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Béla Guttmann: último mestre húngaro a transformar o futebol brasileiro

Pouco mais de um ano de trabalho, um título do Campeonato Paulista. Na frieza dos números, é difícil medir a importância que Béla Guttmann teve no futebol brasileiro. Algo que pode ser dimensionado melhor através da façanha da Seleção na Copa do Mundo de 1958. Porque o primeiro título mundial do Brasil deve muito ao comandante húngaro. Sua influência sobre a mentalidade tática de Vicente Feola foi um dos fatores decisivos para a conquista na Suécia.

TEMA DA SEMANA: Técnico estrangeiro no Brasil: já tentaram e já deu muito certo

Por tudo o que fez ao longo da carreira, Guttmann pode ser facilmente colocado entre os melhores técnicos da história. E um dos grandes comandantes estrangeiros a deixar marcas profundas no Brasil. O último mestre húngaro, de tantos compatriotas que podem ser colocados como responsáveis pelo estilo de jogo que consagrou o futebol praticado por aqui. A qualidade técnica, é claro, já existia. Mas a mentalidade foi desenvolvida a partir de Ladanyi, Kürschner e Guttmann. Três nomes que deveriam ser mais lembrados, sobretudo, por mostrarem que só o que se conhecia no Brasil não era suficiente no futebol, e que é possível se acrescentar ainda mais através do conhecimento.

Como os técnicos húngaros forjaram o futebol brasileiro

Para muita gente, o passado do futebol húngaro é praticamente um sinônimo do que a seleção liderada por Ferenc Puskás fez no início da década de 1950. De fato, não há time mais emblemático na história da Europa Oriental. No entanto, pensar na revolução proporcionada pelos Mágicos Magiares é também observar as grandes contribuições que os técnicos do país deram ao esporte. Gustav Sebes, o comandante daquele esquadrão, era o principal mentor da preparação intensa feita pelos craques húngaros, enquanto adaptou a tática de Marton Bukovi, treinador que transformou o WM em 4-2-4 no MTK Hungria. Dois grandes nomes da ótima escola de técnicos que a Hungria teve e que causou impacto no Brasil desde os anos 1920.

O primeiro técnico húngaro a fazer carreira por aqui foi Eugênio Medgyessy. Ex-jogador do Ferencváros, chegou ao país em 1926. Treinou Botafogo, Fluminense (campeão do anulado Torneio Início do Campeonato Carioca de 1927) e São Paulo, antes de rumar ao futebol argentino. E o Botafogo voltou a apostar em um treinador da Hungria pouco tempo depois. Um que marcou seu nome no alvinegro: Nicolas Ladanyi.

O “Capitão” jogou futebol em seu país e serviu ao exército do Império Austro-Húngaro durante a Primeira Guerra Mundial. Com o fim do conflito, rumou aos Estados Unidos, onde se especializou em estudos sobre esportes. E aplicou esse conhecimento no Botafogo a partir de 1930. Os alvinegros passaram a usar inovadores métodos de preparação física e psicoanálise na preparação do time, o que, somado ao talento individual que o técnico tinha à disposição, formou o último grande esquadrão do futebol amador no Rio de Janeiro. Com Carvalho Leite, Nilo, Patesko, Martim Silveira e Pedrosa, o Glorioso foi quatro vezes campeão carioca sob o comando de Ladanyi, entre 1930 e 1934.

Kürschner, ex-técnico de Flamengo e Botafogo

Kürschner, ex-técnico de Flamengo e Botafogo

Já em 1937, seria a vez do Flamengo trazer outro húngaro para comandar o seu timaço. Os rubro-negros investiam alto em craques, com as contratações de Leônidas, Fausto e Domingos da Guia. E o escolhido para dar liga a tantos talentos foi Izidor Kürschner, tido como um dos melhores técnicos europeus. Nos tempos de jogador, foi treinado no MTK Hungria por Jimmy Hogan, considerado o grande mentor do futebol na Europa Central, além de influência direta de Sebes nos Mágicos Magiares e de Hugo Meisl no Wunderteam da Áustria. O inglês prezava pela habilidade de seus talentos e pelo jogo coletivo. Algo assimilado por Kürschner, que logo substituiu Hogan no comando do MTK. Na sequência, conquistou o Campeonato Alemão com o Nürnberg e fez fama na Suíça, faturando três títulos nacionais e a prata nos Jogos Olímpicos de 1924. No Rio de Janeiro, virou “Dori” e seguiu passando o que sabia.

Kürschner substituiu Flávio Costa no comando do Fla, mas seguiu tendo o brasileiro como assistente. O húngaro introduziu o esquema 2-3-5 (o famoso WM) no Brasil, assim como os treinos táticos na rotina do clube. Além disso, prezava por um estilo de jogo com maior controle da bola, aproveitando os grandes jogadores que tinha à disposição – e, por isso, insistia nos treinos de fundamento. Influenciou até mesmo a Seleção na Copa de 1938, a primeira grande representante do estilo ofensivo que se tornou identidade do futebol nacional. Por mais que o técnico Ademar Pimenta ainda não adotasse o WM no time, o trabalho do húngaro com os principais astros daquele elenco ajudou na campanha até a semifinal.

O problema é que o trabalho de Kürschner no Flamengo não durou muito. Recebendo altos salários para a época, o treinador não falava português, dependendo de um tradutor. E a decisão de barrar Fausto do time gerou insatisfações, até mesmo de Flávio Costa. O húngaro se manteve no cargo no primeiro ano graças aos resultados, conquistando a Taça da Paz de 1937 e sendo vice do Carioca. No ano seguinte, contudo, a falta de títulos e os problemas de relacionamento o queimaram na Gávea, demitido em setembro de 1938. Seus métodos, ao menos, ficaram para Flávio Costa levar os rubro-negros ao tricampeonato estadual de 1942 a 1944. Kürschner ainda trabalhou no Botafogo entre 1939 e 1940, ao lado de Nicolas Ladanyi, mas fez pouco. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1941, sem poder contribuir ainda mais com o futebol brasileiro.

Na década de 1940, outro técnico húngaro a desembarcar no Brasil foi Imre Hirschl, mas por uma breve passagem. “El Mago” foi o primeiro grande treinador estrangeiro do futebol argentino, bicampeão nacional com o River Plate de Pedernera e Moreno entre 1936 e 1937. O desempenho no país vizinho o levou ao Cruzeiro de Porto Alegre em 1945 com o projeto de barrar o Rolo Compressor do Internacional no Campeonato Gaúcho, mas não teve força o suficiente. O ressurgimento de Hirschl aconteceu no Peñarol, entre 1949 e 1951. De sua “Esquadrilha da Morte” saíram cinco titulares do Uruguai na Copa de 1950, entre eles Obdulio Varela, Schiaffino e Ghiggia.

Conexão direta com os Mágicos Magiares

O último período de glórias dos treinadores húngaros no Brasil foi curto, mas deixou marcas profundas no futebol do país. E partiu da Revolução Húngara de 1956. Após a destituição do primeiro ministro Imre Nagy em abril de 1955, o ápice da revolta popular no país aconteceu em outubro do ano seguinte, provocando a repressão do exército soviético contra os húngaros. Enquanto as tensões estouravam, o Honvéd, principal clube do país e base da seleção, viajava para a disputa da Copa dos Campeões. E, mesmo com o fim dos confrontos, boa parte dos jogadores se recusou a voltar para a Hungria. Ao mesmo tempo, uma vantajosa proposta feita por um dirigente do Flamengo convidava os húngaros para uma série de amistosos.

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Alguns membros do Honvéd preferiram voltar para a Hungria, mas a maioria encarou os riscos do que era considerado uma deserção e veio à América do Sul em turnê – como Puskás, Kocsis e Czibor. A eles, se juntaram jogadores de outros clubes húngaros que também estavam em excursão. Então, em Viena, os húngaros se encontraram com Béla Guttmann, que morava na cidade onde fez carreira pelo Hakoah, após passar por Milan e Vicenza. E o treinador foi chamado para se juntar à delegação, ao lado do comandante do Honvéd, Jeno Kalmár.

Ex-comandado Jimmy Hogan no MTK Hungria e ex-companheiro de clube de Dori Kürschner, Guttmann foi mais um técnico envolvido na revolução pela qual passara o futebol húngaro. Ele já havia treinado o Honvéd na década de 1940 (na época, chamado Kispesti), mas se demitira depois de uma briga com Puskás. Passado que ficou para trás, embora só tenha aceitado o convite da viagem ao Rio se permanecesse sem vínculo profissional com o clube. Aos 57 anos, o técnico tinha extenso currículo, com trabalhos em sete países diferentes, incluindo a Argentina, onde treinou o Quilmes, e dois títulos húngaros – além de ter participado do início da campanha da conquista do italiano de 1954/55 com o Milan, demitido por problemas com dirigentes, mesmo na liderança da Serie A.

Guttmann acompanhou o Honvéd nas cinco partidas que o time disputou, entre Rio de Janeiro, São Paulo e Caracas. Aquela foi a última excursão dos craques húngaros com o clube, antes de Puskás, Kocsis e Czibor seguirem ao futebol espanhol. O treinador, porém, ficou no Brasil. Apresentado como gerente do Honvéd, ele conheceu Manuel Raymundo Paes de Almeida, então diretor de futebol do São Paulo. E o dirigente resolveu contratar o húngaro para o Tricolor, que tinha o técnico Vicente Feola perseguido pelas críticas, apesar do vice no Paulista de 1956.

As inovações de Guttmann no São Paulo

Béla Guttmann não era o plano principal do São Paulo. Antes, o clube havia negociado com vários outros treinadores, entre eles Oswaldo Brandão e Aymoré Moreira. Com a recusa, a alternativa era o húngaro, que sequer falava português. Ainda assim, os tricolores resolveram manter a aposta em um comandante que possuía boa fama no exterior. O negócio estava fechado nas primeiras semanas de 1957, com o novo técnico deslocado inicialmente para a função de observador, acompanhando partidas e treinos para conhecer a equipe. Já Feola passaria a fazer parte da comissão técnica.

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Béla Guttmann, ao centro (Foto: Cor­tesia Mi­chael Serra/Arquivo His­tó­rico do São Paulo Fu­tebol Clube)

Inicialmente, Guttmann teve que lidar com as desconfianças. Os métodos de treinamentos de um europeu eram vistos com ressalvas, especialmente pela forma como seriam recebidos pelos jogadores. Em março, o novo técnico começou o trabalho, insistindo nos treinos táticos e de fundamentos– como já havia feito Kürschner no Flamengo. E, se não falava português, o húngaro tentava transmitir o que queria da maneira como dava. “Pá, pá, pá, pum!” era o seu principal comando naqueles dias, pedindo para que os jogadores tocassem e finalizassem.

Durante as atividades da equipe, Guttmann dava o exemplo aos jogadores de como fazer – e se aproveitava das enormes qualidades dos tempos em que era jogador. Mais do que isso, começou a implantar técnicas simples, mas extremamente funcionais, como treinos de chutes em alvos e intensificação do trabalho com o goleiro José Poy. Os resultados do trabalho acabaram aparecendo rapidamente, especialmente com o ótimo elenco que o São Paulo possuía na época, estrelado por Zizinho, Dino Sani, Mauro Ramos e Canhoteiro.

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A grande conquista de Guttmann à frente do São Paulo foi o Campeonato Paulista de 1957, ainda hoje um dos mais celebrados pelo clube. O Tricolor teve 13 vitórias e só sofreu uma derrota naquela campanha, com ótima média de 2,94 gols marcados por partida. Na decisão, vitória por 3 a 1 sobre o Corinthians. Era a consagração do método do técnico húngaro, que tinha feito uma campanha apenas mediana no Torneio Rio-São Paulo, terminando com o sétimo lugar.

Naquele ano, aliás, outro técnico húngaro viria ao Brasil. No Rio de Janeiro, Gyula Mándi seguiu os passos de Guttmann ao firmar contrato com o America em abril de 1957. Assistente de Gustav Sebes na seleção e principal responsável pelos treinamentos dos Mágicos Magiares, o europeu também se exilou do país e buscou refúgio treinando o Mequinha estrelado por Canário, sexto colocado no Carioca. Depois de deixar o Rio de Janeiro em 1958, Mándi ainda comandou a seleção israelense.

A principal herança do mestre húngaro

Mais do que os métodos de treinamento ou o título, Guttmann marcou em sua passagem no Brasil pela inovação tática que ajudou a implementar. Um dos cérebros no comando do futebol húngaro durante a década de 1950, assimilou a transformação do WM em 4-2-4 que se iniciara no país. Uma mudança que, mais do que numérica, também refletiu no domínio da seleção e no bom desempenho dos clubes do país na época. O centroavante transformado em meio-campista, personificado por Nándor Hidegkuti nos Mágicos Magiares, fazia uma diferença enorme para desestabilizar as defesas adversárias. Uma tática que Guttmann ajudou a expandir as fronteiras.

O primeiro país que recebeu as inovações pelas mãos do técnico foi a Itália. No Milan, o técnico possuía uma verdadeira seleção para poder aplicar as novidades. A linha de frente formada por Gren, Nordahl, Liedholm e Schiaffino é uma das mais célebres da história do futebol italiano, e teve seu potencial bastante explorado por Guttmann. Qualidade técnica que o treinador também encontraria no São Paulo, onde também utilizou o 4-2-4, até então inédito no Brasil. Sobretudo, com uma mentalidade ofensiva.

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“Sempre me interessou que o ataque fizesse mais gols do que obrigar a defesa a não os sofrer. Não me desgosta nada que o adversário marque três ou quatro gols, desde que a minha equipe marque quatro ou cinco…”, declarou Guttmann, em 1962, durante entrevista ao jornal português A Bola. Algo que já era possível de notar desde os tempos de São Paulo: “Cada equipe precisa de ter um sistema próprio, adaptado às características dos jogadores. E assim como um alfaiate não faz o mesmo feitio para um corcunda ou para um homem normal, do mesmo modo um treinador não pode dar a todas as equipes o mesmo figurino de jogo”.

O futebol ofensivo e a adaptabilidade de Guttmann no Tricolor acabaram se refletindo na seleção brasileira rumo à Copa de 1958. Vicente Feola, que seguia trabalhando no clube ao lado do húngaro, foi nomeado o treinador do Brasil em maio daquele ano, às vésperas da Copa. Montou a equipe com o 4-2-4 que havia aprendido com o estrangeiro: Didi era o diferencial tático, assim como Hidegkuti na Hungria, embora com características individuais totalmente diferentes. Havia, é claro, essa adaptação à característica dos jogadores. Não à toa, outra novidade da equipe era o papel de Zagallo recompondo o meio-campo e dando liberdade para Nilton Santos atacar pelo lado esquerdo. No esquema de Guttmann, o Brasil contou com grandes atuações de Didi, Pelé, Garrincha, Vavá. Conquistou sua primeira Copa do Mundo.

O adeus repentino de Guttmann

A saída de Béla Guttmann do São Paulo aconteceu pouco mais de um mês depois da conquista do Mundial de 1958. Não pelos resultados esportivos, já que o Tricolor estava contente com o técnico, apesar da quarta colocação no Torneio Rio-São Paulo. Existem duas histórias para explicar a despedida do clube: uma, afirmando que o próprio húngaro teria pedido para sair, por conta de problemas de saúde de sua esposa, que desejava voltar à Europa; outra, por conta da alta do dólar, que impedia os são-paulinos de continuarem pagando os altos salários do técnico, aceitando sair amigavelmente.

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O fato concreto é que Guttmann deixou o São Paulo para se tornar uma lenda ainda maior na história do futebol. Conquistou o Campeonato Português de 1958/59 pelo Porto, antes de formar o grande esquadrão do Benfica na década de 1960. Foi bicampeão nacional e da Copa dos Campeões. A conturbada saída dos encarnados em sua segunda passagem, no entanto, acabou na famosa maldição de que o clube não voltaria a ser campeão europeu em 100 anos.

Já o São Paulo viveu o seu maior jejum de títulos após a saída de Guttmann, voltando a erguer uma taça apenas em 1970. A seleção brasileira, ao menos, continuou desfrutando da herança de Guttmann por mais tempo. Bicampeã do mundo, a equipe deixou para trás o complexo de inferioridade que a marcava, enquanto o tricampeonato ainda teve resquícios daquela influência tática. Não há outro país no mundo que o futebol brasileiro deva ser mais grato do que a Hungria, por tudo o que os seus professores ensinaram.