmente dobrar o valor ao renovar o patrocínio, pagará cerca de € 67 milhões de euros, exatamente o que a Chevrolet dá ao Manchester United. Não é um montante fora da realidade do mercado e o Barcelona teria condições de achar uma empresa disposta a desembolsar essa quantia para exibir sua marca na barriga de Messi e Neymar.

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Para reforçar o incômodo dessa relação Barcelona-Catar, dois ícones recentes do clube também se aproximaram do país asiático. Pep Guardiola foi um dos embaixadores da candidatura catariana à Copa de 2022. O técnico até tem a desculpa de que viveu no país como jogador e acabou criando algum laço afetivo, mas o mesmo não se pode dizer de Xavi. O meia está acertado com o Al-Sadd por um contrato que, segundo a imprensa catalã, considera duas temporadas como jogador e seis como embaixador do Mundial.

O Barcelona não está sozinho na relação com o Catar. O Paris Saint-Germain, por exemplo, pertence a um catariano. Mas o clube catalão sempre se projetou como algo mais nobre do que apenas uma empresa que tem como atividade o futebol. E até por isso ele tem se tornado tão atraente para quem quer usar essa imagem. Se os blaugranas querem preservá-la, precisam se posicionar de forma mais enérgica. E o primeiro passo seria aproveitar a ação do FBI em cima da Fifa e as informações sobre irregularidades na eleição para sede da Copa de 2022 para divulgar um comunicado duro contra o Catar, já abrindo caminho para um eventual rompimento ou não-renovação do contrato de patrocínio.

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