O Atlético de Madrid levou a sua torcida à loucura eliminando o Barcelona (Foto: AP)

Esse Atlético de Madrid tem um coração do tamanho da Europa

O Atlético de Madrid não gastou milhões de euros na maior revelação brasileira dos últimos tempos. Não tem três dos cinco melhores jogadores do mundo. Não pode substituir jogador de seleção espanhola por outro no segundo tempo, nem consegue trocar 120 passes por minuto. Não tem, portanto, a mesma qualidade técnica do Barcelona. Ao invés de desmotivar o time de Diego Simeone, isso o inflama. E na base do coração, da raça e da vontade, os colchoneros venceram o Barça por 1 a 0, no Vicente Calderón, e estão nas semifinais da Liga dos Campeões.

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Absolutamente nada tira o mérito do Atlético de Madrid, que sufocou o Barcelona enquanto teve oxigênio suficiente para fazer os músculos obedecerem. Quando as pernas começaram a cansar, pois Simeone comanda soldados, e não robôs, os dez jogadores de linha pareciam um corpo só. Fecharam a entrada da área do goleiro Courtois. Recusaram-se a permitir que os adversários invadissem seus territórios. E ainda tiveram, no contra-ataque, pelo menos três excelentes oportunidades de matar o duelo no segundo tempo.

Mas também não pode passar batido que a corda do Barcelona estourou. O time de Tata Martino teve alguns bons momentos na temporada, mas passa por uma reformulação e os dirigentes catalães já devem estar pensando se o argentino é realmente o nome ideal para liderá-la. Contra esse Atlético de Madrid, a inércia e a experiência de grandes jogos não foram suficientes. Precisavam do coração e da bola.

Lionel Messi fez potencialmente sua pior partida com a camisa do Barcelona nos últimos cinco anos. Não apareceu, não buscou jogo, não driblou, mal tentou chutar. Sua única chance foi ainda no primeiro tempo, de cabeça, em cruzamento de Daniel Alves. Os maestros Xavi e Iniesta também foram mal. O primeiro foi tão ineficiente que conseguiu acertar todos os 100 passes que tentou na partida e apenas um deles terminou em finalização. O segundo errou domínios e foi substituído na metade do segundo tempo. Quem ao menos buscou o jogo, tentou participar e criar alguma coisa diferente foi Neymar, mas não foi desta vez que o brasileiro decidiu uma partida de quartas de final de Liga dos Campeões sozinho.

Neymar foi o melhor do Barcelona, mas teve que assistir à festa do Atlético de Madrid (Foto: AP)

Neymar foi o melhor do Barcelona, mas teve que assistir à festa do Atlético de Madrid (Foto: AP)

Há poucos times no mundo que passam a bola melhor que o Barcelona, se houver algum. Mas os soldados de Simeone, trabalhadores incansáveis e persistentes, pressionaram a saída de bola do adversário de tal forma que os tetracampeões europeus pareciam um Elche qualquer. E não demorou cinco minutos para que o placar fosse aberto. Adrián acertou o travessão, a bola voltou para a área e chegou a Villa, pela esquerda. O cruzamento encontrou a cabeça do próprio Adrián, que ajeitou para Koke estufar as redes. O gol mais rápido que o Barcelona já sofreu na história da Liga dos Campeões foi apenas o prenúncio do que vinha pela frente nos próximos 15 minutos.

Mesmo depois de abrir o placar, em demonstração notável de dedicação e raça, o Atlético continuou com a pressão, na mesma intensidade. Tanto que em poucos segundos, Koke roubou a bola na entrada da área do Barcelona e rolou para Villa, louco para marcar no ex-clube que o transferiu sem muita cerimônia para a capital espanhola, seja por rancor ou por pura satisfação. O maior artilheiro da seleção espanhola acertou a trave. Duas vezes. Foi apenas a partir da metade do primeiro tempo que as ações ficaram mais equilibradas. Naturalmente, a pressão do Atlético de Madrid diminuiu. Com isso, o Barcelona conseguiu manter a costumeira posse de bola, mas ameaçou muito pouco.

Simeone nem tentou voltar com a pressão na etapa final. As prioridades eram outras: defender e sair no contra-ataque. E os colchoneros fizeram isso quase impecavelmente. Permitiram apenas duas oportunidades claríssimas do Barcelona, em enfiada de Xavi para Neymar, que tentou driblar Courtois e foi desarmado pelo goleiro; e em cabeçada do brasileiro, de peixinho, já nos últimos atos do show desta quarta-feira.

Só não foi uma atuação perfeita porque o Atlético de Madrid riu na cara do perigo. Além das chances do primeiro tempo, teve pelo menos mais três excelentes no segundo para matar o duelo e as desperdiçou. Pela direita, Diego chutou cruzado para defesa de Pinto. Cristian Rodríguez, pelo outro lado, fez a mesma coisa, com o mesmo resultado. A oportunidade mais clara veio com Gabi. O capitão avançou pela esquerda e ficou cara a cara com o goleiro. Desacelerou, pensou, coçou a testa, bebeu um chazinho, checou o Facebook e, enfim, com todo o tempo do mundo, chutou a gol. Fraco. Displicente. Pinto cortou com a perna. Nesses lances, faltou o poder de decisão de Diego Costa, fora até do banco de reservas por causa de uma lesão.

Nem sempre quem não faz toma. O Atlético de Madrid usou toda a catimba que aprendeu com o seu treinador para prender a bola na frente. Um Barcelona sem inspiração e com muito menos raça foi presa fácil para os incansáveis colchoneros. Não importa se essa campanha europeia vai terminar daqui a dois ou a três jogos, em Madrid, Londres, Munique ou no Estádio da Luz. Qualquer adversário tem muitos motivos para temer o time com o maior coração da Liga dos Campeões.

Formações iniciais

campinho Atletico x Barcelona

Destaque

O jogo coletivo do Atlético de Madrid foi exemplar. Tanto ao pressionar a saída de bola do Barcelona no primeiro tempo, quanto para compactar as linhas defensivas para frear as tentativas desesperadas dos catalães no segundo.

Momento chave

Tata Martino queria marcar antes do adversário e não passou nem perto de conseguir. Com cinco minutos, o Atlético de Madrid abriu o placar e conseguiu se armar para contra-atacar, do jeito que mais gosta de fazer. Essa tática foi potencializada no segundo tempo e criou pelo menos três ótimas chances.

Os gols

5′/2T – GOL DO ATLÉTICO DE MADRID! Adrián acertou a trave. No rebote, Villa, pela esquerda, cruzou para a boca do gol, o próprio Adrián arrumou de cabeça e Koke completou para as redes.

Curiosidade

O gol de Koke, aos 5 minutos, foi o mais rápido que o Barcelona levou em toda a história da Liga dos Campeões. Superou o de Michalis Konstantinou, do Panathinaikos, em 2002, e o de Eidur Gudjohnsen, do Chelsea, três anos depois. Informações do Mister Chip.

Ficha Técnica

Atlético de Madrid 1 x 0 Barcelona

atletico de madrid escudoAtlético de Madrid
Thibaut Courtois; Juanfran, Miranda, Diego Godín e Filipe Luís; Raúl García, Tiago, Gabi e Koke; Adrián (Diego, 15′/2T) e David Villa (Cristian Rodríguez, 33′/2T). Técnico: Diego Simeone

Barcelona_escudoBarcelona
José Manuel Pinto; Daniel Alves, Marc Bartra, Javier Mascherano e Jordi Alba; Sergio Busquets, Xavi Hernández e Cesc Fàbregas (Alexis Sánchez, 15′/2T); Andrés Iniesta (Pedro Rodríguez, 27′/2T), Lionel Messi e Neymar. Técnico: Tata Martino

Local: Estádio Vicente Calderón, em Madrid (ESP)
Árbitro: Howard Webb (ING)
Gols: Koke (5′/1T)
Cartões amarelos: Koke (Atlético); Sergio Busquets, Javier Mascherano e Daniel Alves (Barcelona)
Cartões vermelhos: Nenhum