Neymar fez um bom jogo contra o Manchester City (Foto: AP)

Barcelona reagiu à crise, mas precisa que a vitória sobre o City seja o recomeço da temporada

Com muito mais movimentação, Xavi e Iniesta juntos e Messi implacável, a atuação do Barcelona no Camp Nou pareceu uma viagem no tempo, à época em que crise, problemas de vestiários e treinador ameaçado eram manchetes no outro lado do país. A reação dos comandados de Gerardo Martino às cobranças da imprensa e da torcida após duas derrotas em três jogos no Campeonato Espanhol foi imediata. Quem sofreu com isso foi o Manchester City, eliminado nas oitavas de final da Liga dos Campeões, após perder por 2 a 1, na Espanha, e 2 a 0, na Inglaterra.

No último final de semana, o Barcelona perdeu do Valladolid por 1 a 0 na pior atuação do clube nos últimos tempos. Mesmo a goleada contra o Almería, entre os dois tropeços, foi cheia de problemas. Os jogadores ficaram estáticos sem a bola, impedindo a fluidez da troca de passes incessante que o time se acostumou a executar. As atuações individuais também foram ruins: Neymar fominha, Xavi abaixo da média e Messi apagado.

Muito disso mudou. Com a parceria de Iniesta, desde o começo pela primeira vez desde o jogo da ida, Xavi melhorou muito. Acertou 96% dos 92 passes que tentou, dois deles para finalização, e apareceu na entrada da área para finalizar. Lembrou o maestro que sempre foi e que cada vez mais é difícil ser. Neymar foi escalado na ponta direita. Impressiona o quanto ele parece desconfortável nesse setor do gramado. Não é seu habitat natural. Tudo parece torto. Mesmo assim, o brasileiro teve boa atuação, soltou mais a bola, movimentou-se com o resto do time e tentou driblar na hora certa.

Messi está longe de ser aquela moto de duas mil cilindradas que acelera e passa entre os carros deslocando o ar. Falta explosão e, principalmente, confiança. As arrancadas, embora ainda difíceis de serem paradas, estão mais previsíveis. O resultado de todos essas restrições foi o gol que decidiu o confronto. O argentino não precisa estar 100% para ser importante. O passe de Fábregas, pelo meio da área, foi ruim. Seria interceptado por Lescott, mas o zagueiro inglês falhou e deixou a bola passar. O canhoto da camisa 10 azul-grená recolheu e bateu o seu lance livre: cavadinha, por cima de Joe Hart.

O gol saiu aos 22 minutos do segundo tempo de um jogo que teve uma etapa inicial de muita briga física. O Manchester City não teve pudor nenhum de parar o Barcelona na base das faltas. Fernandinho, Kolarov e Zabaleta foram amarelados em meia hora. Mesmo precisando lidar com chutes na canela, socos e empurrões, o clube da casa deveria ter ido aos vestiários vencendo por 2 a 0.

Não foi porque o apito estava entrelaçado nos dedos de Stéphane Lannoy, árbitro que ignorou os dois toques de mão de Luis Fabiano naquela vitória da seleção brasileira sobre a Costa do Marfim na Copa do Mundo de 2010 e gosta de confusão. O francês não marcou um pênalti claro em Lionel Messi e seu auxiliar anulou gol legal de Neymar. No segundo tempo, Lannoy compensou ao deixar passar um penal em Dzeko. Ainda expulsou Zabaleta, que ficou possesso e foi reclamar. Um desastre.

O jogo precisou de 38 minutos para começar a ficar movimentado. Foi nesse momento que Neymar apareceu no fim de um lançamento, driblou Kolarov com um toque de cabeça, entrou na área e bateu para fora. A resposta inglesa não demorou. Touré deu uma cavadinha para a área e David Silva decidiu emular Ibrahimovic. De costas, deu de calcanhar para Nasri, que chutou sem muita força, sem muita colocação, sem muita eficiência. Valdés encaixou.

O City voltou para o segundo tempo mais atiçado, como se espera de um time que precisa fazer dois gols para chegar à prorrogação. Não conseguiu abrir o placar porque Valdés vai deixar a torcida catalã com um gostinho de quero mais quando trocar de clube, em maio. A melhor das 11 temporadas como titular do goleiro de 32 anos está sendo a atual. A cabeçada de Dzeko foi certeira, mas a mão direita do espanhol resolveu fazer uma de suas últimas defesas milagrosas pelo Barcelona.

O gol de Messi, pouco depois, não encerrou completamente a disputa porque se há alguma coisa que nunca muda é a fragilidade da defesa em bolas aéreas. Dzeko cabeceou para a pequena área e Kompany, aparentemente em posição legal, completou, mas era tarde demais. O Manchester City foi totalmente à frente, adotou o desespero como tática e deixou todo o campo para o contra-ataque.

A sorte dos ingleses é que Alexis Sánchez tem seus momentos de grosso. Teve campo livre para correr, mas pisou na bola. A sorte dos espanhóis é que Iniesta nunca faz isso. De volta ao time, após ganhar folga porque sua mulher teve a gravidez interrompida, o filho mais ilustre de Albacete surgiu na ponta direita, driblou Hart e rolou para Daniel Alves fazer o gol que sepultou de vez o sonho de Manuell Pellegrini de vencer os quatro campeonatos que disputou na temporada. Fora da Copa da Inglaterra, resta apenas o Campeonato Inglês para fazer companhia à Copa da Liga Inglesa.

O Barcelona, mesmo com todos os problemas, segue vivo em três competições, mas, para vencer o Real Madrid na final da Copa do Rei e alcançá-lo no Espanhol – está quatro pontos atrás -, precisa que a partida desta noite seja o recomeço de uma temporada atribulada, com novo treinador, contratação polêmica, renúncia de presidente e problemas físicos de Lionel Messi. Nenhum desses jogadores esqueceu como se joga futebol. Basta manter a mudança de atitude.

Formações iniciais

campinho Barça x City

Destaque do jogo

Lionel Messi ainda não está 100%, mas não foi o melhor jogador do mundo quatro anos seguidos à toa. Fez o gol da vitória, em lance corriqueiro – para ele -, e comandou a vitória do Barcelona. Arrancou pelo meio várias vezes e distribuiu o jogo, embora às vezes tenha demorado para soltar a bola. Deu cinco passes para a finalização dos companheiros.

Momento chave

O Manchester City voltou mais disposto a atacar o Barcelona na segunda etapa e criou uma excelente chance em cabeçada de Edin Dzeko. Se Valdés não executasse uma defesa milagrosa, os ingleses teriam aberto o placar e ativado a desconfiança na torcida catalã, ainda mais depois de três jogos ruins pelo Espanhol.

Gols

22′/2T – GOL DO BARCELONA! Fàbregas enfia pelo meio da área, Lescott tenta interceptar, mas erra. A bola vai para trás, Messi recolhe e toca por cima de Hart.

44′/2T – GOL DO MANCHESTER CITY! Dzeko cabeceia para dentro da área, Kompany completa para o gol e empata a partida.

45′/2T – GOL DO BARCELONA! Iniesta surge na direita da grande área, dribla Hart e rola para Daniel Alves. Apesar de três jogadores do City em cima da linha, o brasileiro marca o segundo.

Curiosidade

Messi chegou a 67 gols em Liga dos Campeões e se tornou o maior artilheiro da história da competição por um único clube, à frente de Raúl, que 66 gols pelo Real Madrid, 71 no geral e lidera a lista de goleadores.

Ficha técnica

Barcelona_escudo

Barcelona

Victor Valdés; Daniel Alves, Gerard Piqué, Javier Mascherano e Jordi Alba; Sergio Busquets, Cesc Fábregas (Sergi Roberto, 40′/2T) e Xavi Hernández; Andrés Iniesta, Lionel Messi e Neymar (Alexis Sánchez, 35′/2T).
Técnico: Gerardo Martino

Manchester City_escudoManchester City
Joe Hart; Pablo Zabaleta, Vincent Kompany, Joleon Lescott e Aleksandar Kolarov; Fernandinho, James Milner, Yaya Touré, Samir Nasri (Jesus Navas, 29′/2T) e David Silva (Álvaro Negredo, 27′/2T); Sergio Agüero (Edin Dzeko, 1′/2T).
Técnico: Manuel Pellegrini

Local: Estádio Camp Nou, em Barcelona (ESP)
Árbitro: Stéphane Lannoy (FRA)
Gols: Lionel Messi, 22′/2T, Vincent Kompany, 44′/2T e Daniel Alves, 45′/2T
Cartões amarelos: Fàbregas (Barcelona); Fernandinho, Kolarov, Zabaleta, Vincent Kompany (Manchester City)
Cartões vermelhos: Zabaleta (Manchester City)