Gabriel Batistuta é um personagem único no futebol. E não apenas por seus gols, que conquistaram diferentes torcidas e ainda marcam a história do esporte, principalmente na Argentina e na Itália. O craque possui um pensamento diferente do que se nota entre outros boleiros. A carreira moldou sua personalidade de maneira distinta em relação ao deslumbramento que é comum. Algo que fica claro em suas declarações. Nesta sexta, antes do amistoso entre os argentinos e os italianos, Batigol deu uma longa entrevista ao Corriere dello Sport. Falou de vários temas, inclusive momentos passados de sua trajetória. Mas o mais interessante se concentra mesmo na visão do centroavante sobre a vida. Abaixo, destacamos alguns trechos:

O drama pelas dores nos tornozelos

“Estou bem agora. Muito melhor do que há dois anos. Às vezes atuo em algumas partidas festivas. As pernas não estão ótimas, mas eu caminho. Dois anos atrás, pensar em caminhar era um sonho. Andar normalmente era a única coisa que eu queria, caminhar com minha esposa, meus filhos. Desde então, tenho feito o tratamento e está melhorando. Eu me mantenho vivo com a dor, mas não se compara com a terrível que sofria há dois anos. Espero que possa manter esta vida. Eu conheci o inferno da imobilidade. Acredite em mim, era duro”

Como lidava com o futebol

“O futebol para mim é acima de tudo uma grande responsabilidade. No momento em que me tornei profissional, sabia que todas as vezes em que entrava em campo ou nos treinamentos, havia gente que pagava para ver um espetáculo no qual eu era um dos atores. Então, deste ponto de vista sempre foi um trabalho duro. Não sou como os jogadores que aproveitam o jogo. Eu não, não tinha esse prazer. Muita vezes eu fiz isso depois de uma partida, depois de uma bela vitória, depois de um título. Naqueles momentos, sim, eu curtia. Mas durante o jogo eu nunca me tranquilizava, porque sentia que não poderia errar. Deveria criar, fazer o melhor, porque estava sendo observado por pessoas que pagaram e se sacrificaram para serem felizes. Nunca pensei que o futebol era uma história entre eu e a bola. Para mim sempre o público esteve à frente. Era meu dever dar o máximo. Meus tornozelos também foram afetados por este conceito de futebol. E a vida. E as pessoas próximas a mim”

Como explicar o futebol a uma criança

“Eu tinha um problema com meus filhos. Porque quando falava de futebol, eu falava seriamente, como uma profissão. Quando você diz a um garoto de 12 ou 13 anos que, para jogar futebol, você precisa de limites, aquela criatura em certo ponto te diz: ‘Basta, farei outra coisa’. Mas é preciso sempre dizer a verdade às crianças. O futebol, a certo ponto, não é mais um jogo. É um esporte lindo para fazer amigos, para aprender a viver. Você conhece todas as situações da vida. Fica contente, triste, tem que lutar por algo, às vezes as coisas acontecem com facilidade. Isso é a vida e apenas a vida. Então eu não saberia como explicar o futebol a uma criança. Talvez diria: ‘Jogue futebol, mas tenha cuidado com tudo ao seu redor’. Isso serviu a mim. Vivi bem, conheci boas pessoas. Tive companheiros que não tiveram a mesma sorte e agora estão sozinhos. É um ambiente duro. Ainda penso nisso”

Como construiu sua imagem com os filhos

“Não tenho nenhuma recordação de minha carreira em casa, porque não queria que meus filhos me vissem como um mito. Eu sou uma pessoa normal. Você não vê uma foto como jogador, nada. Nem um troféu. Talvez algum dia eu sinta falta disso. Eu mantive minha família distante do mito, sobre o que os torcedores pensavam sobre mim. Sou outra coisa. Alguém normal. Meus filhos sabem porque descobriram sozinhos. Acho que eu fiz bem. Talvez estivesse errado em não manter as camisas que fizeram parte da minha carreira. Um dia eu sentirei falta delas, acho. Os troféus estão guardados em algum lugar, posso encontrá-los. No final, entretanto, as amizades permanecem. Talvez, se eu tivesse deixado a Fiorentina, poderia ganhar dois ou três campeonatos em algum outro lugar. Mas estou bem com isso. Eu ando. Tenho uma boa história a contar. E tenho muitos amigos, em todas as partes”

Como vê a carreira

“Não tenho arrependimentos sobre minha carreira, não agora. Até um ano atrás sim, tinha todos os lamentos possíveis. De que fiz poucos gols, não conquistei muitos troféus. Não estava feliz com minha carreira. Messi me superou na seleção. Não estava feliz. Mas isso tem mudado, comecei a ver o que eu fiz, o que eu era e o que me tornei. Estava errado. Eu sempre olhei para frente e nunca sobre o que deixei. Desde que mudei meu ponto de vista, fiquei mais calmo. Estou feliz. Porque, dos campinhos, cheguei a jogar nos melhores estádios do mundo, com os melhores jogadores do mundo, venci e tive o amor do público. Seria impossível não ser feliz. Seria tolo se não fosse”

Os melhores defensores que enfrentou

“Eu tenho uma longa lista porque, no começo, todos eram difíceis. Depois, quando você vai ficando mais velho, nunca sabe se é você que está melhorando ou eles que estão decaindo. Mas eu me lembro de Vierchowod, Baresi, Maldini, Nesta, Chamot, Bergomi, Ferri. Tantos. Quando você começa a fazer gols, os times têm mais cuidado sobre o que você pode fazer. E então você nunca tem apenas um marcador, mas dois ou três. Tantos chegavam firme e eu, claro, me defendia. O importante é que ao final da partida a gente se cumprimentasse. E assim sempre foi”

O melhor técnico

“Bielsa, pelas coisas que me ensinou. Porque pegou um garotinho e o transformou em profissional de verdade. E depois Basile, com quem conquistei as duas últimas Copas América. Na Itália, Capello e Ranieri. Eu, sinceramente, não dava muita atenção aos técnicos, no sentido que o atacante vive de instinto. É duro ensinar um atacante. Talvez você treine e estude todos os movimentos, mas as coisas acontecem de repente. Eu tinha um bom relacionamento com todos. Menos com Passarella, com quem não havia um laço. Não digo que ele era uma má pessoa, mas foi o único com quem não me dei bem, com o qual tive um conflito. Com todos os outros tenho boas lembranças”

Seu herdeiro no futebol

“Não, sinceramente não há um novo Batistuta. É justo que seja assim, cada um deve ser o que é. Eu não gostava de ser comparado a outro, gostava de ser eu. Talvez eu tirasse lições de todos, era uma esponja para absorver. Mantinha a humildade, olhava para todos – de Van Basten ao último atacante da Serie A. Todos te deixam algo, sempre. Higuaín ou Icardi estão se saindo bem. Higuaín está há dez anos no mais alto nível e não precisa provar nada a ninguém. Icardi é um pouco mais jovem, mas sempre que deseja, marca gols”

Maradona é poesia e Messi é prosa

“Para mim, Maradona é o maior de todos. Ele representa o argentino em tantas coisas, não apenas no futebol. E ele foi quem nos trouxe as estrelas, conquistando a Copa do Mundo. Tinha carisma, talento e uma habilidade rara. Messi, mesmo sendo tecnicamente no mesmo nível ou até superior, não irá superá-lo. O carisma de Maradona não se vê em Lionel. Diego podia controlar o estádio, todos olhavam para ele. Joguei com ele e posso dizer como era tecnicamente decisivo para o time. O que acontece com Diego vem acompanhado por uma luz particular. Embora não concorde com muitas coisas que ele faça, e seu estilo de vida não é o meu, sou quase o oposto, nós dois temos uma boa relação. Para mim ele permanecerá como o maior. O que falta para Messi em relação a Maradona é essa dimensão fantástica, quase onírica. Mesmo que ele treine todos os dias, não conseguirá. Isso é uma coisa da natureza, se nasce de uma maneira ou de outra. No passado existiam dúvidas sobre Messi, agora não, agora é perfeito tecnicamente e não há o que discutir. Não obstante, para mim não é Diego. E provavelmente nunca será”

A ditadura na Argentina

“Foi um drama, mas tive sorte de não vivenciar, era criança. Cresci depois. Meus pais mantiveram isso distante de mim. É um tema sobre o qual não se falou na Argentina por anos, se manteve como um tabu. Eu sei o que aconteceu, mas não quero voltar. Mas isso precisa ser falado, como se faz agora em meu país. Falar porque é o melhor modo de garantir que não possa acontecer novamente. Na Argentina todo o estado sofreu com um golpe de autoridade. No meu país, por exemplo, se você fala no exército pensa logo na ditadura. Mas o exército está para servir, em todas as democracias. Devemos chegar a um equilíbrio. Conseguiremos isso”

A relação com Florença

“Todos os dias, ao longo de dez anos, eu estive em Florença. Minha primeira memória é que eu achei a cidade feia. Chegava de Roma pela estrada e me perguntei para onde estava indo. Porque, ao final da estrada, uma imagem pouco usual apareceu para mim. Eu vinha da Argentina, onde tudo era novo, os prédios de vidro, os arranha-céus. Ver estas construções de cinco séculos me deram uma impressão diferente. Depois comecei a apreciar e percebi como era maravilhoso. Depois de três ou quatro meses, já estava apaixonado por Florença. Entendi os florentinos e te asseguro que não é fácil. Eles me entenderam e me casei com a causa violeta. Pensei que ser campeão aqui seria ótimo, mas não aconteceu. Ainda assim chegamos longe. Agora sei como Florença é uma cidade belíssima”

Davide Astori

“Ainda estou em estado de choque. Às vezes quero falar sobre isso, mas continuo sem palavras. O que eu falarei? Eu não posso dizer nada, apenas pensar sobre seu destino. Não encontro palavras, elas me parecem vazias ou pequenas”